Falar em arma de fogo para evangélico não é mais pecado

Lideranças religiosas em todo o país estão se armando, como fez o ex-ministro Milton Ribeiro, que tem porte de arma expedido pela PF e registro de caçador, atirador desportivo e colecionador emitido pelo Exército

  • Por Álvaro Alves de Faria
  • 11/05/2022 14h13 - Atualizado em 11/05/2022 16h27
Valéria Gonçalvez/Estadão Conteúdo Pessoa ponta arma de fogo Polícia Federal adota protocolo para se viajar de avião portando arma de fogo

Falar em arma de fogo para evangélico não é mais pecado. Não. Para algumas lideranças evangélicas é até um assunto agradável. A própria Bíblia defendendo armamento das populações. Todos têm direito à autodefesa. O presidente Bolsonaro tem razão em desejar armar todo mundo no Brasil. Até porque, lá na frente, poderemos ter de enfrentar uma guerra civil. Temos de estar preparados. Essa nova situação que prevê evangélico armado começou quando o ex-ministro da Educação, pastor Milton Ribeiro, quase provoca uma tragédia no aeroporto de Brasília, ao manusear sua arma para viajar a São Paulo. A arma disparou, ferindo uma funcionária de uma companhia aérea. Feriu porque feriu, mas poderia ser bem pior. O incidente ocorreu já há algum tempo, mas é bom ser lembrado pelo menos para situar a coluna de hoje. 

Para se viajar de avião com uma arma há um protocolo a ser cumprido junto à Polícia Federal. Mas o ex-ministro passou por cima disso e foi mexer na sua arma dentro de uma pasta no balcão de atendimento. Esse interesse pelas armas até por lideranças desse segmento religioso começou no Governo Bolsonaro, para quem as pessoas devem ter um tanque de guerra no quintal. Quando Bolsonaro editou decretos em favor do armamento, a bancada evangélica no Congresso se posicionou contra, mas hoje não é bem assim. A bancada está dividida entre os que querem andar armados e os que não desejam possuir arma nenhuma. É bom informar que o ex-ministro, pastor da Igreja Presbiteriana, tem porte de arma expedido pela Polícia Federal e registro de caçador, atirador desportivo e colecionador emitido pelo Exército. Ele não comprou a arma de nenhum bandido. Está tudo certo, mas ele não podia manusear sua arma na área de check-in do aeroporto. A arma disparou acidentalmente. Quer dizer, o ex-ministro pastor andava com a arma carregada. Será que ele estaria preparado para enfrentar um assaltante num tiroteio? 

O ex-ministro não está sozinho nesse amor repentino às armas de fogo, como quer o presidente da República. Várias lideranças religiosas em todo o país estão se armando. Que loucura é essa? Em Pernambuco, por exemplo, o pastor de uma igreja e sua mulher, a deputada estadual Clarissa Tércio (PP), postaram fotos nas redes sociais em que aparecem armados. E na mensagem que enaltece o armamento, eles colocaram esta legenda infame: “Juntos enfrentaremos todas as guerras, seja no mundo espiritual ou material”. Em Sergipe, outro exemplo: o pastor pentecostal da Assembleia de Deus, Cláudio Ferreira, virou o coordenador do Grupo Pró-Armas do Estado, exibindo vídeos nas redes sociais. O ex-ministro pastor Milton Ribeiro deve pertencer a esse time. Ministro e pastor, e dentro de sua pasta 007, uma arma de fogo. É uma maravilha. O deputado e pastor Marco Feliciano (PL) afirma que Jesus não era um pacificador, tampouco um pacifista. Isso são visões de um Jesus histórico. Para ele, a Bíblia defende o direito à autodefesa e uma visão nacionalista. Feliciano assegura que desarmar a população é uma jogada da esquerda. 

Este colunista careta, no entanto, prefere ouvir o que diz o pastor Valdinei Ferreira, Doutor em Sociologia pela USP e titular da Primeira Igreja Presbiteriana de São Paulo. Ele diz: “O exibicionismo de armas de fogo é equivalente à pornografia”. O pastor observa que os evangélicos nunca aceitaram o discurso armamentista da extrema-direita norte-americana, mas isso começou a mudar no governo de Bolsonaro, a quem ele acusa de usar a religião para se promover. Este colunista prefere que seja assim. Mas este colunista não significa nada na ordem das coisas.

*Esse texto não reflete, necessariamente, a opinião da Jovem Pan.