Tratada com descaso, Covid-19 potencializa pânico e ansiedade no país da depressão

Medo da morte, falta de dinheiro, isolamento e preocupação com entes queridos provocam ida em massa aos consultórios psiquiátricos durante a pandemia, um mal invisível que não tem data para acabar

  • Por Álvaro Alves de Faria
  • 05/01/2021 13h04
Engin Akyurt/Pixabay Covid-19 potencializa transtornos como ansiedade e pânico devido ao medo da morte, do desemprego e da perda de pessoas amadas

A pandemia não se resume somente ao vírus tantas vezes mortal. Vai além, porque tem provocado outras doenças mentais nas pessoas que, em muitos casos, perdem a noção do mundo e da própria vida. A Covid-19 tem seus efeitos conhecidos no mundo inteiro. Um mal invisível que se alastra sem trégua. E as pessoas se defendem como podem. Procuram seguir a orientação das autoridades sanitárias de seu país. No Brasil, infelizmente, o coronavírus não mereceu e ainda não merece a atenção e o combate necessários, um descaso. Somamos mais de 195 mil mortos. Inicialmente, houve descaso com o vírus. A seguir, descaso com a doença. Depois, com a pandemia. Depois, com os mortos. E atualmente a ordem é desacreditar a vacina, o único medicamento surgido até agora em todo o mundo capaz de enfrentar a doença. O vírus tem causado problemas de saúde graves a milhões de pessoas que passaram a sentir depressão, ansiedade e pânico. Os que já tinham essas doenças emocionais anteriormente passaram a senti-las mais profundamente. Com os sintomas mais fortes, em muitos casos esse mal se tornou incontrolável. O medo de uma pessoa assim ultrapassa qualquer tipo de imaginação. É o pavor. Um transtorno mental que exige tratamento especial. 

A depressão é uma doença psiquiátrica em que a pessoa sente profunda tristeza diante da vida, baixa autoestima e um sentimento de culpa que não para. Fora isso, a pessoa perde completamente o sentimento de prazer em suas atividades e relações pessoais. Esse estado de desânimo completo chega a provocar até a ideia de suicídio, já que o deprimido, nessas condições, não vê outra saída. A pessoa se sente incapaz e desinteressada em praticamente tudo o que a envolve. Com a pandemia, esses sintomas se agravaram em milhões de pessoas no mundo, e o Brasil não está fora disso. A diminuição da renda, o desemprego, medo do futuro, a responsabilidade em relação à família são fatores que deterioraram ainda mais a saúde. O isolamento social agravou mais um quadro delicado para a vida humana, porque separou da convivência pais e filhos, amigos próximos. Uma medida que causou e causa sofrimento, especialmente aos que moram sozinhos e estão há meses sem ver ninguém durante a quarentena. As grandes vítimas são, também, os idosos, para quem a falta do simples passeio pela manhã destrói a própria expectativa de vida, tornando-os cada vez mais frágeis e doentes diante de uma situação inesperada.

Na pandemia, que ainda não acabou, a depressão atingiu mais as mulheres, que passaram a conviver diretamente com suas questões domésticas, filhos, trabalho e até relações afetivas. Os psiquiatras José Gallucci Neto e André Bunoni, ambos ligados à Universidade de São Paulo (USP), publicaram um estudo sobre o tema. Eles observaram que a Covid-19 interfere na saúde mental de várias maneiras, destacando a possível ação do vírus no sistema nervoso central por uma experiência traumática (morte de familiares ou de pessoas amigas, questões financeiras como a perda de renda, desemprego e as medidas de distanciamento social), que acaba por separar as pessoas. A pandemia fez crescer o consumo de bebidas alcoólicas, cigarros e drogas, causou insônia e aumentou os sintomas de estresse, angústia, medo, apreensão, nervosismo e preocupação. Muitos, por ordem médica, recorreram à eletroconvulsoterapia, que muitos ainda chamam de eletrochoque, termo que, com o tempo, se tornou estigmatizante. Esse tratamento, no entanto, vem sendo utilizado em casos graves de depressão que não respondem mais a medicamentos. De uma maneira geral, o tratamento com medicamentos antidepressivos de primeira linha dá algum resultado em 70% dos casos. No entanto, dependendo da gravidade da depressão e a progressão do quadro depressivo, há necessidade da aplicação de outras modalidades de tratamento. É nesse estado que entra a eletroconvulsoterapia, que é a estimulação magnética cerebral por corrente elétrica contínua. 

O Brasil possui atualmente cerca de 15 milhões de depressivos, a maior taxa da América Latina, e esse número tende a aumentar muito com a pandemia. Mais de 20 milhões de pessoas apresentaram sintomas como ataques de pânico ou ansiedade, fobias e transtornos de obsessão. O isolamento social repercute profundamente na saúde mental, provocando sentimentos de medo e incertezas com relação ao futuro. A pandemia representou um duro golpe em milhões de pessoas que se tornam praticamente imóveis diante de um mal que não recua diante de tantas informações ininterruptas sobre o vírus e a morte. Milhões de pessoas se tornam frágeis emocionalmente e não têm como reagir, porque foram envolvidas de uma maneira que requer cuidados especiais.

Pesquisa recente da Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP) revelou que, mesmo com todas as medidas de distanciamento social e a suspensão de alguns serviços — e até mesmo a consulta aos médicos —, a pandemia aumentou em 47,9% o número de consultas a psiquiatras, de pacientes que procuraram ajuda para vencer a ansiedade crescente aliada a outros sintomas de desequilíbrio emocional. De acordo com essa pesquisa, a alteração na rotina diante da pandemia tornou até natural que toda a população tenha sofrido, e ainda sofra, alterações de humor acompanhadas de irritabilidade ou de uma tristeza profunda, atingindo, também, as crianças sem aula, dentro de casa por dias seguidos, e os idosos, que formam o maior grupo de risco e que se vêm longe dos filhos, netos e outros familiares. 

A pesquisa da ABP revelou, também, que 89,2% dos psiquiatras identificaram que seus pacientes tiveram os sintomas da depressão agravados durante a quarentena e que 70%  dos profissionais informaram ter recebido novos pacientes desde o início da pandemia. Outro problema para essas pessoas neste período é a falta da luz do sol que, no isolamento, faz aumentar mais os sintomas da depressão. É um beco sem saída lidar com o medo do vírus em plena pandemia, que parece não acabar nunca e, na cabeça dessas pessoas, representa um mal do qual não escaparão. Nesse quadro de angústia, muitos têm até crises de choro que, muitas vezes, representam um alívio. Os medicamentos estão aí, mas a depressão e o pânico são doenças pelas quais as pessoas perdem a noção de si mesmas. E na pandemia tudo se tornou muito pior.