‘Passaporte da vacina’ é necessário porque a prioridade é a saúde coletiva, não a vontade individual

Medida passa a valer em São Paulo e no Rio de Janeiro a partir da próxima quarta-feira; esses que tanto falam em liberdade nunca sentiram a falta dela na carne

  • Por Álvaro Alves de Faria
  • 30/08/2021 12h03
ALOISIO MAURICIO/FOTOARENA/ESTADÃO CONTEÚDODocumento será disponibilizado no aplicativo E-Saúde, mas o comprovante de vacinação também é válido

Eu defendo o passaporte da vacina. E o faço em nome da vida. Não tenho e nunca terei o direito de transmitir o vírus para outra pessoa. E a outra pessoa não tem e nunca terá o direito de transmitir a Covid-19 para mim. É uma questão de ser civilizado ou não. Mas o passaporte da vacina e até o uso de máscara vêm sofrendo críticas duras de gente individualista, que ignora o coletivo. Gente que pensa só em si mesma, como se fosse dona da razão. Infelizmente isso se vê de maneira especial no jornalismo, categoria à qual pertenço a vida inteira, desde a adolescência. Alguns jornalistas falam como os doutores da lei. Por isso a pandemia não acaba nunca. Eu defendo o passaporte da vacina, implantado em vários países civilizados, de gente que pensa no outro.

Em São Paulo e no Rio de Janeiro, o passaporte da vacina passará a valer na quarta-feira, 1º de setembro. Na cidade de São Paulo, o documento foi criado pelo prefeito Ricardo Nunes (MDB), conforme decreto publicado no Diário Oficial da capital no sábado, 28. O documento será exigido no acesso a eventos com mais de 500 pessoas, como shows, congressos e jogos. Ao contrário do que o prefeito informou na semana passada, o passaporte não será exigido para acesso a restaurantes, bares, shoppings e outros estabelecimentos comerciais e de serviços. Nesses locais, a prefeitura paulistana apenas recomenda a apresentação do passaporte, seu uso não é obrigatório. Pois eu particularmente acho, acho mesmo, que o passaporte deveria ser obrigatório. Esses que tanto falam em liberdade nunca sentiram a falta dessa mesma liberdade na carne. Fosse uma determinação da ditadura militar, estariam quietinhos, acatando as ordens. Falam assim porque milhares saíram à luta pela redemocratização do país, milhares morreram, milhares desapareceram, milhares foram esmagados dentro de uma cela. Permito-me dizer que eu quase perdi a vida. Esses que pregam a desordem, ignorando a vida do outro, estariam caladinhos não fosse a redemocratização do país em 1985 com a nova Constituição em 1988. Quietinhos, de boquinha fechada.

Para obter o passaporte da vacina em São Paulo, as pessoas que querem viver e levam a vida a sério deverão tomar pelo menos uma dose do imunizante. O documento será disponibilizado no aplicativo E-Saúde da Secretaria Municipal da Saúde, no formato QR Code. Mas quem preferir, poderá apenas apresentar o comprovante de vacinação. O prefeito Ricardo Nunes tem razão ao justificar a medida como uma necessidade de frear as infecções por Covid-19 na cidade que, por decisão do governo do Estado, acabou com as restrições de horários para funcionamento dos estabelecimentos comerciais e de serviços e liberou a realização de eventos. Sete deputados do PSL, incluindo o filho do presidente, Eduardo Bolsonaro, entraram com ação na Justiça para barrar o passaporte da vacina em São Paulo, mas o desembargador Fábio Nogueira, do Tribunal de Justiça, negou o pedido de habeas corpus preventivo, observando que o projeto do prefeito Nunes é de utilidade pública, porque visa conter a Covid-19. Assinalou que a medida defende a saúde e a vida, corolários do princípio da dignidade da pessoa humana. Está correto.

No Rio de Janeiro, o passaporte da vacina será exigido em locais de uso coletivo, como academias, estádios, cinema, teatros e museus. Basta a apresentação do comprovante de vacinação. O prefeito do Rio, Eduardo Paes (PSD), diz que o chamado passaporte é algo necessário para a reabertura da economia e por esse motivo quer incentivar a vacinação. Paes observa que a medida visa criar um clima de dificuldade para aqueles que se negam a tomar a vacina. Esses acham que podem ter uma vida normal sem vacinar-se, o que é um equívoco. Na contramão das decisões dos prefeitos, o ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, se diz contra o passaporte. Afirma, o senhor ministro, que esse documento não ajuda em nada, porque o Brasil tem um regulamento sanitário que é um dos mais avançados do mundo. O servil ministro da Saúde sinalizou ser até contra o uso da máscara de proteção contra a Covid-19. Queiroga utiliza uma frase decorada e diz que o povo brasileiro é livre e as pessoas devem agir de acordo com sua consciência. O presidente Bolsonaro já adiantou que vetará a medida, caso ela seja aprovada na Câmara dos Deputados, o que não é novidade nenhuma. Esses que se colocam contra a vacinação, contra o uso da máscara e agora contra o passaporte devem aprender sobre a solidariedade entre as pessoas. É lastimável que não pensem no coletivo e queiram apenas preservar sua liberdade individual. O outro que se f****. Não é assim. Não pode ser assim. Se a redemocratização não viesse como veio, com a luta de milhares, eles estariam quietinhos, de boca fechada, escondidos numa suposta superioridade moral que não têm.