Extrema direita cresce na Argentina; conheça o novo político alinhado às ideias de Bolsonaro e Trump

Economista Javier Milei concorre a cargo de vereador e foi terceiro candidato mais votado em Buenos Aires, reduto da vice-presidente Cristina Kirchner

  • Por Lorena Barros
  • 09/10/2021 10h00
Manuel Cortina / SOPA Images/Sip via Reuters ConnectCandidato Javier Milei ganhou notoriedade nas urnas mesmo sem passado político

Os cabelos naturalmente bagunçados somados a roupas formais e frases de efeito reproduzidas nas redes sociais são algumas das características que dão ar populista e tornam a figura do economista Javier Milei marcante na Argentina. Aos 50 anos de idade e sem qualquer tradição na política do país, ele, que já vinha ganhando as redes sociais por polêmicas e opiniões radicais contra candidatos tradicionais, despontou nas eleições primárias conquistando o terceiro lugar das urnas para deputado de Buenos Aires, reduto da atual vice-presidente Cristina Kirchner, com mais de 13% dos votos, surgindo como uma “terceira opção” aos que querem fugir do bipartidarismo habitual. No Instagram, com quase 900 mil seguidores, Milei reproduz denúncias e críticas aos concorrentes, promove seu curso de economia e reproduz a frase de efeito “Viva à liberdade, caral***”. Conquistando não apenas uma multidão de conservadores mais velhos como também jovens que acabaram de ganhar o direito ao voto no país, acendendo o alerta para a chegada da onda ultradireita em mais um país da América Latina.

Mesmo que Javier Milei não se autoconsidere como de ultradireita, afirmando ser apenas um liberal, os especialistas ouvidos pela Jovem Pan apontam que o candidato apresenta posicionamentos clássicos do extremo conservadorismo. De acordo com Paulo Velasco, professor adjunto de Política Internacional da Universidade Estadual do Rio de Janeiro, pelo menos três características da extrema direita podem ser notadas no economista: a postura antipolítica, com uma retórica que classifica a maioria dos candidatos como corruptos e aproveitadores em busca dos próprios interesses; a agenda conservadora ligada à moral e aos bons costumes, sendo contra pautas progressistas como o aborto; a defesa de um ajuste macroeconômico com uma reforma ainda pouco explicada à população. “Ele fala em reforma, mas ninguém sabe muito bem qual seria a mágica que ele levaria a cabo em termos de reforma. Ele diz que não vai colocar [as mudanças] na conta da sociedade, o que é irreal, porque a corda sempre acaba estourando para o lado do cidadão”, avalia o docente.

A professora Regiane Nitsch Bressan, da Escola Paulista de Política, Economia e Negócios da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), também cita como sinais característicos de Milei as retóricas de defesa da liberdade e do direito à propriedade privada, falas que são pontos em comum entre o candidato e outros políticos enquadrados na área da extrema direita, como Jair Bolsonaro e Donald Trump. Os desejos de dissolução do Banco Central, da diminuição no número de parlamentares no país e da redução do salário de burocratas e pessoas da classe política também são outras marcas registradas do candidato, assim como a vontade de cortar ligações com países tido por muitos como ditaduras da esquerda na América Latina. “Ele quer romper totalmente o apoio a determinados países da região, como Cuba, Nicarágua e Venezuela, sobretudo a Venezuela, com quem a Argentina manteve um apoio enquanto Colômbia, Chile e Brasil já se afastaram muito”, afirma. O professor da UERJ lembra, porém, que as características de Milei não são comuns à democracia argentina, mas, por outro lado, não são novidade no mundo. “Ele reflete muito do que vimos na Europa, nos Estados Unidos e no Brasil como sendo mais à direita. Não é a direita tradicional argentina, como a União Cívica Radical ou mesmo como parte do Peronismo. Ele também não reflete a direita do Macrismo, ou a direita dos anos 1990, na época do presidente Menem. É algo muito mais à direita do que isso”, explica.

Voto de rejeição ao governo pode explicar crescente do candidato

O avanço do candidato de direita nas primárias não é um caso isolado na Argentina. Entre os 24 distritos do país, apenas seis tiveram como líderes nas urnas os representantes do partido do atual presidente de esquerda, Alberto Fernández. O grupo Juntos pela Mudança, liderado pelo ex-presidente de Maurício Macri, ganhou 41,50% dos votos, o que sinaliza o enfraquecimento da atual presidência. “Isso mostra tanto uma insatisfação com a economia, que não conseguiu reagir nesses últimos anos, mesmo com as mudanças do Macri e com as mudanças políticas atuais, quanto a própria onda conservadora, que veio da Europa, passou pelo Reino Unido, Estados Unidos e agora parece se situar aqui na América Latina”, analisa a professora Regiane. No caso específico do candidato do Partido Libertário, ela vê o apoio a ele não só como um avanço da direita, mas também como a rejeição à política tradicional. “Ele vem ganhando cada vez mais apoio popular, esse apoio popular é identificado tanto por gente que é a de extrema direita e direita, mas também como um voto de protesto. Então, aqueles que estão muito insatisfeitos com a política do Macri, com todos esse anos de Kirchnerismo, vêm encontrando nele uma figura cada vez mais popular para demonstrar o seu protesto”, aponta. Velasco também não consegue ver no percentual das primárias uma população que compactua totalmente com as ideias radicais do economista.

“Acho que os resultados nas primárias ainda não são um termômetro definitivo. Entendo que são um indicador forte para as eleições legislativas de novembro, mas não são determinantes. Vejo que houve muito um voto castigo, um voto de protesto. Ou seja, existe um desapontamento com o caos econômico da Argentina que se arrasta há vários anos. Quem quem paga o pato termina sendo aquele que está sentado no poder, então a onda da vez é o Fernández. Ainda assim, não vejo nos 13% que votaram nos libertários uma verdadeira identidade com essa agenda do Milei, essa agenda mais extremista”, opina. Mesmo com a vitória iminente nas urnas, o economista pode não conseguir empurrar para o governo todas as pautas que deseja para o país, já que será apenas um em um mar de 257 deputados. “Certamente ele não vai ter condições de fazer tudo isso. Ele não tem nem poder para fazer parte do que pretende, mas [se for eleito] ele pode ganhar muito mais visibilidade, ganhar cada vez mais apoio”, analisa a professora da Unifesp.

O professor da UERJ lembra que a projeção otimista do Partido Libertário, legenda de Milei, é de que quatro candidatos sejam eleitos em 2021. “Ele sozinho vai ter muito menos poder do que podendo contar com uma bancada de eventualmente quatro libertários. A partir [dessa definição] ele vai tentar mostrar serviço. Em termos práticos, dentro do parlamento, ele poderá eventualmente apresentar algumas propostas e apoiar projetos que tentem limitar o acesso de deputados a recursos públicos. Ele poderá tentar fazer avançar um projeto que extinga o Banco Central da Argentina, já que ele também é muito crítico aos gastos, mas ele não deve ter uma bancada muito grande diante das coligações, do Juntos Por El Cambio e da Frente de Todos. Será uma bancada menor, sem tanto impacto em termos concretos”, analisa.

Chances para presidência em 2023

A presença ostensiva do candidato nas redes sociais gera uma série de hashtags o apontando como vitorioso em 2021 e também em 2023, quando o país deve decidir se Alberto Fernández continua no cargo ou se um novo presidente tomará posse na Argentina. Os especialistas têm visões diferentes quando avaliam o papel do candidato nas próximas eleições nacionais do país. Velasco aponta que há uma série de condicionais a serem encaradas e diz que ainda é cedo para responder se o avanço de Milei nas primárias é apenas “fogo de palha” ou uma tendência real da crescente do conservadorismo no país. Ele lembra, ainda, que o “pior dos mundos” para o candidato seria não ganhar as eleições para deputado e ficar fora de foco até 2023. “Se você olhar as últimas eleições na América Latina, no Uruguai, Equador, Peru, sempre apareceu aí um candidato da ultradireita tentando surfar essa onda que é tão característica no mundo nos últimos tempos. Agora, chegou a vez da Argentina”, pontua. Bressan, por sua vez, acredita na possibilidade de uma direita mais ascendente, principalmente pela insatisfação da população com a condução das crises no país. “Acho que ainda é incipiente dizer que ele vai disputar e ganhar as eleições próximas de 2023, mas não estranho se ele se candidatar ou mesmo vir a ser eleito em 2027”, analisa. As eleições primárias serviram para determinar quais candidatos aparecerão nas cédulas no dia 14 de novembro, quando os eleitores vão novamente às urnas para renovar um terço do Senado e metade da Câmara argentina.