Joice critica aprovação da PEC dos Precatórios e vê ‘assalto ao povo brasileiro’

Em entrevista à Jovem Pan, deputada também falou sobre a possível candidatura do ex-juiz Sergio Moro, as prévias do PSDB, seu futuro partido, e o futuro do governo Bolsonaro

  • Por André Siqueira
  • 07/11/2021 16h00
Pablo Valadares/Câmara dos Deputados Parlamentar usa tribuna da Câmara para discursar Joice Hasselmann acionou o STF para tentar cancelar a sessão da Câmara que aprovou a PEC dos Precatórios em primeiro turno na última quarta-feira, 3

A aprovação da PEC dos Precatórios em primeiro turno desencadeou um clima de guerra no Congresso Nacional. Depois de conquistar 312 votos, quatro a mais do que os 308 necessários, o governo Bolsonaro trabalha para manter o apoio para a segunda votação de terça-feira, 9. Dirigentes e líderes de partidos de centro e da oposição, como é o caso do PDT, por exemplo, querem reverter o quadro para enterrar a proposta que abre espaço fiscal para o pagamento do Auxílio Brasil, adia o pagamento de dívidas da União reconhecidas pela Justiça e fura o teto de gastos. Há, ainda, a via da judicialização. Um grupo de parlamentares, capitaneado pela deputada Joice Hasselmann (PSL-SP), apresentou um mandado de segurança no Supremo Tribunal Federal (STF) para tentar cancelar a sessão da última quarta-feira, 3. Eles questionam o ato do presidente da Câmara dos Deputados, Arthur Lira (PP-AL), e da Mesa Diretora que permitiu que deputados licenciados votassem.

À Jovem Pan, Joice criticou o que chamou de “PEC da compra de votos” e a pressão exercida pelo governo para angariar os 308 votos necessários. O Palácio do Planalto prometeu liberar emendas represadas e ameaçou segurar o repasse a parlamentares que votassem contra a proposta. “A emenda de relator é uma excrecência, é um absurdo. É um assalto ao povo brasileiro, um assalto à mão armada”, resume. Hasselmann também falou sobre as eleições de 2022, o futuro político do governo Bolsonaro, do qual já foi líder no Congresso Nacional, e criticou a parte da bancada do PSDB, seu futuro partido, que votou a favor da PEC dos Precatórios. “Foi uma derrapada feia do PSDB”, analisa. Confira abaixo os principais trechos da entrevista:

Minutos depois da aprovação da PEC, a senhora foi ao Twitter e escreveu que aquele foi o dia que a Câmara mais a envergonhou desde que foi eleita. Por quê? Foi algo que eu nunca tinha visto. Foi uma jogada tão suja com o povo brasileiro e suja dentro da própria Câmara. Dinheiro sendo derramado, pressão e ameaça. É um cofre de R$ 100 bilhões de dinheiro público para que o presidente Bolsonaro compre votos dos mais pobres, deixando uma conta impagável para os próximos presidentes. Da maneira como as contas públicas estão sendo tratadas, só vamos resolver em 30 anos. Eu fiquei envergonhada. Um interlocutor do governo me procurou [para tentar me convencer a votar a favor da PEC], mas não dei espaço para conversa. Disse “não me peça para dar um tiro na cabeça do povo brasileiro”.

O governo prometeu liberar emendas represadas e ameaçou segurar emendas de quem votasse contra a PEC… Foi muito feio. Partidos que militam pelo combate à corrupção, siglas de oposição, venderam seus votos em feira livre. O governo ofereceu R$ 15 milhões por voto de deputado do baixo clero. Mas quando é do alto clero, quando é líder, oferecem muito mais. É uma negociata que destrói a economia brasileira, aumenta a inflação, aumenta a pobreza. Fiz um discurso àqueles que se colocam como defensores do Brasil, mas que votaram a favor da PEC, como a maioria do Podemos, a maioria do PSDB, exceto os deputados de São Paulo, para que possamos corrigir isso na segunda votação. Como não espero as coisas acontecerem, entrei no Supremo com um mandado de segurança, porque a sessão foi recheada de cambalhotas regimentais. O artigo 235 do regimento é claro: deputados em missão oficial estão licenciados. Ponto. Não existe isso. Quando o ministro quer votar, ele renuncia ao cargo, reassume o mandato de deputado e vota. Não vota lá da Esplanada dos Ministérios. O que aconteceu foi uma excrecência. Acredito que o STF irá cancelar essa sessão, espero que haja uma liminar na segunda-feira.

As emendas de relator, as RP-9, foram criadas depois do período em que a senhora esteve na liderança do governo no Congresso. O que a senhora pensa deste ‘Orçamento secreto’? Se acabassem com a emenda de relator e fizessem um pouco de economia, veriam que dá para pagar o Bolsa Família sem a aprovação. A emenda de relator é uma excrecência, é um absurdo. É um assalto ao povo brasileiro, um assalto à mão armada. Falando como cidadã, me sinto coagida. É algo que não se faz. O dinheiro público tem que ir para onde precisa, não para firula de deputado que lambe as botas do governo. Há locais em que o dinheiro não chega. Não tem saúde, educação, as pessoas passam fome. Mas, em alguns redutos, só falta fazerem asfalto de ouro. Quem governa o Brasil é o Centrão. Eles tiram o que querem. Sozinho, Bolsonaro não consegue nada. O governo não existe. Como eu já disse à própria Jovem Pan, o Bolsonaro paga aluguel para se manter presidente. Ele paga o que for: 15, 20, 30 milhões de reais. Tem deputado que exigiu R$ 180 milhões.

A senhora acredita na rejeição da PEC em segundo turno? Estamos trabalhando forte, buscando deputado a deputado. Foi um resultado muito ruim para quem votou a favor da PEC, do ponto de vista da repercussão. Temos, sim, possibilidade de rejeitar no segundo turno. Acho pouco provável que alguns parlamentares do Podemos, do PDT, do PSB e até do PSL, que estão sendo cobrados, mantenham seus votos. Não dá para falar de combate à corrupção da boca para fora e engolir a corrupção da boca para dentro. A pressão popular e a pressão da imprensa podem modificar o resultado.

Embora ainda esteja formalmente no PSL, a senhora já se filiou ao PSDB, partido que entregou 22 dos 31 votos ao governo na votação da PEC. Não a incomoda o fato de estar de mudança para um partido com inclinações bolsonaristas? Não vejo esses votos como votos bolsonaristas. É claro que me incomodou a votação do PSDB a favor da PEC da compra de votos. “PEC do Calote” é muito pouco. Isso me incomodou demais, mas vejo que muitos tucanos estão divididos, se arrependeram de votar. Alguns dizem que, por mais que sejam independentes, precisam de estrutura para fazer campanha. O que digo a eles? Que não há cargo ou emenda que substitua a dignidade do parlamentar. Acho que conseguimos trabalhar dentro do ninho tucano. Há o grupo comandado pelo Aécio Neves, mais fisiológico, mais do toma-lá-dá-cá. Mas acho que a gente consegue aparar as arestas tucanas. Mas, sim, foi uma derrapada feia do PSDB.

Colegas deputados foram incluídos no relatório da CPI em razão de publicações e falas sobre a pandemia, vacinas e o chamado ‘kit-Covid’. Foi um abuso? A imunidade parlamentar não dá ao parlamentar o direito de cometer crime. Induzir pessoas a usarem remédios comprovadamente ineficazes, pregar contra a vacina, causar a morte de pessoas, tudo isso é crime. A imunidade não pode cobrir isso. Ela me cobre quando subo na tribuna da Câmara para criticar um colega por uma posição A, B ou C. Mas não me cobre em casos de racismo, apologia ao nazismo, ao fascismo. Esses parlamentares que gostam de falar muito usam a imunidade como salvo-conduto. Não é isso. Os coparticipes desta tragédia precisam ser investigados. O Lira não gostou da decisão do senador Renan Calheiros, mas essas pessoas precisam responder pelos seus atos.

O senador Omar Aziz costuma dizer que o procurador-geral, Augusto Aras, não irá ‘matar no peito’ o relatório. A senhora concorda? O Aras é, claramente, o homem do governo na PGR, mas até para ele seria demais sentar em cima de um relatório com tantas provas, com tantas pessoas envolvidas e com tantas mortes. Não creio que ele teria uma noite de sono tranquila se fizesse isso. Ele não vai morrer procurador. Uma hora o mandato acaba, ele vai continuar no Ministério Público. Acho que ele vai pensar um pouquinho na história dele e no legado dele para que não faça o grande desserviço ao país – e um serviço ao governo – de matar no peito e fingir que nada aconteceu.

Depois do 7 de setembro, os partidos passaram a falar em impeachment, mas tudo ficou no mesmo lugar. Foi um jogo de cena para marcar posição? O impeachment não andou porque o presidente Bolsonaro amarelou. Ele foi tigrão no dia 7 de setembro, xingou o Alexandre de Moraes, fez tudo aquilo, mas entrou o Michel Temer na jogada e o salvou. Quando o presidente recua e age como gatinho, a coisa se acalma no Congresso. Para um impeachment, há fatores técnicos e políticos. Tecnicamente, há motivos de sobra. Mas temos a conjuntura política. Então ele vai, compra a base, modera o discurso. É um jogo complicado. No impeachment, dois mais dois não são quatro.

À Jovem Pan, a senhora disse que estaria com a terceira via, independente do nome colocado. Na próxima semana, o ex-ministro Sergio Moro se filia ao Podemos. Qual a sua avaliação sobre a eventual candidatura dele? Ele é um ator político inábil, como dizem em Brasília? Não acho que ele é inábil como político. O nome dele é conhecido no país inteiro. Tem gente que ama e tem gente que odeia. Mas essa coisa de inábil é um papo furado. Mais inábil que Dilma e Bolsonaro? Pelo amor de Deus. O discurso do combate à corrupção incomoda muita gente e, por isso, acredito que ele teria dificuldade na composição político-partidária. Ele teria poucos partidos o apoiando, mas é um nome forte. Sou suspeita para falar dele porque fui a biógrafa. O que digo sempre é que temos que ter um nome. Se a terceira via vier fatiada e dividida, fica complicado. Eles têm que aglutinar forças. Pacheco, Doria, Eduardo Leite, Arthur Virgílio. Todos. Como vamos juntar esse ‘samba do crioulo doido’? Não sei. Mas se saírem todos, todos perdem e Lula ganha.

Moro é ligado à ideia de combate à corrupção, mas esta não é a única bandeira dele? Um presidente precisa de muito mais que isso, não? Que conteúdo tinha o Jair Bolsonaro? E a Dilma? Se você contar o conteúdo dos dois, o Moro é melhor. Ele não precisa ser expert em nenhuma dessas coisas. Se for, melhor ainda. Mas, não sendo, há uma equipe para isso. Só apoiamos Bolsonaro porque achamos que ele era honesto. Sabíamos que era grosseiro, estúpido, néscio, mas pensávamos que era honesto. Quando ele perdeu esse selo, acabou tudo. Como disse, a maior dificuldade de Moro estará na composição política.

Qual o palpite da senhora para as prévias? Doria vai ganhar. O Eduardo Leite é hábil, mas acho que o Doria ganha pela força do PSDB de São Paulo, pela unidade da legenda por aqui, demonstrada na PEC dos Precatórios e pela força de mobilização, ainda que haja uma divisão na bancada. O Doria é um excelente gestor, conhece de muitas coisas. O meu sonho é juntar Doria e Moro. Mas, sonhar é sonhar. Não sei se dou conta, não.

A senhora replicou a publicação de Deltan Dallagnol anunciando a saída do MPF. O que pensa sobre a entrada dele na política? Este movimento não fortalece o argumento de que os procuradores da Lava Jato tinham aspirações políticas? Sinceramente, isso é uma grande bobagem. Por que aspiração política? Por que combatia corruptos? Dallagnol está sendo perseguido. Moro abriu mão da carreira para ajudar o Brasil e saiu do governo porque foi aviltado dentro do ministério. O que sei é que Dallagnol vai sofrer bastante. Quem tem espinha ereta sofre na política, é um ambiente hostil. Se ele está disposto a pagar o preço e vir para a guerra, será um grande companheiro aqui.