Empurrada goela abaixo até por aplicativo, cloroquina não cura a Covid-19 nem o negacionismo

Em vez de apostar em campanhas de conscientização, Ministério da Saúde investe em dispositivo que indica medicamentos sem eficácia comprovada contra o coronavírus

  • Por Álvaro Alves de Faria
  • 22/01/2021 13h11
Reprodução/Casa Civil Aplicativo criado pelo Ministério da Saúde para auxiliar no combate à Covid-19 já saiu do ar após críticas de associações médicas

Os dias estão ficando cada vez mais difíceis. O coronavírus não dá trégua. Basta ver o que está acontecendo em todo o país. Peguemos apenas São Paulo como exemplo: sobe a cada dia o número de infectados e de mortos. Diante desse quadro sombrio, ainda há, dentro e fora do governo, aqueles que receitam medicamentos que não servem nem mesmo como paliativo. Finalmente, diante do quadro atual em relação à Covid-19, o Ministério da Saúde tirou do ar aquela enganação chamada TrateCOV. O aplicativo foi criado para, supostamente, permitir que profissionais da saúde tomassem conhecimento de sintomas e orientassem o paciente. Que bela intenção, não é mesmo? Mas de bem-intencionados o inferno está cheio. Então o médico consultava o TrateCOV e orientava o doente a iniciar o chamado “tratamento precoce”, prescrevendo medicamentos sem qualquer eficácia comprovada. É muita leviandade. Uma enganação, mais uma, entre tantas que existem em todo lugar deste país.

O pedido para retirar essa loucura do ar foi feito pelo Conselho Federal de Medicina, cansado de ver os rumos que a doença tomou no Brasil. O ministro da Saúde, general Eduardo Pazuello, informou que a plataforma foi lançada apenas como um projeto-piloto e não estava funcionando oficialmente. Segundo o ministério, o TrateCOV é uma ferramenta para auxiliar os médicos depois de conhecer os sintomas do paciente, utilizando um protocolo clínico para fazer um diagnóstico rápido, especialmente no combate ao coronavírus. Na quarta-feira, 20, o PSOL protocolou uma representação contra Pazuello. O partido pede que o general seja enquadrado nos crimes de improbidade administrativa e de responsabilidade. Nesta quinta-feira, 21, o aplicativo saiu do ar depois de receber críticas contundentes de especialistas e associações médicas, acusado de ser uma prática de curandeirismo travestido de estratégia de saúde pública.

O ministro do STF, Ricardo Lewandowski, tem em mãos, desde terça-feira, 19, o pedido de vários partidos e entidades científicas para que vede qualquer manifestação do Ministério da Saúde que incentive a população a usar medicamentos que, comprovadamente, não surtem nenhum efeito no combate à Covid-19. Seria, no dizer do governo, o tal “tratamento precoce”, em que pessoas desesperadas com a doença acatam a recomendação como uma tábua de salvação. Lewandowski, que é o relator de assuntos que tenham relação com a Covid-19 no Supremo, está colhendo informações sobre o assunto. O pedido solicita que o STF proíba a recomendação de remédios por qualquer meio que possa ser usado pelo governo, como mensagem, nota, comunicado, protocolo ou qualquer outra forma, incluindo rádio, televisão, internet e redes sociais. Em suma, o governo ficará proibido de induzir pessoas doentes a utilizar um medicamento sem qualquer comprovação da ciência. Isso vale para a cloroquina, hidroxicloroquina, nitazoxanida e ivermectina. E mais: os partidos e entidades científicas pedem que o tribunal proíba a distribuição de qualquer medicamento por meio do SUS. 

O problema é que, mesmo ausente das cenas dos últimos dias em relação à vacinação, o presidente Bolsonaro continua a defender essa medicação e desacreditando na vacina, criando receio na população. Alheio a tudo o que está ocorrendo no país, contrário a todas as normas de segurança científica desde o surgimento do vírus, o presidente, na verdade, seguiu o seu guru Donald Trump, que costuma dizer que esses medicamentos eram a esperança de todos contra o vírus. Trump chegou a voltar atrás, mas Bolsonaro continuou com seu discurso, tanto que defendeu esses medicamentos até em pronunciamento oficial à nação por rádio e televisão. É preciso lembrar, por absoluto dever do ofício, falas do presidente sobre o assunto. Um dos mais incômodos foi na quinta-feira, 14, quando a cidade de Manaus estava mergulhada numa crise que virou assunto internacional, contando seus mortos por falta de oxigênio. Nesse dia, o presidente realizou uma transmissão ao vivo, ao lado do seu ministro-general da Saúde, Eduardo Pazuello. Na live semanal, os dois repetiram inverdades sobre a doença. E defenderam, ambos, o tal “tratamento precoce”, que, para eles, é a única maneira de enfrentar a pandemia. Mas essas afirmações vêm de longe, desde que o vírus surgiu e assustou o mundo. Bolsonaro começou a sua pregação contra tudo, principalmente os cuidados que a população deveria tomar, seguindo a orientação da Organização Mundial da Saúde.

Nesse período, quando a doença já mostrava sua gravidade, começou a crescer a tensão política entre Bolsonaro e o governador de São Paulo, João Doria. É um fato lamentável. Mais de 210 mil mortos no Brasil e os dois se digladiando numa guerra política que ninguém sabe ainda aonde vai chegar. Naquela ocasião, Doria deu o ar de sua graça dizendo que não ia seguir nenhuma orientação do governo federal no enfrentamento à Covid-19. O tucano assinalou que Bolsonaro queria curar a doença por meio de decreto. Nessa mesma oportunidade, vários senadores médicos reprovaram o uso dos medicamentos “receitados” por Bolsonaro, afirmando que, antes de tudo, o presidente não é cientista nem médico e, portanto, não cabe a ele tomar essas decisões. Por exemplo, o senador Fabiano Contarato, da Rede Sustentabilidade, disse que a cloroquina é propagandeada como uma poção mágica por charlatães. Observou que a saúde pública nunca foi exposta a tamanho risco com fins meramente eleitoreiros. Adiantou, então, que a comunidade médica precisava reagir a esse crime de lesa-humanidade. 

Os acontecimentos com o início da vacinação no Brasil, devido à completa ausência do governo, começam a provocar efeitos colaterais bastante significativos. A população passou a reagir num ambiente dramático que atualmente atinge o Brasil e vários países do mundo. A situação se agrava cada vez mais, e a população consciente tenta fazer o melhor, ignorando essas pílulas milagrosas, como as que foram enviadas aos milhares para Manaus. Infelizmente, essa conscientização sobre uma questão de tal gravidade ainda não chegou na cabeça de muitos que desrespeitam as pessoas, promovendo aglomerações e festas onde todos se esbaldam sem uso de máscara, ignorando a doença, na qual não acreditam. Não se compreende por que, até agora, o governo não providenciou a realização de uma campanha para esclarecer as pessoas sobre o coronavírus e os cuidados que cabem a cada um. É pedir demais. O negacionismo é uma doença que não tem cura.