Diretor de ‘banco fake’ expõe fraudes no contrato assinado para a compra da Covaxin

Senadores exibiram áudio de suposto fundador da FIB Bank que disse ter sido usado como laranja e apontaram uma movimentação financeira que teria sido feito por um homem morto

  • Por Jovem Pan
  • 25/08/2021 17h26 - Atualizado em 25/08/2021 20h15
Edilson Rodrigues/Agência SenadoRoberto Pereira Ramos, diretor-presidente da FIB Bank, depôs nesta quarta-feira, 25, à CPI da Covid-19

O depoimento de Roberto Pereira Ramos, diretor-presidente da FIB Bank, reforçou a suspeita dos senadores da CPI da Covid-19 de que trata-se de uma empresa de fachada cercada de fraudes. A começar pelo nome: apesar de se identificar como banco, o depoente admitiu que representa uma sociedade anônima que presta garantias fidejussórias. A companhia emitiu uma carta-fiança no valor de R$ 80,7 milhões como garantia para o processo de aquisição de 20 milhões de doses da vacina Covaxin. O montante equivale a 5% do valor total do contrato de R$ 1,6 bilhão assinado pelo Ministério da Saúde – a quantia chegou a ser empenhada mas o acordo foi suspenso pela pasta após a denúncia de irregularidades feita pelos irmãos Luis Miranda (DEM-DF) e Luis Ricardo Miranda, chefe de Importação da Saúde.

A primeira inconsistência foi apontada no início do depoimento. A FIB Bank havia encaminhado à CPI a carta de fiança com a data de 17 de março. Na sessão desta quarta, porém, o funcionário da empresa informou uma data diferente (17 de fevereiro), e foi acusado de fraudar o conteúdo encaminhado anteriormente à comissão. O contrato envolvendo a Covaxin foi assinado pelo governo Bolsonaro no dia 25 de fevereiro. De um modo geral, as informações apresentadas pelo depoente não convenceram os senadores, que ironizaram, inclusive, o nome da empresa. Em tradução livre do inglês para o português, a palavra “fib” significa “mentira”. “É o lorota Bank”, disse o senador Rogério Carvalho (PT-SE).

À CPI, Roberto Pereira Ramos reafirmou que o capital social da companhia é de R$ 7,5 bilhões, composto por dois imóveis que pertencem às empresas MB Guaçu e à Pico do Juazeiro. Um deles, inclusive, custaria R$ 7,2 bilhões, um valor equivalente ao do Palácio de Buckingham, residência oficial da monarquia britância, como ressaltou o presidente da comissão, Omar Aziz (PSD-AM). Além disso, um aspecto não foi esclarecido: dois sócios da MB Guaçu estão mortos, mas, segundo o senador Randolfe Rodrigues (Rede-AP), há registro de movimentação financeira realizada após a data de registro do atestado de óbito. Questionado, Ramos ficou em silêncio. Para os senadores, porém, os imóveis sequer existem.

Na primeira parte da sessão, os senadores exibiram um áudio de Geraldo Rodrigues Machado, um dos supostos fundadores da FIB Bank. Na gravação, o morador do município de Pão de Açúcar, do Estado do Alagoas, diz que teve suas assinaturas falsificadas. “Em 2015, ao tentar financiar uma moto, eu não consegui, porque tinha restrição de crédito por pariticpar do quadro societário de empresas em São Paulo. Eu não consegui receber seguro-desemprego por participar do quadro societário de uma dessas empresas, a FIB Bank. Eu trabalho como vendedor externo de uma empresa de frios, nunca estive em São Paulo, nunca assinei ata, nunca participei de nenhuma assembleia, sempre falsificaram as minhas assinaturas. Meu nome constava lá como um sócio ativo. Eu luto na justiça há três, quatro anos, para resolver essa situação, mas até o momento não conseguimos êxito”, relata. A FIB Bank tem sede em Alphaville, um bairro nobre do Estado de São Paulo.

A CPI da Covid-19 também apontou uma renda incompatível do diretor-presidente da FIB Bank. De acordo com o balanço financeiro da empresa, Roberto Pereira Ramos recebe mensalmente R$ 4 mil, mas declarou morar em um imóvel de aproximadamente R$ 500 mil. Na sessão desta quarta-feira, o depoente negou ter relação com o líder do governo na Câmara dos Deputados, Ricardo Barros (PP-PR), mas os parlamentares suspeitam que o deputado do Centrão foi o facilitador político desta operação. Para os membros da comissão, o “sócio oculto” da FIB é o advogado Marcos Tolentino, amigo pessoal de Barros – ele, inclusive, acompanhou a liderança governista em seu depoimento à CPI no último dia 12. Em seu tempo de inquirição, Randolfe apontou que a empresa representada por Ramos transferiu R$ 1,9 milhão para Tolentino. Além disso, o depoente afirmou que o advogado era representante da Pico do Juazeiro, uma das empresas que compõem o capital social da FIB Bank, ao lado da MB Guaçu.

União entre governistas e G7

O depoimento de Roberto Pereira Ramos uniu, de forma inédita, os senadores governistas aos integrantes do G7, o grupo formado pelos sete senadores de oposição e independentes. “Parafraseando o senador Marcos Rogério, ‘tá vendo, Brasil’, como era feita a negociação das vacinas? É esse tipo de gente, de empresa, que ia trazer vacina para salvar os brasileiros. É por esse tipo de brincadeira. Não dá nem para fazer uma análise disso. Não é possível”, disse Omar Aziz (PSD-AM). “A pergunta maior é por que o Ministério da Saúde aceitou uma garantia que não era bancária e que não era permitida. Fazia parte do conluio para fraudar e superfaturar a Covaxin?”, questionou a senadora Simone Tebet (MDB-MS). “Ninguém tem dúvidas de que isso aqui é um perfeito laranjal. Vamos ser diretos aqui, né?”, afirmou a senadora Leila Barros (Cidadania-DF). Aliado do presidente Jair Bolsonaro, o senador Jorginho Mello (PL-SC) se disse “envergonhado de estar aqui sapateando em cima de uma picaretagem”. “É uma das maiores farsas que estou vendo na questão comercial. Eu não estou com pena, porque o senhor tentou dar um golpe e quem tenta dar golpe é estelionatário, é picareta”, afirmou Mello. “Seu depoimento é absolutamente surreal e a história da sua empresa é algo que remete ao realismo mágico, sem qualquer lastro de verossimilhança ou algo factível”, acrescentou Marcos Rogério (DEM-RO).