Ex-diretor de logística é preso acusado de mentir na CPI da Covid-19

Presidente da comissão, Omar Aziz afirmou que Roberto Ferreira Dias cometeu crime de perjúrio ao afirmar que encontro com suposto vendedor de vacinas foi acidental

  • Por Jovem Pan
  • 07/07/2021 18h55 - Atualizado em 07/07/2021 19h23
Edilson Rodrigues/Agência SenadoEx-diretor de logística do Ministério da Saúde, Roberto Ferreira Dias depôs nesta quarta-feira, 7, à CPI da Covid-19

Em um dos dias mais tensos desde o início dos trabalhos da comissão, o ex-diretor de logística do Ministério da Saúde Roberto Ferreira Dias saiu preso da CPI da Covid-19 nesta quarta-feira, 7. Ele foi encaminhado à Delegacia de Polícia Legislativa do Senado. Segundo o presidente do colegiado, Omar Aziz (PSD-AM), Dias cometeu o crime de perjúrio, ou seja, mentir sob juramento, ao negar que havia combinado um encontro com Luiz Paulo Dominguetti, policial militar de Minas Gerais que se apresentou como representante da Davati Medical Supply, em um restaurante no Brasília Shopping. Dominguetti acusou o então diretor de logística de pedir propina de US$ 1 por dose da vacina da AstraZeneca.

“Ele está preso por perjúrio, por mentir. Se eu estiver cometendo um abuso de autoridade, que a advogada ou qualquer senador me processem. Ele será detido pelo Brasil. Estamos aqui pelos que morreram, pelas vítimas sequeladas. Não estamos aqui para brincar, ouvir historinha de servidor que pediu propina. O depoente que achar que pode vir aqui brincar, terá o mesmo destino. Ele está preso e a sessão, encerrada”, disse Omar Aziz antes de encerrar a reunião desta quarta-feira. “Estou cansado de mentira”, acrescentou. Senadores governistas e integrantes do chamado G7, formado pelos parlamentares de oposição e independentes, tentaram reverter a decisão. Suplente da comissão, Alessandro Vieira (Cidadania-SE) disse que a CPI não “botou um general na cadeia”, em alusão ao ex-ministro da Saúde Eduardo Pazuello. As senadores Eliziane Gama (Cidadania-MA) e Simone Tebet (MDB-MS) pediram que Dias revisse seu posicionamento a fim de contar a verdade ao colegiado.

Em seu depoimento, Dias afirmou que conheceu Dominguetti acidentalmente e negou que tenha combinado o encontro. Segundo a versão do ex-diretor do Ministério da Saúde, o representante da Davati Medical Supply se juntou à mesa porque estava acompanhado do tenente-coronel Marcelo Blanco, ex-assessor da pasta. O suposto vendedor de vacinas teria feito uma oferta de 400 milhões de doses da AstraZeneca ao governo federal. No dia seguinte, ele foi recebido no ministério. Embora confirme o jantar, Roberto Dias nega que tenha pedido propina.

A quebra de sigilo de Dominguetti, no entanto, sugere que o encontro foi previamente agendado. No dia 23 de fevereiro, dois dias antes do jantar, o policial militar diz a um interlocutor identificado como Rafael que “a compra vai acontecer, tá?”. O áudio foi divulgado pela CNN Brasil, no decorrer do depoimento. “Rafael, tudo bem? A compra vai acontecer, tá? Estamos na fase burocrática. Em off, pra você saber, quem vai assinar é o Dias mesmo, tá? Caiu no colo do Dias. E a gente já se falou, né? E quinta-feira a gente tem uma reunião para finalizar com o Ministério”, diz a gravação. No dia 26 de fevereiro, em outro áudio, Dominguetti afirma que “está tudo redondinho”.

Durante a sessão, o presidente da CPI, Omar Aziz, disse que Roberto Ferreira Dias preparou “um dossiê para se proteger”. “O senhor sabe que fez um dossiê para se proteger. Eu estou afirmando. Sabemos onde está e com quem está. Não vou citar nomes para não atrapalhar as investigações”, afirmou Aziz. O senador também citou um suposto e-mail no qual a Casa Civil teria ordenado que Dias atendesse “gente nossa”. “Isso não foi agora, foi durante o tempo em que o senhor esteve nesse cargo. Eu estou tentando te ajudar, porque do nada criaram uma situação. Você chega aqui e diz que não sabe por que saiu, que não sabe por que te tiraram poderes, por que demitiram duas pessoas que trabalhavam contigo. Queremos a verdade. Estou lhe dando fatos que a CPI tem conhecimento, para que possa se defender. Senão vai arrebentar do lado mais fraco. Estou lhe perguntando: o senhor viu o Pazuello dar ordem e o Elcio dizer que não faria? O Pazuello deu alguma ordem e o senhor achou que não era correto e não fez, não cumpriu?”.