Auditor do TCU afirma que ‘estudo paralelo’ foi adulterado após ser repassado a Bolsonaro

Em depoimento à CPI da Covid-19, Alexandre Marques disse que encaminhou documento a seu pai, que o repassou ao chefe do Executivo federal, de quem foi colega no Exército

  • Por Jovem Pan
  • 17/08/2021 15h09
Foto: Pedro França/Agência SenadoAuditor do Tribunal de Contas da União, Alexandre Figueiredo depôs nesta terça-feira, 17, à CPI da Covid-19

Em seu depoimento à CPI da Covid-19, o auditor do Tribunal de Contas da União (TCU) Alexandre Figueiredo Costa Silva Marques confirmou que o “estudo paralelo” que ele elaborou sobre mortes causadas pela Covid-19 foi editado e adulterado depois que o documento foi encaminhado por seu pai, Ricardo Silva Marques, coronel do Exército, ao presidente Jair Bolsonaro. Aos senadores, o servidor do TCU disse que não pode afirmar quem realizou as alterações, mas acrescentou que considerou “irresponsável” a atitude do chefe do Executivo federal de divulgar e atribuir ao TCU a autoria de um material “inconclusivo” – no dia 7 de junho deste ano, Bolsonaro disse a apoiadores, em conversa na saída do Palácio da Alvorada, que tinha recebido um relatório que indicava a supernotificação de óbitos.

De acordo com a versão de Alexandro Figueiredo, ele redigiu um “arquivo em word”, no dia 31 de maio, e disponibilizou o “arrozoado de informações” na plataforma Microfost Teams, para “gerar um debate” com os colegas de trabalho sobre o repasse de recursos públicos a Estados e municípios. Desde o início da pandemia, Bolsonaro e seus apoiadores passaram a divulgar a tese de que gestores inflaram números de pacientes internados e de vítimas da Covid-19 para receberem mais recursos da União. “Só a Cristiane, coordenadora do trabalho, conversou por chat comigo [no Microsoft Teams]. Chegamos à conclusão de que seria impossível haver conluio para deliberadamente supernotificar os casos”, disse.

Ainda segundo o auditor do TCU, ele repassou o estudo a seu pai, Ricardo Silva Marques, através do aplicativo de mensagens de WhatsApp, no dia 6 de junho. O coronel reformado do Exército, que foi colega de Bolsonaro na Academia Militar dos Agulhas Negras (AMAN), encaminhou a mensagem ao presidente da República. No dia seguinte, o mandatário afirmou a apoiadores que aproximadamente 50% das mortes não tiveram o vírus como motivo principal. “O discurso do presidente foi totalmente irresponsável. A minha indignação foi por ter sido atribuída ao TCU a responsabilidade por um documento que não era do TCU. Eu achei irresponsável”, disse Alexandre. “O documento foi usado indevidamente pelo fato de se atribuir ao TCU um arquivo de 2 páginas, inconclusivo, que não era um documento oficial”, acrescentou.

Os senadores da CPI da Covid-19 reagiram com indignação às informações repassadas pelo auditor do TCU à comissão. Presidente do colegiado, Omar Aziz (PSD-AM), disse que o pai do depoente quis “bajular o presidente”. “O seu trabalho em nada serviu para o Brasil, em nada contribuiu com a dor das pessoas. Você estava procurando uma justificativa para o presidente da República. Isso não nasceu da sua cabeça. Não é possível que você vai fazer um estudo para saber se o número de óbitos era verdadeiro ou não. Não adianta chegar aqui e justificar. Esse trabalho que você fez não contribuiu em nada, apenas desmereceu o trabalho de servidores da saúde que tentaram salvar vidas de milhares de pessoas que, lá no meu Estado, morreram sem oxigênio. Como servidor, o senhor fez um desserviço à nação brasileira e às família enlutadas”, disse. Para o vice-presidente, Randolfe Rodrigues (Rede-AP), o governo federal insistiu em uma “obsessão macabra”, ao tentar minimizar os efeitos da crise sanitária. O parlamentar da Rede também acrescentou que Bolsonaro pode ser enquadrado no artigo 297 do Código Penal, que versa sobre a falsificação de documento público. “Agora temos a digital do presidente, a materialidade de crimes cometido por vídeos, por falas, pelo WhatsApp”, ponderou Simone Tebet (MDB-MS), líder da bancada feminina no Senado.