Não houve ninguém que se dispusesse a socorrer João Alberto, mas todos estavam filmando

Somos uma sociedade que prefere filmar tudo, mesmo quando um homem está sendo espancado impiedosamente, preferimos não interferir, só filmar; afinal, em que nos transformamos?

  • Por Álvaro Alves de Faria
  • 23/11/2020 11h39 - Atualizado em 23/11/2020 11h57
Reprodução/Redes sociaisJoão Alberto Silveira Freitas, homem negro, morreu em uma unidade do Carrefour em Porto Alegre após ser espancado por dois homens brancos

O assassinato brutal de um homem negro, 40 anos, morto por espancamento por dois seguranças de um supermercado em Porto Alegre, além da indignação, provocou, também, um momento de reflexão no Brasil. Poucas vezes algum caso mereceu tamanha cobertura jornalística. Caminhamos para ser uma sociedade cada vez mais individualista. Cada um por si. O outro nada nos diz. Nada nos interessa. As relações humanas estão desaparecendo. Os amigos são poucos. E entre os poucos amigos, alguns vão se afastando ao seu próprio mundo onde não cabe mais ninguém. Os tempos são outros. Mudaram. Solidariedade? Essa palavra chega a ser obscena. É um tempo de coisas fáceis e descartáveis também. Tudo é descartável. Com o passar do tempo, o próprio tempo se transformou em nada. Os valores humanos mudaram. O que está valendo mesmo é um egoísmo doloroso. Cada um por si. Vizinho não conhece vizinho, famílias se desmoronam. E, de repente, todos estão sozinhos, perdidos dentro de si mesmos.

Veio-me tudo isto à cabeça ao acompanhar o crime brutal no supermercado. Um homem negro assassinado por espancamento por dois homens brancos, diante de uma plateia que se manteve afastada. Nós nos transformamos numa sociedade insensível e, sobretudo, covarde. Não houve ninguém, absolutamente ninguém, que se dispusesse a socorrer esse homem. Mas todos estavam filmando com seu celular. Somos uma sociedade que prefere filmar tudo. Mesmo quando um homem está sendo espancado impiedosamente, preferimos não interferir, só filmar. Afinal, em que nos transformamos? Que mundo é este? Que país é este em que ninguém conhece ninguém? E parece que essa é a nova ordem social: ninguém conhecer ninguém. A nova norma é sempre ignorar o outro. É usar de preconceito e discriminação em tudo. Na verdade, essa nova regra de vida está sendo imposta às pessoas, como uma ordem superior. Uma ordem que vem de cima, negativista e também assustadora. O negativismo está em tudo. Convém lembrar, com muito desalento, a participação do presidente Bolsonaro na reunião do G-20, no último sábado, 21, em que comentou o crime sem citar nome de ninguém. Afirmou que “existem tentativas de importar para o Brasil tensões raciais que são alheias à nossa história”. Uma afirmação distante da realidade deprimente das ruas repletas de manifestações contra a morte brutal de João Alberto Silveira Freitas.

Bolsonaro observou que a miscigenação é a essência do brasileiro que conquistou a simpatia do mundo. “Entretanto, há quem queira destruí-la e colocar no seu lugar o conflito, o ressentimento, o ódio e a divisão entre raças sempre mascaradas de luta por igualdade ou justiça social”. O assassinato seria, digamos, algo normal no cotidiano brasileiro, que não mereceria qualquer atenção especial. Mas não é assim. Ao mesmo tempo, jornais de vários países, especialmente europeus, destacavam na primeira página o espancamento. E as imagens lastimáveis do crime foram mostradas dezenas de vezes na televisão desses países. Imagens sem retoque de um país que ninguém sabe ao certo o que de fato é. Sem contar as redes sociais do mundo inteiro. O presidente assinalou, também, que “um povo unido é um povo soberano. Dividido é vulnerável. E vulnerável pode ser mais facilmente controlado e subjugado. Nossa liberdade é inegociável”. Os jornais internacionais compararam o assassinato de João Alberto ao do norte-americano George Floyd, que morreu nas mãos de dois policiais brancos, em Minneapolis, nos Estados Unidos. Não podia ser diferente.

As palavras distantes de Bolsonaro criam profundo desalento nas pessoas que ainda conseguem raciocinar. Mas que culpa tem um presidente da República com um crime em Porto Alegre? Pode não ter culpa. E não tem. Mas é uma questão política, uma postura que enaltece a brutalidade e o negativismo, como se vê com o coronavírus e como se verá, ainda, na guerra da vacina que se aproxima. E assim, com essa doutrinação, a população vai procurando seu lugar, cada vez mais ausente até de si mesma. A violência está em quase tudo. Uma delinquência sem controle. Um país em que os grandes bandidos comandam suas quadrilhas de dentro das prisões, porque vivemos num país que se mostra incapaz de barrar os celulares que os presidiários perigosos têm à sua disposição. A sociedade está se transformando cada vez mais. Isso não ocorreu agora. Isso vem de alguns anos para cá. De alguns governos para cá. Governos que revelaram ao país que vale tudo. Um país corrupto, com autoridades corruptas, com uma Justiça que reina à sua maneira, de acordo com seu entendimento. Uma transformação que começa a ser a verdadeira identidade brasileira. Uma identidade marcada por barbáries diárias, em todo lugar, a qualquer hora do dia e da noite. É uma outra maneira de viver. No entanto, essa nova vida não cabe na cabeça de todas as pessoas. Alguns ainda têm a coragem de sonhar com um mundo melhor.