Rússia e EUA trocam acusações em reunião pelos 70 anos da ONU
Mario Villar.
Nações Unidas, 23 fev (EFE).- Rússia e Estados Unidos trocaram duras acusações nesta segunda-feira no Conselho de Segurança das Nações Unidas, reunido em uma sessão especial por ocasião do 70º aniversário da organização.
Apesar do objetivo do debate ter sido o de reafirmar o compromisso da comunidade internacional com os princípios da ONU, as tensões entre Rússia e EUA por causa de conflitos como os da Síria e da Ucrânia terminaram por dominar a reunião.
O ministro das Relações Exteriores russo, Sergei Lavrov, chamou a atenção para as recorrentes violações das bases estabelecidas na Carta das Nações Unidas, entre elas as que assinalam a independência e soberania dos Estados e a não interferência nos assuntos internos.
“Basta lembrar os bombardeios sobre a Sérvia, a ocupação do Iraque sob um falso pretexto (…) e a grosseira manipulação do mandato do Conselho de Segurança que levou à destruição e ao caos na Líbia”, disse Lavrov.
Para o ministro russo, que evitou referir-se diretamente aos EUA, todos esses movimentos são “resultado de uma tentativa de dominar os assuntos internacionais, de mandar em todos”.
No caso dos países que resistem a esse domínio, assegurou Lavrov, se procura “encorajar a desordem interior e a mudança de regime”, algo que, segundo sua opinião, tornou-se evidente com o “apoio ao golpe de Estado na Ucrânia”.
O ministro russo também criticou duramente a imposição de “sanções unilaterais”, sem sinal verde das Nações Unidas, como as adotadas por EUA e União Europeia contra seu país por causa da crise ucraniana.
Nesse sentido, Lavrov denunciou as tentativas de transformar o Conselho de Segurança da ONU em um organismo que simplesmente aprove as diretrizes de um “líder” ou que, diretamente, fique à margem das decisões.
Em resposta, a embaixadora americana nas Nações Unidas, Samantha Power, assegurou que se o Conselho de Segurança não assumiu suas responsabilidades em muitas ocasiões foi precisamente pelos vetos, como os exercidos pela Rússia perante várias iniciativas para tentar responder à guerra na Síria.
Power se referiu também à situação na Ucrânia e acusou à Rússia de treinar, armar e lutar junto com os separatistas, violando a soberania e a integridade territorial do país vizinho.
Por sua vez, o embaixador britânico, Mark Lyall Grant, denunciou a “anexação ilegal da Crimeia e a desestabilização da Ucrânia oriental” por parte russa como exemplo das ameaças para a paz e a segurança que persistem no mundo.
A sessão, na qual participaram vários ministros, foi convocada pela China, cujo titular das Relações Exteriores, Wang Yi, pediu o fim da mentalidade de “confronto” e uma nova era baseada na cooperação entre as nações.
Já o secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, se centrou na necessidade de melhorar o trabalho da organização em defesa dos direitos humanos e, para isso, insistiu que a soberania dos Estados não pode ser um freio na hora de proteger à população.
“A soberania continua sendo parte dos alicerces da ordem internacional, mas no mundo de hoje, quanto menos se veja a soberania como um muro ou um escudo, melhores serão nossas perspectivas de proteger as pessoas”, opinou Ban.
O diplomata coreano deu como exemplo o caso da Síria e se perguntou se “esforços mais adiantados para responder às violações dos direitos humanos e os problemas políticos (…) poderiam ter evitado que a situação escalasse de maneira tão horrenda”.
Além de reafirmar seu apoio aos princípios da Carta da ONU, vários países falaram sobre a importância de melhorar a eficácia das Nações Unidas e, especialmente, do Conselho de Segurança.
Nesse sentido, se escutaram vozes em favor de uma reforma desse órgão e da limitação do poder de veto que têm os cinco membros permanentes (Estados Unidos, Reino Unido, França, China e Rússia). EFE
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