Novo ministro da Saúde defende distanciamento social, mas ele já combinou com o governo?

Marcelo Queiroga se coloca como continuidade da gestão de Eduardo Pazuello, que sempre rezou pela cartilha de Bolsonaro e nunca recomendou o isolamento como medida de prevenção contra a Covid-19

  • Por Álvaro Alves de Faria
  • 18/03/2021 12h52 - Atualizado em 18/03/2021 14h09
Dida Sampaio/Estadão Conteúdo - 16/03/2021Marcelo Queiroga foi escolhido para chefiar ministério da Saúde, mas Eduardo Pazuello ainda não deixou o cargo

A curto prazo, existem dois caminhos para conter a pandemia no Brasil: o distanciamento social e um melhor atendimento nos hospitais. Fora isso, não existe nada. Continuaremos a errar e a fazer o número de mortos e doentes aumentar cada vez mais. São palavras do novo ministro da Saúde, o cardiologista Marcelo Queiroga, ao falar com jornalistas nesta quarta-feira, 17, na Fiocruz, durante a cerimônia de entrega do primeiro lote de 50 mil doses da vacina de Oxford. O novo ministro quer diminuir o número de óbitos com políticas de distanciamento social que permitam barrar a circulação do vírus. A vacinação e a melhoria do sistema hospitalar do país fazem parte de outra fase a médio prazo. A política de distanciamento social nunca foi defendida pelo ainda ministro Eduardo Pazuello, que reza rigorosamente na cartilha do presidente Bolsonaro. Mesmo assim, o novo ministro Queiroga afirma que continuará com o trabalho do “antecessor”, já que, conforme afirmou, “o trabalho do ministério tem sido singular”.

Ao defender a política de distanciamento social, é de se perguntar se o novo ministro já combinou isso com o presidente. Se não combinou, não adianta absolutamente nada. O presidente é dado em fazer aglomerações em todo lugar que vai e não tomar conhecimento dos cuidados necessários para enfrentar o vírus segundo a ciência. Queiroga deseja uma união nacional sobre o combate à pandemia. Se não houver, o combate fracassará. Mas o cardiologista afirmou que o brasileiro tem espírito de união para enfrentar as dificuldades. Citou até Oswaldo Cruz e Carlos Chagas, que, no passado, enfrentaram a gripe espanhola. O novo ministro observou que não adianta recomendar o uso de máscara se as pessoas não seguem a recomendação. Disse também que o governo sugere a redução de aglomerações fúteis, mas as pessoas ficam promovendo festas. Opa! Espere aí, cara pálida! Quando é que o governo fez essas recomendações? Durante a gripe espanhola, em 1918, ou agora, na pandemia do coronavírus? Agora, seguramente, o presidente nunca fez recomendação nenhuma, pelo contrário, sempre levou as pessoas para o caminho oposto, criticando todas as medidas de enfrentamento à doença, além de desacreditar a própria vacinação.

O senhor precisa se informar melhor, ministro Marcelo Queiroga, ou então já vá preparando o seu discurso de despedida. Que conversa é essa, ministro? Queiroga afirmou que a população não pode esperar que o governo faça tudo. Está certo. Mas também não é obrigada a aceitar que o governo critique qualquer iniciativa de combate à pandemia. O novo chefe da Saúde acenou com a possibilidade de trocar toda a equipe do ministério. Fez questão de deixar bem claro – e não poderia ser diferente – que a política pública é a política pública do governo federal e do presidente da República, que confere autonomia aos seus ministros, mas cobra resultados. O médico observou que, no setor da saúde, o país tem que trabalhar como um todo. Se não for assim, não funciona. O novo ministro, no entanto, afirmou que a doença é ainda desconhecida, o que dificulta o combate, mas defendeu o atendimento correto  para salvar vidas . Dentro do governo, já existe alguns focos de críticas ao setor que já mudou de ministro quatro vezes em dois anos. Alguns dizem que Eduardo Pazuello já começa a atrapalhar com essa conversa de que o seu sucessor representa a continuidade do trabalho. Chegou a dizer que Queiroga vai rezar pela mesma cartilha de Bolsonaro. Ministro, o senhor vai usar cloroquina? Dizem as víboras do Palácio do Planalto que essa conversa repetida tantas vezes está deixando Marcelo Queiroga constrangido. E ninguém entende por que ele não tomou posse até agora. Temos dois ministros da Saúde.

Alguns assessores presidenciais asseguram que se tem a impressão de que o novo ministro está sendo vigiado por Pazuello. Já os aliados de Bolsonaro no Congresso Nacional dizem para quem quiser ouvir que o novo ministro da Saúde está chegando com o freio de mão puxado e que assim não vai dar certo porque agora tudo tem que ser urgente. Os aliados palacianos e até assessores do governo citam a pesquisa Datafolha que revelou um número bastante desalentador: 54% das pessoas pesquisadas desaprovaram o tratamento que Bolsonaro dá à pandemia e 43% apontam o presidente como o fator principal no agravamento da crise. Dizem que esse é um sinal que não adianta somente trocar o nome do ministro. Então chegamos a este quadro: o novo ministro Marcelo Queiroga tentando passar um entusiasmo que não existe e a realidade cada vez mais feroz nas ruas, nos hospitais e também nos cemitérios, com suas pequenas cruzes azuis contando uma história trágica que sempre mereceu descaso no seu enfrentamento. É a crônica da morte anunciada de Gabriel García Márquez. Não podia ser diferente. No entanto, não estamos falando de literatura. Estamos falando de uma realidade perversa e de uma imensa pilha de cadáveres que parece não comover diante do que se vê no pais. Muito descaso. É como se tudo estivesse normal. Podem abrir tudo! Vamos todos para a rua! Não falta muito para o Brasil, que já está enfermo, mergulhar completamente num colapso absoluto, como querem os que negam a doença de maneira inconsequente e sem nenhuma compaixão.