Na guerra política pela vacina, população já está cansada de tanto descaso

Entre Bolsonaro e Doria, nenhum dos dois pensam em uma saída honrosa na disputa pela imunização, ambos querem ganhar, porque isso significa prestígio

  • Por Álvaro Alves de Faria
  • 15/12/2020 14h07
GUILHERME RODRIGUES/MYPHOTO PRESS/ESTADÃO CONTEÚDOGoverno de SP vai apresentar os resultados da CoronaVac no dia 23 de dezembro

Estava previsto, mas não vai acontecer. A farmacêutica chinesa, em parceria com o Instituto Butantan, entregaria nesta terça-feira, 15, os resultados da vacina que produziram. Agora os dados oficiais sobre a eficiência da CoronaVac serão divulgados no dia 23 próximo. Com o atraso da entrega, que seria hoje, toda essa programação poderá estar prejudicada. Mas o governador João Doria, um dos contendores da guerra da vacina, não dorme no ponto. Já agiu de forma fulminante. Bolsonaro deve estar consultando os seus botões. Ninguém pensa em saída honrosa da guerra da vacina que se instalou no Brasil. Os dois lados desejam ganhar o troféu. Isso significa prestígio. É isso que está em jogo, sem contar a vaidade e o ódio político que fazem mover as peças da batalha.

A CoronaVac já está na terceira fase de testes.  A vacina só poderá ser distribuída depois que o Instituto Butantan enviar o relatório à Anvisa. O adiamento está causando inquietação. Até porque, também a vacina, a exemplo da doença, se transformou numa guerra entre o presidente Bolsonaro e o governador de São Paulo, João Doria. Antes de tudo, trata-se de um imenso desrespeito à população. O que não pode é entregar dados incompletos. Isso tornará a vacina inviável. Na verdade, ciência não tem data. É um erro estabelecer datas nesses casos porque a ciência é dinâmica. Os dados podem mudar em algumas horas. O governador João Doria insiste em dizer que a vacinação em São Paulo será iniciada no dia 25 de janeiro, data do aniversário da cidade. No entanto, já não se tem tanta certeza assim. Pode haver uma licença emergencial. Seja para o que for – emergência ou registro – os dados precisam ser consistentes. Mesmo diante dessa incerteza, o Instituto Butantan, com 1.880 metros quadrados, 245 profissionais e ainda mais 120 contratados, continua trabalhando dia e noite, ininterruptamente. Para angustiar o inimigo, João Doria informou que 12 estados vão comprar a CoronaVac: Acre, Pará, Maranhão, Roraima, Piauí, Mato Grosso do Sul, Espírito Santo, Rio Grande do Norte, Paraíba, Ceará, Rio Grande do Sul e São Paulo, além de 900 cidades brasileiras de todo país. A estas alturas, sabe-se que o ministro da Saúde, general Eduardo Pazuello, não está suportando as pressões que vem sofrendo dos estados sobre a vacinação. Os governadores reclamam da desinformação, preocupando uma população que já está cansada de tanto desmando. O ministro decidiu nesta segunda-feira, 14, que vai novamente conversar com os governadores. Pazuello, no entanto, prefere conversas pessoais que podem render mais e evitar tensões. É possível que essas conversas ocorram ainda nesta semana. 

O secretário-executivo do Ministério da Saúde respondeu ao ministro do STF, Ricardo Lewandowski, que deu ao governo 48 horas para explicar o plano de vacinação, o início e o final. Sem citar o nome de Lewandowski, Élcio Franco afirmou que determinar uma data para questões assim seria irresponsabilidade, até porque nenhum dos laboratórios produtores iniciou o processo de registro das vacinas junto à Anvisa, nem em caráter experimental. Marcar essas datas, então, é somente um ato irresponsável. Élcio Franco informou que o governo tem intenção de comprar a vacina produzida pela chinesa Sinovac, em conjunto com o Instituto Butantan, de São Paulo, caso a vacina prove ser eficiente. O secretário-executivo do Ministério da Saúde aproveitou para criticar João Doria de maneira agressiva. Disse que Doria não conhece o marco regulatório sanitário do país. Por isso marcou o início da vacinação em São Paulo para 25 de janeiro, porque desconhece tudo no setor. Afirmou que Doria está vivendo um devaneio sonhando acordado. Não sabe o que diz. Acusando João Doria de brincar com a esperança dos brasileiros, Élcio Franco disse num vídeo divulgado na noite de domingo, 12: “Não será com discursos de ódio e tendenciosos que as soluções serão encontradas. O Brasil não será dividido. Senhor João Doria, não brinque com a esperança de milhares de brasileiros, não venda sonhos que não possa cumprir, prometendo uma imunização com um produto que sequer possui registro nem autorização para uso emergencial”.

Por palavras assim pode-se medir o clima que reina entre o governo federal e o governo de São Paulo. É mesmo uma guerra política declarada já que, no entender de algumas sumidades, o primeiro a apresentar a vacina será o novo herói nacional, prontinho para 2022. Já a Anvisa informou na tarde desta segunda-feira, 14, que a análise para o uso emergencial de qualquer vacina levará dez dias. Isso se todos os documentos estiverem em ordem. Simultaneamente, João Doria mudou os planos. Desistindo de entregar os dados da CoronaVac hoje, 15, optou para deixar tudo para o próximo dia 23, quando entregará à Anvisa os estudos conclusivos sobre a vacina chinesa desenvolvida juntamente com o Instituto Butantan, de São Paulo. Nessa oportunidade, Doria solicitará o registro definitivo da vacina. Repetiu, então, que iniciará a vacinação em São Paulo no dia 25 de janeiro, como já estava programado. E essa programação será iniciada com a autorização da Anvisa ou com o aval de um órgão similar internacional. Ao mesmo tempo, a solicitação será encaminhada à National Medical Products Administration, que é a instituição chinesa responsável pelos medicamentos. Com essa medida, o estudo clínico realizado pela Sinovac e pelo Instituto Butantan permitirá o registro da vacina no Brasil, na China e no mundo. É jogo duro. Até porque, guerra é guerra. E quem entra numa guerra assim, tem de estar preparado para qualquer coisa. Pena que nessas cenas e nesses combates exclusivos, a população brasileira seja apenas o espectador que nem sabe mais para quem torcer.