Bolsonaro deu uma voltinha pelo Nordeste ao lado de Collor, aquele que saiu escorraçado do governo

O mundo dá muitas voltas, e Bolsonaro sabe disso; ele depende dessa gente para governar o país

  • Por Álvaro Alves de Faria
  • 06/11/2020 12h12
Alan Santos/PR Bolsonaro e Collor inauguraram uma obra de ampliação do Sistema de Abastecimento de Água, em Piranhas, no sertão de Alagoas

Presidente Jair Bolsonaro decidiu dar mais uma volta pelo Nordeste. Popularidade em alta, nada mais justo. Comeu sanduíche em padaria, pastel, abraçou todo mundo e foi abraçado. Máscara contra o vírus chinês? Nem pensar. A surpresa foi Bolsonaro ter convidado o senador e ex-presidente Fernando Collor de Mello para integrar a comitiva do Palácio do Planalto. Collor viu nisso uma boquinha para aparecer na fotografia. A razão da viagem de Bolsonaro foi inaugurar uma obra de ampliação do Sistema de Abastecimento de Água, em Piranhas, no sertão de Alagoas. Então lembrou-se de Collor. Explicou: “Fiz o convite e ele aceitou. E com muita satisfação está integrando essa comitiva, o nosso senador Fernando Collor, um homem que luta pelos interesses do Brasil”.

Bolsonaro lamentou a ausência do deputado Arthur Lira, da base aliada, uma pessoa “sempre pronta, sempre alerta”. O parlamentar pegou o vírus chinês e está de quarentena em casa. O mundo dá muitas voltas, como se dizia antigamente. Muitas voltas. Bolsonaro de aproximou do Centrão e precisa dessas pessoas perto dele. Já cedeu os cargos no primeiro e segundo escalões que lhe foram cobrados pelo apoio. Então está tudo bem. O presidente jogou muita conversa fora com Collor mas, em nenhum momento, lembrou que nos anos de 1990 votou pelo seu impeachment. Claro, não podia lembrar. Ia estragar a festa. E Collor ficou na dele, desfrutando daquela nova amizade que saiu do baixo clero da Câmara e hoje é presidente da República.

Num discurso na Câmara em 1992, Bolsonaro atacou Collor de maneira contundente, chamando-o de mentiroso. Naquela ocasião, as palavras de Bolsonaro foram as seguintes: “Aprendi, na caserna, que o chefe que mente não merece credibilidade. E o senhor presidente da República, chefe supremo das Forças Armadas, não deixa de ser um grande mentiroso”. O mundo dá muitas voltas. Hoje, Bolsonaro é presidente e Collor, seja lá como for, é senador da República. Os tempos são outros. Collor é réu pelos crimes de corrupção passiva e lavagem de dinheiro. É acusado de receber mais R$ 30 milhões de propina em negócios na BR Distribuidora, subsidiária da Petrobras na venda de combustíveis. A denúncia da Procuradoria Geral da República, esclarece que Collor pediu e recebeu o dinheiro entre 2010 e 2014. Mas nada disso interessa. Collor estava lá na comitiva de Bolsonaro, feliz da vida por ter sido lembrado. Essas coisas do passado não interessam mais. O que passou, passou.

Agora, os tempos são outros e Bolsonaro coloca em sua comitiva de amigos quem ele bem entender. O que valeu mesmo foi mais uma visita ao Nordeste, onde mostrou que está de bem com vida. Na comitiva estava também o ministro do Desenvolvimento Regional, Rogério Marinho, aquele que quer furar o teto das despesas e inimigo do ministro da Economia, Paulo Guedes, que não quer furar teto nenhum. Inimigos cordiais, estão conseguindo levar o barco no Palácio do Planalto, disputando os afagos do presidente. Rogério Marinho não se faz de rogado e desfila saltitante ao lado de Bolsonaro. Nessa briga com Paulo Guedes, será o vencedor. No entanto, isso não tem nada a ver. O que vale é que Bolsonaro deu mais uma voltinha pelo Nordeste do Brasil, desta vez ao lado de Collor. Aquele que saiu escorraçado do governo e hoje é senador e réu por corrupção. O mundo dá muitas voltas. Bolsonaro sabe disso. Ele depende dessa gente para governar o país.