Governos da Europa sabiam que empresas sediadas em seus países compravam madeira ilegal

Informação foi repassada por autoridades brasileiras durante visita de embaixadores à Amazônia no início deste mês; governo ainda aguarda resposta dos líderes

  • Por Gabriel Bosa
  • 18/11/2020 14h09 - Atualizado em 18/11/2020 15h39
Divulgação/MPFDeflagrada em dezembro de 2017, Operação Arquimedes apreendeu mais de 400 contêineres com madeira suspeita de ilegalidade

Líderes da Europa sabiam que empresas sediadas em seus países eram compradoras de madeira extraída de forma ilegal da região Amazônica. A informação foi repassada por autoridades brasileiras durante a visita de três dias que embaixadores fizeram à Amazônia, no início deste mês. A missão foi liderada pelo vice-presidente Hamilton Mourão, que também é presidente do Conselho Nacional da Amazônia Legal, e contou com a participação de autoridades da Espanha, Suécia, Alemanha, União Europeia, Reino Unido, França e Portugal. Representantes da África do Sul, Peru, Canadá e Colômbia também participaram do encontro. A comercialização de madeira ilegal foi desarticulada pela Operação Arquimedes, deflagrada pela Polícia Federal, em parceria com o Ibama e Ministério Público Federal (MPF), em 2017, que identificou uma série de comerciantes de países na Europa, América do Norte e Ásia como integrantes do esquema.

Segundo o procurador Leonardo Galiano, responsável pela operação no MPF do Amazonas, as autoridades brasileiras procuraram os representantes estrangeiros para trabalharem juntos na fiscalização e responsabilização dos envolvidos. “Já identificamos as empresas e os países que são sede para, por meio da cooperação jurídica internacional, fornecer esses elementos aos estados estrangeiros que queiram promover a responsabilização desses compradores, à exemplo que o Brasil fez com os vendedores”, afirmou à Jovem Pan. O procurador não confirmou se todos os países representados na comitiva são base para as empresas investigadas pela Operação Arquimedes, mas que os que foram notificados ainda não deram retorno. “Ainda não recebemos demonstração de interesse, mas estamos inteiramente à disposição e esperançosos que essa via com os países europeus seja formalizada.”

A cooperação proposta aos líderes da Europa é a mesma que o MPF e a Polícia Federal mantêm com o Departamento de Justiça dos Estados Unidos. O trabalho começou em 2018, após a identificação de que comerciantes norte-americanos estavam importando madeira extraída de forma clandestina da Floresta Amazônica. A união de esforços visa a repatriação de madeira exportada ilegalmente aos EUA e a troca de informações entre as autoridades dos dois países. “Quem compra essa madeira não são os países, mas empresas que precisam ser identificadas e responsabilizadas nos termos da legislação vigente”, afirma Galiano. Além dos Estados Unidos, os órgãos brasileiros estão buscando cooperação com países vizinhos que também combatem a exploração e comercialização de madeira extraída de forma ilegal.

O presidente Jair Bolsonaro (sem partido) afirmou nesta terça-feira, 17, que irá revelar uma lista de países que já compraram madeira ilegal do Brasil. A fala foi uma resposta aos questionamentos e críticas que lideranças da França, Alemanha e Estados Unidos, entre outros países, fizeram da política de proteção ambiental brasileira, principalmente na região amazônica, o que o presidente classificou como “injustificáveis ataques”. Segundo Bolsonaro, a Polícia Federal desenvolveu uma técnica que permite rastrear a origem da madeira e descobrir para onde ela foi exportada. “Revelaremos nos próximos dias o nome de países que importam essa madeira ilegal nossa através da imensidão que é a região amazônica, porque daí sim estaremos mostrando que estes países, alguns deles que muito nos criticam, em parte têm responsabilidade nessa questão”, disse Bolsonaro. Para o procurador, a fala do presidente é positiva ao dar amplitude para o problema histórico de exploração e venda ilegal de madeira da região amazônica. “Sabemos que o desmatamento da Amazônia não se iniciou nos últimos anos, e que não vai se encerrar abruptamente. É positivo porque evidencia o problema e traz à mesa a interlocução com as agências responsáveis desses países para que elas responsabilizem também os compradores”, afirma.

Ainda ontem, o deputado Eduardo Bolsonaro (PSL-SP) postou em suas redes sociais supostas provas de que sete países da Europa importaram madeira extraída de forma ilegal da Amazônia. A imagem divulgada pelo filho do presidente mostra pedaços de madeira com inscrições em inglês dos nomes do Reino Unido, Holanda, Bélgica, Dinamarca, França, Portugal e Itália. “A PF conseguiu rastear através do DNA para onde vai a madeira extraída ilegalmente da Amazônia. Como a maioria vai para Europa, onde muitos países se preocupam com o desmatamento nas florestas brasileiras, esperamos que eles cooperem fortemente para coibir esse mercado ilegal”, escreveu o parlamentar.