Na peça de teatro do canastrão Gilmar, Moro é o herói trágico: ou morre pateticamente ou se levanta e luta

Comandante da mais heroica guerra contra a corrupção está acuado, mas precisa se levantar para guerrear contra os monstros que tentam solapar a Justiça brasileira de vez

  • Por Adrilles Jorge
  • 27/03/2021 10h11
Gabriela Biló/Estadão ConteúdoO ex-juiz federal Sergio Moro foi considerado parcial em decisão da 2ª Turma do STF

O ódio de Gilmar Mendes a Sergio Moro, exposto no julgamento de suspeição do ex-juiz, calculado, mal interpretado, travestido de indignação, revela não só sua alma, como o espírito de um rebanho e de seu histórico entorno. Gilmar se mostrou indignado com questiúnculas jurídicas, conversas informais entre juízes e procuradores da Lava Jato, a força-tarefa da Justiça brasileira que fez a mais heroica guerra contra a corrupção de colarinho branco num Brasil onde, tradicionalmente, o establishment oligarca de compadrio sempre manteve o status quo da impunidade. A Justiça, para Gilmar, é uma abstração intelectual, que privilegia floreios em que o direito é um artifício estéril para discussão técnica da culpa; uma encenação tosca de uma realidade que não existe. Uma tonelada de provas que incriminem cabalmente o ex-presidente Lula, julgado culpado por uma dezena de juízes, nada pode diante dos meandros de uma jurisprudência avessa à realidade objetiva dos fatos, que nada pode diante da teatralização, da encenação de um julgamento em que uma maquiagem errada é um erro fatal para a cena de Gilmar, o canastrão.

Este o ponto: a Justiça é uma peça de teatro para Gilmar. Ganha quem atua melhor. A realidade é uma mera imitação pobre da arte vazia que ele cria em seu mundo próprio. E o mundo cénico não é só dele, é de toda a história do Judiciário brasileiro, um teatro travestido de pretensa justiça, de faz de conta da realidade que sempre privilegiou os melhores atores da corte, premiados e bem recompensados, bem pagos pelos culpados ricos por sua encenação. É, em justiça da arte, um teatro pobre o de Gilmar, porque representa uma caricatura da realidade, em que a justiça real é romantizada, onde os vilões não existem, onde a pobreza não existe, onde os criminosos reais são convertidos em mecenas, financiadores que bancam o espetáculo canhestro da miserável e imunda atuação do ministro do STF e seus pares, que representam a face teatral farsesca e sórdida da miséria moral que é a Justiça brasileira há séculos.

Por isto o ódio de Gilmar e seu elenco pitoresco a Sergio Moro e à Lava Jato. Moro, um homem objetivo, sem nuances, sem ambiguidade, que opera a Justiça como um técnico, prendendo ladrões, apontando roubos reais, coletando provas reais, é um excesso de realidade intolerável para o histriônico Gilmar Mendes e a hipócrita e falsa Justiça que sempre representou. Moro teve, paradoxalmente, em seu senso objetivo de realidade, seu maior vício virtuoso, quando decidiu entrar para a política. A política exige a interpretação tão cara a Gilmar. Há nuances, necessidade de conversas, concessões, que Moro, como juiz, jamais compreendeu. Quis agir como um juiz na política: achou que sua objetividade o sagraria um herói político, como o sagrou um herói na vida jurídica. Moro quis judicializar a atividade política, fazer uma assepsia na cena política. Errou. Porque a Justiça, em princípio, pode abdicar de uma falsa teatralização e se centrar na análise objetiva da realidade, das provas, dos fatos.

A Justiça também pode, claro, ser teatralizada, mal encenada, por tipos canhestros como Gilmar — e toda a geração canastrona que ele representa. Já a política é um teatro em si: A encenação de virtudes e o diálogo dos atores são essenciais à peça que tenta criar e ultrapassar a realidade que a observa. Um ator político muda o ânimo de sua plateia, melhora ou piora a vida de seu espectador (no mais das vezes, piora, é claro). Moro não soube interpretar. Herói real da Justiça brasileira que foi, pecou por vaidade na cena política. Não soube dialogar. Fez parte de um governo que contrariou alguns aspectos de sua ética. Abandonou o governo atirando, encenando um papel de juiz objetivo num mundo político subjetivo e eivado de nuances. Pecou por soberba. Na cena política, todos os poucos honestos, em alguma medida, negociam parte de sua ética para obter algum esboço de melhoria social e moral para todos. Isso na melhor das hipóteses. Moro tentou remodelar e julgar o mundo político como um juiz. Acabou condenado por perda de noção de seu papel. Um herói trágico, perdido. Ele agora silencia quando deveria gritar. Sim, o STF se transformou num órgão de inquisição brutal, que prende pessoas sem julgamento (baseado em inquéritos ilegais), que solta bandidos de sua preferência para usar candidato criminoso e manter o status quo de uma Justiça farsesca tradicional do Brasil.

Sim, Moro deve ter medo. Medo de um Supremo ditatorial. Poderia ser, inclusive, preso se gritasse e dissesse todas estas verdades sobre a infame composição desta suprema vergonha federal. Mas sairia maior, sairia como um mártir do combate à corrupção e de tentativa de restauração da Justiça brasileira. Até agora, optou pelo silêncio ou por alguma palavrinha discreta. Não é hora mais de discrição ou silêncio. Moro foi catapultado à cena política. Ele é o herói trágico da peça. Ou morre pateticamente em vida ou se levanta e se bate contra os monstros sórdidos, canalhas canastrões, que tentam solapar a Justiça brasileira de vez. O palco da vida não oferece duas chances.