O vírus, o negacionismo e a política são os grandes vencedores da guerra da Covid-19

Número de casos e mortes só avança no Brasil, a população se afasta cada vez mais das medidas de isolamento social e o governo segue tratando a pandemia com descaso

  • Por Álvaro Alves de Faria
  • 09/04/2021 12h15
Deividi Correa/Estadão Conteúdo - 20/03/2021Festa clandestina em Interlagos, zona sul de São Paulo, é encerrada por força-tarefa da Vigilância Sanitária, Procon e PM

O Brasil perde a guerra contra a Covid-19. As palavras do presidente do Instituto Butantan, de São Paulo, soam como uma sentença de morte, tal o tom usado para dizê-las com um profundo ar de derrota. O hematologista Dimas Covas, presidente do Butantan, afirma que o Brasil está perdendo a batalha contra o vírus e o negacionismo vencendo a guerra contra a ciência. Prova disso é o aumento da transmissão e o número de novos casos e óbitos. Nessa guerra de vida ou morte, o cenário conta com a ajuda de gente irresponsável, que insiste em promover festas e aglomerações praticamente todos os dias. Já o presidente Bolsonaro jura que pode acabar com o coronavírus em alguns minutos: bastar das dinheiro para os jornais. Assegura ele que, se fizer como os governos anteriores, a Covid-19 acaba.

Parte da população tem se afastado das medidas de distanciamento social, agravando a crise cada vez mais. Em outras palavras: não há mais controle da doença, que só no Brasil já matou mais de 330 mil pessoas. Em entrevista ao jornal “O Globo”, do Rio de Janeiro, Dimas Covas comentou as causas do aumento de casos e mortes por Covid-19 e as novas variantes da doença. Informou, então, que o Instituto Butantan ainda aguarda autorização da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) para testar em humanos sua nova vacina. Lembrou que o cronograma de entrega da CoronoVac, para este mês de abril, depende ainda de mais insumos importados da China.  Na verdade, é uma conversa que não tem fim. Quase tudo que se refere a vacinação provoca discussões que nada explicam e criam um clima de apreensão na população, que observa os números assustadores e se esconde no próprio medo. Covas informa que, atualmente, a China está mais preocupada em produzir vacinas para exportação a vários países, enquanto as encomendas de insumos ficaram num plano inferior. De qualquer maneira, a promessa de entregar 46 milhões de doses ao Ministério da Saúde até o final deste mês ainda está valendo. Falta a remessa das últimas 6 milhões de doses.

Dimas Covas defende mais restrições para o combate à Covid-19. Afirma que o enfrentamento a uma epidemia é extremamente complexo, porque envolve as áreas social e econômica. Se houvesse a possibilidade de isolar todas as pessoas por 14 dias, a epidemia acabaria por abranger exatamente o ciclo do vírus. Mas isso é impossível. Confinamento assim não existe. Sendo assim, o país depende das medidas de restrição para evitar a transmissão. O lockdown não é uma medida definitiva, como foi utilizado em vários países. Tem-se que contar com outros mecanismos, como a vigilância epidemiológica, que é identificação e isolamento dos casos. No Brasil, essa vigilância é insuficiente, restando somente o isolamento social. O país não dispõe de uma adesão nacional e um discurso único.

De acordo com o presidente do Butantan, o Brasil tem muitos discursos, boa parte deles contrário às medidas possíveis de se tomar. A palavra oficial do governo federal é que as pessoas não fiquem em casa. Está certo, em termos econômicos. Mas tem que combinar isso com o vírus. O que não pode haver mais – conforme afirma – é um duplo comando para lidar com a pandemia. Hoje temos no Brasil o comando da ciência e o comando do negacionismo. Por isso, estamos perdendo a batalha. O vírus está correndo tranquilo, provocando milhares de mortes todos os dias. Nessa mesma quarta-feira, 7, o presidente Bolsonaro manifestou-se sobre o número de mortes em 24 horas, que chegara a 4.195. Aos seus apoiadores, o presidente afirmou que resolveria o problema do vírus no Brasil caso seu governo desse mais dinheiro para os veículos de comunicação. Bolsonaro observou que se trata de um jogo de poder. Se vai morrer mais gente, não interessa. Assinalou que o problema seria resolvido em alguns minutos, caso agisse como os governos anteriores, que pagavam a “verba de imprensa”. Ele afirmou ainda que, em outros países, querem destruir o vírus, mas aqui a ordem é destruir o presidente. O capitão aproveitou a oportunidade para, mais uma vez, criticar as medidas de restrição à circulação das pessoas.

Então é assim que estamos. O negacionismo está vencendo a batalha contra a ciência e, enquanto essa discussão se alonga, as pessoas imploram pela vida diante dos hospitais em colapso, sem medicamentos, sem leitos, sem UTIs e também sem profissionais da saúde em número suficiente. Não se tem notícia de que em algum outro país o problema da Covid-19 seguiu para um caminho desprezível assim, em que primeiro vale a política, depois a doença. Se a doença está vencendo a guerra, pode-se dizer também que a política no Brasil está vencendo o bom senso e a responsabilidade em lidar com a vida das pessoas. A voz do governo nunca foi favorável a qualquer iniciativa de enfrentamento à Covid-19. Pelo contrário. Sempre tratou tudo com descaso. E a Covid-19 avança. O Brasil está perdendo a batalha.