Amparado por habeas corpus, coronel não explica relação com a Davati e silencia sobre notícias falsas

Helcio Bruno fez publicações colocando em xeque eficácia das vacinas e pedindo destituição de ministros do STF, mas recorreu à Corte para ficar calado na comissão

  • Por Jovem Pan
  • 10/08/2021 16h50
Foto: Jefferson Rudy/Agência SenadoPresidente da ONG Instituto Força Brasil depôs nesta terça-feira, 10, na CPI da Covid-19

Em um depoimento pouco esclarecedor na CPI da Covid-19, o coronel da reserva do Exército Helcio Bruno de Almeida recorreu diversas vezes à prerrogativa garantida pelo Supremo Tribunal Federal (STF), que lhe garantiu o direito de permanecer em silêncio para não produzir provas contra si mesmo. Fundador da ONG Instituto Força Brasil (IFB), uma entidade bolsonarista que se identifica como “pró-família” e “pró-arma”, o depoente foi apontado como elo entre representantes da Davati Medical Supply e o Ministério da Saúde. O militar disse que pediu uma agenda na pasta no início de março deste ano para tratar sobre a venda de vacinas para a iniciativa privada, mas não esclareceu como e por que os supostos vendedores de imunizantes participaram do encontro na Esplanada dos Ministérios. Durante a oitiva, o site do IFB chegou a ficar momentaneamente fora do ar. Os senadores afirmaram que a comissão tem provas de que depoente desta terça-feira, 10, atuou ativamente na negociação com uma empresa intermediadora.

De acordo com Helcio Bruno, ele pediu uma agenda no Ministério da Saúde no dia 3 de março para tratar sobre vacinas para a iniciativa privada – à época, a Câmara dos Deputados analisava um projeto de lei a este respeito. O encontro no dia 12 de março e contou com a presença de Luiz Paulo Dominguetti, cabo da Polícia Militar de Minais Gerais, e Cristiano Carvalho, que se apresentaram como vendedores de imunizantes e já depuseram à CPI da Covid-19. O depoente disse que Dominguetti e Carvalho foram chamados por intermédio do reverendo Amilton Gomes de Paula, mas não esclareceu como eles souberam de sua reunião na pasta. Sempre que questionado sobre sua relação com a Davati e a disseminação de notícias falsas sobre temas relacionados à pandemia, o militar repetia que, por orientação de seus advogados, permaneceria calado.

Por volta das 15h40, o senador Alessandro Vieira (Cidadania-SE) questionou o coronel sobre uma troca de mensagens obtidas a partir da perícia do celular do cabo da PM, na qual era discutida a assinatura de um possível contrato para aquisição de doses de vacinas. Bruno ficou em silêncio. “Cada vez que diz essa frase, conjugando essa frase com o conteúdo do habeas corpus concedido, está apontando que não tem condições a minha pergunta sem se autoincriminar”, afirmou Vieira. “O documento que comprova a atuação do coronel Helcio Almeida nessa negociação com a Davati já está em posse desta CPI e tenho certeza de que o indiciamento se imporá no relatório final, para que a gente possa ter a responsabilização criminal de quem estava buscando recursos financeiros enquanto que os brasileiros buscavam por vacina e vida”, acrescentou o parlamentar.

Em um dos principais momentos da oitiva desta terça-feira, Helcio Bruno disse que conheceu os representantes da Davati no dia 12 de março e que nunca havia participado de um jantar com Dominguetti. “Vossa Senhoria falou aqui há pouco que nunca esteve em jantar com Dominguetti. É isso mesmo?”, questionou o relator da CPI da Covid-19, Renan Calheiros (MDB-AL). “Exatamente, nunca participei de qualquer jantar com o senhor Dominguetti. Até porque, não o conhecia”, respondeu. O emedebista, então, exibiu uma foto na qual o militar está reunido com Dominguetti e o reverendo Amilton Gomes de Paula. “Veja de que forma Vossa Senhoria trata esta CPI. Insistiu que nunca havia participado de jantar”, rebateu Calheiros. “Não foi jantar, isso foi um almoço”, resumiu.

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Encontro ocorreu na residência do reverendo Amilton Gomes de Paula (Reprodução/TV Senado)

O coronel do Exército também foi questionado sobre as postagens feitas e replicadas nas páginas do Instituto Força Brasil nas redes sociais – em muitos momentos, vale ressaltar, recorreu ao direito de ficar em silêncio. Os senadores exibiram publicações nas quais o instituto coloca em xeque a eficácia das vacinas, estimula a tese de “imunidade de rebanho”, pede a destituição de ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) e deslegitima a CPI da Covid-19, com ataques pessoais, sobretudo, ao presidente da comissão, Omar Aziz (PSD-AM). “Que bom que houve um avanço. [O coronel Helcio] Está se utilizando do Supremo nesta CPI. Inclusive, quem concedeu a ele o habeas corpus é um dos [ministros] que estão propondo a destituição. Veja que paradoxal”, disse o vice-presidente, Randolfe Rodrigues (Rede-AP), se referindo à ministra Cármen Lúcia.

Em uma das publicações, Helcio Bruno disse que a CPI era “circense”, formada pelo o que chamou de “picaretas” que julgavam “picaretas”. Os senadores Simone Tebet (MDB-MS) e Eduardo Braga (MDB-AM) citaram o envolvimento do coronel com a Davati para rebater as postagens. “Vossa Senhoria foi titular do bacharelado de ciências militares pela AMAN [Academia Militar dos Agulhas Negras], mestre em operações militares pela escola de aperfeiçoamento do Exército, operador de forças especiais e se deixou se levar por um grupo de picaretas? Ou levou um grupo de picaretas ao Ministério da saúde? Essa CPI do circo, formada por um bando de picaretas, viu que [os representantes da Davati] eram picaretas e está investigando. Vossa Excelência não conseguiu ver?”, questionou Tebet. “A única conclusão que podemos chegar é que o senhor estava dos dois lados do balcão: é negacionista, acredita na imunidade de rebanho, mas aproveitou para negociar”, acrescentou.