‘Bolsonaro utiliza máquina pública para se blindar de investigações’, diz Kim Kataguiri

Em entrevista à Jovem Pan, deputado falou sobre o superpedido de impeachment e as manifestações contra o atual governo convocadas pelo MBL

  • Por Victoria Bechara
  • 17/07/2021 10h00 - Atualizado em 17/07/2021 10h32
Kim Kataguiri afirma que pode mudar de partido para concorrer à eleição

Após endossar a campanha a favor da eleição de Jair Bolsonaro no segundo turno de 2018, o deputado federal Kim Kataguiri (DEM-SP) se diz arrependido do voto. No último dia 30, assinou um superpedido de impeachment ao lado de Gleisi Hoffmann, presidente nacional do PT, e outras lideranças de esquerda. Poucos dias depois, anunciou que o MBL – movimento que liderou as manifestações que pediram ‘fora, Dilma’ em 2016 – irá para às ruas contra Bolsonaro em setembro. Em entrevista à Jovem Pan, Kataguiri disse que o presidente se tornou aquilo que dizia combater, envolvido em supostos escândalos de corrupção. O deputado também falou sobre as eleições de 2022 e a possibilidade de deixar o DEM para tentar a reeleição por outro partido.

O senhor e o MBL vêm se posicionando contra o governo e convocaram protestos para o dia 12 de setembro. Vocês apoiaram o presidente em 2018. A partir de que momento isso mudou? No dia 26 de maio de 2019, quando ele e suas bases convocaram manifestações contra o Congresso Nacional e o Supremo. Naquele momento, a gente percebeu que ele não tinha nenhum compromisso com a democracia e estava disposto a fazer o que fosse necessário para manter seu projeto de poder. E isso se agravou com a pandemia, a negligência criminosa com a qual ele conduziu ou deixou de conduzir a compra de vacina, sabotou todas as medidas de distanciamento social para conter o vírus, fazendo o contrário, incentivando e participando de aglomerações. E com a saída do ministro Sergio Moro ficou escancarada a interferência direta dele na Polícia Federal para blindar a si mesmo e aos filhos no escândalo que ele próprio fez parte, de desvio de dinheiro público e de peculato. Mas o estopim da nossa mudança de postura foi 26 de maio de 2019. 

Por que resolveram convocar manifestações separadas? Se unir às que já estão ocorrendo não teria mais força? Primeiro que manifestações de esquerda têm acontecido há um bom tempo e a gente discorda do momento em que elas foram convocadas, porque não faz sentido a gente criticar o presidente pela negligência criminosa na pandemia e promover aglomerações, ainda que com máscara, com o perigo de se ter uma terceira onda. Então preferimos marcar a manifestação para quando a situação estiver mais segura. E segundo, não há nenhum tipo de segregação. Qualquer um que queira comparecer à manifestação, de qualquer espectro ideológico, vai ser bem-vindo — desde que defenda o impeachment do presidente da República. Não vai haver antecipação de campanha, nenhum tipo de candidatura, nenhum carro de som de partido político, justamente para evitar algo que nos divida. 

O senhor apresentou o superpedido de impeachment ao lado de partidos como o PT e o PCdoB, sobre os quais sempre se posicionou contra. Acredita em um diálogo com as siglas de esquerda nesse momento? Continuo me posicionando contra as ideias de todos esses partidos políticos e algumas de suas figuras, o que não me tira o pragmatismo de saber que a gente só derruba o presidente da República com o voto dos parlamentares de cada um desses partidos que hoje estão pedindo impeachment. Então, pontualmente, nessa causa não vejo problema nenhum em dialogar e assinar iniciativas em conjunto. 

O presidente da Câmara, Arthur Lira, já disse que não deve aceitar o pedido. O senhor vê alguma chance do processo ser aberto em outro momento? Vejo, sim. Ele disse que não é o presidente da Câmara que faz o impeachment, mas o impeachment que faz o presidente da Câmara. E é verdade. Impeachment é uma coisa que começa de fora para dentro. Não vai ser uma iniciativa de dentro do Congresso Nacional. Tem que ter imposição da sociedade, é por isso que as manifestações têm o dever de serem grandes, justamente para obrigar o presidente da Câmara a acolher o pedido. A partir do momento em que ficar muito caro associar a imagem dele ao presidente, mais do que todo o apoio que o Bolsonaro já tem vendido via cargos e emendas, quando não valer mais a pena se vender por nada disso e a própria associação com o presidente da República já representar uma ameaça à reeleição dessas figuras do Centrão, aí o impeachment se torna inevitável como foi o da Dilma. Hoje a gente tem uma oposição que defende o impeachment e avança para ter o apoio do centro e da direita. 

O MBL ganhou força em 2016, com as manifestações contra a ex-presidente Dilma, levantando uma bandeira anticorrupção. Como o senhor avalia as denúncias de supostas irregularidades na compra de vacinas pelo governo Bolsonaro e também do esquema das rachadinhas? Acho que ele está se tornando exatamente aquilo que ele dizia combater, sucumbindo a escândalos de corrupção, utilizando a máquina pública para se blindar de investigações, acabando com a operação Lava Jato. Há muito tempo não se vê nenhuma investigação de esquemas de corrupção de colarinho branco em Brasília contra nenhum deputado, nenhum senador. Tem uma verdadeira operação “abafa” em curso com a Procuradoria-geral da República, o procurador nomeado pelo presidente, e com a PF muito menos focada no combate à corrupção do que a gente tinha anteriormente com a Lava Jato. Além da aprovação de uma série de medidas, a Lei de Improbidade Administrativa, a tentativa de aprovar a PEC da impunidade, a aprovação da Lei de Abuso de Autoridade, várias iniciativas patrocinadas pelo presidente da República que diminuíram o poder de investigação e aumentaram a intimidação a juízes e promotores que atuam no combate à corrupção. 

O senhor se arrepende do seu voto? Com certeza. Se fosse um segundo turno hoje entre Lula e Bolsonaro, ou entre Bolsonaro e Haddad, eu anularia o voto. Não me comprometeria de maneira nenhuma com um projeto de poder corrupto, de retrocesso democrático, mais preocupado em fazer populismo e se manter no poder a todo custo, seja a custo da democracia, seja a custo dos cofres públicos. Hoje eu não votaria.  

Como o senhor vê o cenário para as eleições de 2022? Se fala muito em uma possível terceira via, mas as pesquisas já apontam para um segundo turno entre Lula e Bolsonaro. Acredito em uma terceira via. Hoje, se for colocar nas pesquisas, pessoas que não querem nem Lula e nem Bolsonaro estariam num segundo lugar. Primeiro Lula, depois os que não querem nem um e nem outro, e o Bolsonaro em terceiro lugar. A gente precisa conseguir essa alternativa. Precisa ver qual o nome exatamente. Acho que se viabiliza para a terceira via quem conseguir chegar até o final do ano com dois dígitos de intenção de voto e tiver um discurso firme de enfrentamento ao petismo e ao bolsonarismo. 

E o senhor vê algum pré-candidato com esse potencial no momento? O MBL conversa muito com duas figuras, o João Amoêdo e o Sergio Moro, que estão bastante alinhados com essa construção de uma alternativa. Mas não sabemos exatamente se a intenção do Moro é disputar ou não a eleição e se o João Amoêdo vai conseguir apoio do Partido Novo para disputar. Então é um movimento ainda embrionário. 

Recentemente o STF confirmou a suspeição do Sergio Moro. Acha que isso pode prejudicar uma possível candidatura dele? Não. Acho que todos os ataques que foram feitos a ele, foram feitos à Operação Lava Jato. Já não tem mais nada que possa ir contra a sua imagem, mesmo porque o Lula foi privilegiado com a reanálise de uma matéria que já tinha sido vencida, já havia sido analisada pelo Supremo. Infelizmente o ex-presidente foi privilegiado com isso e com a validação de prova ilícita também, obtida por meio de crime. Não acho que isso tenha grande efeito na imagem do ex-ministro Sergio Moro. 

O seu partido, o DEM, ainda está muito alinhado ao governo. Acha que o presidente pode perder o apoio do Centrão até 2022? Não tenho dúvida disso. Hoje a gente tem vários parlamentares do DEM que estão próximos do Bolsonaro, mas que não têm nenhum compromisso para 2022, como é o caso da maior parte dos partidos do Centrão. O líder do governo na Câmara [Ricardo Barros (PP-PR)] era aliado do Lula, vice-líder do governo Dilma, então é gente que não tem grandes convicções ideológicas e dependendo da onda eleitoral, do discurso dominante, muda de lado com facilidade. 

O senhor pretende buscar a reeleição em 2022? Pretendo, sim.

Pelo DEM mesmo? Quais os planos até o momento? Eu sou muito focado na candidatura do Arthur do Val ao governo de São Paulo. É meu candidato a governador e eu tenho rodado o Estado com ele para angariar apoio de prefeitos, vereadores e da sociedade civil. A gente dialoga com diversos partidos para saber qual vai disponibilizar a legenda para ele disputar essa eleição. Por enquanto a gente não tem a definição exata de qual legenda ele vai disputar, mas para onde ele for eu vou e disputo a eleição pelo mesmo partido.