Asfixia silenciosa por Covid-19: ‘Não senti nada, mas meus pulmões estavam tomados’, diz jovem

Bruna Chagas, de 33 anos, estava com o pulmão 60% comprometido e nível de oxigenação em 83%; segundo especialista, hipóxia silenciosa é ‘extremamente comum’ entre pacientes do coronavírus

  • Por Giullia Chechia Mazza
  • 28/02/2021 14h00
Sandro Pereira/Estadão ConteúdoSegundo o pneumologista André Cuervo, sintomas secundários podem indicar quadro de hipóxia silenciosa

Apesar de não apresentar febre, tosse ou falta de ar, a engenheira de produção Bruna Chagas, de 33 anos, procurou o atendimento de saúde para retirar um atestado médico e permanecer afastada do trabalho após testar positivo para a Covid-19. No entanto, chegando ao hospital, ela descobriu que estava sendo asfixiada sem perceber, vítima da hipóxia silenciosa. “No domingo, 27 de dezembro, acordei e quando fui limpar a casa, não senti o cheiro do desinfetante. Desconfiei que poderia ser Covid-19 e não dormi naquela noite, mesmo sentindo muito sono. Não tinha febre, tosse, dores nas costas e nem espirrava. Após testar positivo, fui ao hospital, passei pela triagem, mediram o nível de saturação e febre e, sem me dizer nada, deram uma pulseira de identificação vermelha”, relata a jovem. Depois de fazer os exames, Bruna foi colocada para tomar soro e receber oxigênio durante mais de 12 horas. Ao pedir para ir embora, já que se sentia bem, ela foi surpreendida ao ser encaminhada para a internação. Isso porque os resultados dos exames apontavam que 60% dos seus pulmões estavam comprometidos com infiltrações, que a saturação do oxigênio estava em 83% — em pessoas saudáveis, varia de 90% a 100% –, e que os indicadores de sangue e trombose apresentavam fortes alterações.

Com a queda perigosa do nível de oxigênio sanguíneo, Bruna correu um sério risco sem saber das complicações que o coronavírus causou em seu organismo. “A hipóxia silenciosa é uma das características da infecção pela Covid-19, na qual os pacientes apresentam uma baixa concentração de oxigênio no sangue, secundária à inflamação pulmonar, e não desenvolvem a sensação de falta de ar. Isso ocorre porque mecanismos específicos e ainda desconhecidos da própria doença acabam inibindo a capacidade de percepção do indivíduo”, explica o pneumologista do Instituto Orizonti, André Cuervo. Segundo ele, apesar de alguns pacientes não sentirem falta de ar, um dos principais indicativos de complicações da Covid-19, há sintomas sutis que podem indicar que a doença está se agravando. “Na condição da hipóxia silenciosa, é preciso ficar atento a alguns sintomas, como alterações neurológicas, confusão mental e sonolência, variações cardíacas, como aumento dos batimentos e alterações na pressão arterial, e comprometimento de outras funções orgânicas, já que o corpo não está funcionando bem pela falta de oxigênio.” De acordo com o pneumologista, a asfixia imperceptível é um fenômeno “extremante comum” entre pacientes do coronavírus.

Mesmo não apresentando alterações na respiração, Bruna notou, no entanto, que o funcionamento de seu organismo estava diferente. “Senti sono, dores de cabeça e percebi as pontas dos meus dedos arroxeadas, mas achei que era por causa do frio. Depois do diagnóstico de hipóxia silenciosa, iniciei o tratamento com bombinha para os pulmões, injeção anticoagulante, corticoides e antibiótico injetável, e monitoro minha oxigenação, mas ela nunca voltou a ser como antes”, conta. Após dez dias de tratamento, o nível de saturação da jovem saiu da casa dos 80% e subiu para 93%. Após um mês, estabilizou em 95%, número que permanece. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), uma leitura abaixo de 90% é considerada como “emergência clínica”. Para evitar o problema, Cuervo orienta que os pacientes meçam o nível de oxigenação em casa, através do oxímetro, um aparelho que monitora a presença do oxigênio no sangue. “Na pandemia, a hipóxia é doença aguda, de caráter urgente, o que atrasa a procura do paciente por tratamento e pode levá-lo a óbito. Por isso, recomendamos que os infectados pelo coronavírus meçam o nível de oxigenação em casa. Caso a taxa sofra alterações significativas, o indivíduo deve procurar o hospital”, orienta.