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Mundo

O mercantilismo de Donald Trump

A guerra comercial sem precedentes iniciada pelo presidente norte-americano começa a afetar mercados em todo o mundo, mostrando que até mesmo as economias mais fortes não estão protegidas de tais medidas

Felipe Cerqueira

Donald Trump
Trump dá entrevista coletiva após colisão de avião de passageiros com helicóptero do Exército EFE/EPA/WILL OLIVER

O mundo do século XXI possui novas características econômicas, que foram desenvolvidas após a revolução industrial e que, de fato, mudaram completamente como o processo produtivo e o comércio internacional são conduzidos. Antes deste modelo mais global de produção e venda, o mercantilismo foi a política econômica adotada pelos grandes países visando seu enriquecimento e projeção mundial. A busca incessante por uma balança comercial favorável em todos os casos, o acúmulo de metais preciosos, a forte intervenção estatal na economia e intenso protecionismo nortearam diversas nações.

Após a invenção das indústrias e de um processo produtivo muito mais específico e detalhado, tais características mercantis se mostraram insuficientes na busca pela expansão de novos mercados e na conquista de mais consumidores. Neste contexto, o Reino Unido, a Alemanha, França e também os Estados Unidos no século XIX, lideraram o mundo industrial, tornando-se nações ricas e desenvolvidas, produzindo com matéria prima de todos os cantos, vendendo para todos os continentes e deixando o livre mercado regular os preços através da lei de oferta e demanda. No contexto pós Segunda Guerra Mundial, a hegemonia dos Estados Unidos se tornou incontestável, defendendo o liberalismo econômico como ideologia em todas as nações e alcançando compradores para seus produtos em todos os países.

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Durante os últimos anos, tudo parecia seguir este mesmo caminho, até o retorno de Donald Trump à Casa Branca em 2025. A guerra comercial e tarifária prometida e executada até o momento tem causado enorme estrago nas relações bilaterais e econômicas entre os Estados Unidos e o restante do mundo. Taxações abusivas de 15% até 50% sobre produtos chineses, canadenses, mexicanos, e matéria prima europeia, indiana, brasileira e australiana têm surpreendido a todos. A busca inicial de Donald Trump é uma das premissas mercantis mais clássicas, alcançar uma balança comercial favorável. Para o republicano, quando seu país possui um déficit na balança comercial em relação a uma nação específica, isso significaria um grande erro, que necessitaria de correção através de taxações para alcançar o superavit. 

A busca por metais preciosos que motivou as coroas europeias no século XV e XVI, também alimenta os sonhos de grandeza da administração norte-americana, que busca acordos exclusivos de extração de metais de terras-raras na Ucrânia e cobiça conquistar o território rico em recursos da Groenlândia. Essa jornada atrás de minérios, por mais importantes que sejam para as atuais tecnologias, escancara as práticas mercantis de Washington DC atualmente. O país que outrora defendia liberalismo econômico absoluto, agora tem um governo que defende forte intervenção estatal em setores estratégicos, busca frear certas iniciativas e beneficia outras por questões meramente políticas. Por fim, o protecionismo protagonizado pelas tarifas, busca punir os vendedores estrangeiros que querem ampliar seus mercados, enquanto supervaloriza os produtos nacionais, mesmo que não possuam a melhor qualidade ou preço competitivo. 

As decisões expostas ao povo norte-americano e à população mundial nestes primeiros 60 dias de governo Trump, começam a ter prognósticos negativos no horizonte. As práticas mercantis de Trump, não só pressionam a inflação de bens de consumo básicos, mas ameaçam os Estados Unidos com um cenário de recessão para os próximos meses. A política econômica quando conduzida de forma meramente ideológica, deixando de lado o pragmatismo e sobriedade necessários para se ampliar o comércio, causam grande danos ao médio prazo. O anacronismo econômico defendido pela Casa Branca hoje precisa ser superado, assim como foi superado o mercantilismo no século XVIII, caso contrário, as constantes crises econômicas de nosso tempo, perdurarão e se tornarão mais frequentes.

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