Marcelo Queiroga tenta conviver entre lados opostos: o que se dedica à Ciência e o que se entrega ao negacionismo

Ministro afirmou que estuda a aplicação da quarta dose da vacina e que vai se empenhar na imunização infantil, mas já chegou a criticar a Anvisa e se colocou contra o chamado passaporte vacinal

  • Por Álvaro Alves de Faria
  • 01/02/2022 13h25
ANTONIO MOLINA/FOTOARENA/ESTADÃO CONTEÚDO Ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, usa máscara branca Queiroga é o quarto ministro do governo Bolsonaro

O Brasil é um país surrealista. Surrealismo mágico. Assim, é próprio que crie anedotas sem graça sobre si mesmo. Na verdade, algumas das piadas causam gargalhadas. Outras provocam lágrimas. A mais recente das anedotas que o Brasil fez para si mesmo ficou a cargo do ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, aquele que vai para onde estiver soprando o vento. A ordem principal, como ministro, é agradar seu chefe, o presidente da República. Queiroga disse textualmente: “Quero que a História me defina como o homem que acabou com a Covid-19 no Brasil”. Claro, essa é para chorar. Chorar ou gargalhar até perder o fôlego. Queiroga tenta conviver entre lados completamente opostos, um que se dedica à Ciência e outro a que se entrega de corpo e alma, o negacionismo do presidente que desaprova a vacinação, incluindo nisso as crianças, o que contrariou completamente o eleitorado feminino, preocupando a base aliada.

O Ministério da Saúde do Brasil, em plena pandemia, não passa de uma várzea. Mas do alto de sua autoridade, Queiroga afirma que estuda a aplicação da quarta dose da vacina e vai se empenhar na vacinação das crianças de 5 a 11 anos. Em entrevista monossilábica dada recentemente à imprensa, o ministro disse que o medicamento hidroxicloroquina, “receitado” por Bolsonaro, não tem qualquer eficácia no combate à Covid. Disse também que o pico da variante Ômicron vai ocorrer no Brasil daqui a duas ou três semanas, mas o país não enfrentará nenhum colapso hospitalar. Enquanto Queiroga mostra uma de suas muitas faces, o ministro do Supremo Tribunal Federal Gilmar Mendes encaminhou à Procuradoria-Geral da República, na quinta-feira, 27, pedido de investigação contra o ministro da Saúde, pela sequência de instabilidade que vem criando no país com suas afirmações e fornecimento de dados do ministério que nada informam. Gilmar Mendes atende a um pedido feito pelo PT. O sistema do Ministério foi alvo de ataques hacker e desde então os dados fornecidos pelo governo sobre a pandemia, vacinação, número de contaminados e mortes estão completamente fora da realidade. Ninguém mais sabe de nada o que de fato está acontecendo no país na área da pandemia.

O próprio Gilmar Mendes afirma que o apagão na saúde inviabiliza o enfrentamento à Covid. Já os congressistas do PT afirmam que o Ministério da Saúde vem violando o dever de transparência da administração pública, como quer a Constituição. Seja como for, a figura do ministro da Saúde é lastimável, sempre pronta a agradar o chefe e receber um afagozinho de presente. Alguém que esqueceu que é médico, rasgou o diploma e por várias vezes se colocou contra a vacinação para agradar o presidente. Queiroga é o quarto ministro da Saúde no governo Bolsonaro. E como ministro, chegou a criticar a Anvisa e se colocou contra o chamado passaporte vacinal, dizendo uma frase que fará parte de todas as antologias do absurdo e do besteirol do Brasil: “É melhor perder a vida do que a liberdade”, disse o ministro, ao tentar explicar a demora do início da vacinação infantil. Sim, senhor ministro Marcelo Queiroga, o senhor não será esquecido por ninguém, juntamente com ação do governo na pandemia, que o senhor, ultimamente, tem ajudado tanto. O senhor tem razão: a História vai defini-lo como o homem que acabou com a Covid. Episódios assim revelam a cara deste país. Uma cara quase sempre maquiada pela desfaçatez. O senhor é nosso herói, ministro!

*Esse texto não reflete, necessariamente, a opinião da Jovem Pan.