Rússia dá calote histórico pela primeira vez em mais de um século; valor passa dos US$ 100 milhões

Kremlin nega e diz que ‘não recebimento do dinheiro pelos investidores não é resultado de um não pagamento’, e sim das sanções ocidentais

  • Por Jovem Pan
  • 27/06/2022 17h35
REUTERS/Maxim Shemetov Rússia dá calote histórico Kremlin e Catedral de São Basílio em Moscou

Pela primeira vez em mais de um século, a Rússia deu calote histórico em seus títulos soberanos estrangeiros, afirmou a Casa Branca nesta segunda-feira, 27. Esse feito tem relação com as sanções abrangentes que excluíram o país do sistema financeiro global e tornaram seus ativos intocáveis. Segundo a declaração de uma autoridade dos EUA, essa inadimplência russa situa a “força das ações que os norte-americanos, juntamente com aliados e parceiros, tomaram, bem como o impacto na economia russa”. Por causa das sanções ordenadas em resposta a sua ofensiva na Ucrânia, prestes a completar cinco meses, a Rússia não pode mais fazer transferências em moedas ocidentais para pagar os juros de sua dívida externa adquirida em dólares ou euros. 

Os pagamentos em questão são de 100 milhões de dólares em juros sobre dois títulos, um denominado em dólares e outro em euros, que a Rússia deveria pagar em 27 de maio. Os pagamentos tinham um período de carência de 30 dias, que expirou no domingo. A última vez que o país de Vladimir Putin tinha dado um calote foi em 1918, durante a Revolução Bolchevique, quando Lenin decidiu não pagar as dívidas do regime czarista. Entretanto, em 1998, quase dois anos antes de Putin chegar ao Kremlin, a Rússia, prejudicada pelos efeitos da queda da União Soviética, da crise nas economias asiáticas e queda dos preços das commodities, viu-se em default de sua dívida nacional e forçada a impor uma moratória à sua dívida externa.

Rússia nega calote

Moeda da Rússia: rublo │REUTERS/Maxim Shemetov/Illustration

Um calote formal seria em grande parte simbólico, uma vez que a Rússia não pode tomar empréstimos internacionais no momento e não precisa fazê-lo graças às abundantes receitas de exportação de petróleo e gás. Mas o estigma provavelmente aumentará seus custos de empréstimo no futuro. O Kremlin rejeita as informações, mas admitiu que, devido às sanções internacionais, dois pagamentos não chegaram aos seus credores até o prazo limite, no domingo. “O não recebimento do dinheiro pelos investidores não é resultado de um não pagamento”, insistiu o ministério das Finanças em comunicado. “Mas é causado pela ação de terceiros, algo que não é considerado diretamente inadimplência”, acrescentou.

“As alegações sobre uma cessação do pagamento russo são absolutamente ilegítimas”, enfatizou à imprensa o porta-voz do Kremlin, Dmitri Peskov. O Ministério das Finanças da Rússia disse que fez os pagamentos ao seu Depositário Nacional de Liquidação (NSD, na sigla em inglês) em euros e dólares, acrescentando que cumpriu com as obrigações. Em uma ligação com repórteres, o porta-voz do Kremlin, Dmitry Peskov, disse que a Rússia fez os pagamentos de títulos com vencimento em maio, mas o fato de terem sido bloqueados pela Euroclear por causa das sanções ocidentais à Rússia “não é problema nosso”.

A Rússia tem lutado para cumprir os pagamentos de 40 bilhões de dólares em títulos desde sua invasão ao país do Leste Europeu. “Desde março achávamos que um default russo seria provavelmente inevitável, e a questão era apenas quando”, disse Dennis Hranitzky, chefe de litigação soberana da empresa de direito Quinn Emanuel, antes do prazo de domingo. Os esforços da Rússia para evitar o que seria seu primeiro grande calote em títulos internacionais desde a revolução Bolchevique, há mais de um século, atingiram uma barreira no final de maio, quando o Escritório de Controle de Ativos Estrangeiros do Departamento do Tesouro dos Estados Unidos efetivamente bloqueou Moscou de fazer pagamentos.