Beto Caetano: O que esperar de um país com juros baixos

Experiências de nações que até já adotaram taxas básicas próximas de zero mostram que só isso não basta para recuperar a economia

  • Por Beto Caetano*
  • 17/06/2020 19h21 - Atualizado em 18/06/2020 12h52
Marcello Casal Jr/Agência BrasilBanco Central reduz nesta quarta-feira, 17, a taxa básica de juros da economia, a Selic, de 3% para 2,25% ao ano

O novo recorde de baixa na taxa básica de juro do Brasil, a Selic, não é nenhuma surpresa neste momento. A grande aposta é que isso nos ajude a sair do atoleiro em que nossa economia está afundada. O juro oficial baixo, porém, pode ser considerado uma condição necessária, mas não suficiente para uma futura recuperação. Em todo caso, é preciso reconhecer o valor do marco. A taxa de 2,25% ao ano ora indicada não é um recorde qualquer num país com histórico de convivência com inflação e juros altos. Criada em março de 1999, quase cinco anos após o nascimento do real, a taxa Selic – sigla de Sistema Especial de Liquidação e Custódia –, começou em 45% anuais. Antes, desde 1986, o BC manteve outras taxas de referência. Quando a Selic foi lançada, ainda havia uma batalha para fazer vingar o real, moeda parida para estabilizar o valor do dinheiro no país. No começo daquela década, a taxa paga pelo Banco Central aos bancos chegara a um pico de 132.335% por ano em fevereiro de 1990, logo no início do Plano Collor, segundo dados do Ipeadata.

São 21 anos em que a Selic, com alguns poucos escorregões, vem refletindo a trajetória de um país que tenta não recair no fogo inflacionário de décadas atrás. Ao chegar ao nível atual em que, descontando a inflação – hoje projetada em 1,88% para doze meses –, a taxa real se aproxima de zero, o Brasil pela primeira vez se vê num paralelo com a realidade dos países desenvolvidos. O paralelo, porém, termina por aí. Aqui, os caminhos dessa aproximação foram tortos: uma sucessão de forte recessão em 2015-16, recuperação lenta nos três anos seguintes, e agora uma depressão aguda, causada pela pandemia. Sair do abismo atual vai exigir bem mais que juros baixos. O alto endividamento do setor público pesa no Brasil muito mais que nos desenvolvidos – a Selic baixa, nesse sentido, ajuda a diminuir o custo da rolagem dessa dívida. Mas falta ambiente de negócios mais estimulante, infraestrutura e capacitação de mão de obra, para ficar só em alguns pontos que farão diferença entre a nossa retomada e a dos países ricos.

A taxa zero de americanos, europeus e japoneses

Taxas de juros zeradas ou muito perto disso podem ser encontradas hoje nas principais economias capitalistas, com a mesma finalidade apontada pelo Banco Central do Brasil: combater a recessão que veio no rastro da pandemia da Covid-19. Neste momento, mesmo os títulos de prazo mais longo do Tesouro americano, os de 10 anos e os de 30 anos, estão oferecendo rendimentos inferiores a 1%. Faz pouco mais de uma década que, no mundo rico, os bancos centrais radicalizaram na redução das taxas de juros básicas. Estados Unidos, União Europeia, Japão e Reino Unido adotaram taxas de juros próximas de zero – ou até negativas – depois da crise financeira de 2008. O objetivo: estimular a recuperação da economia por meio da concessão de crédito barato a empresas e consumidores.

Nos Estados Unidos, a política do Federal Reserve, o banco central americano, de forçar os juros para baixo foi mantida por mais de sete anos. Apenas em novembro de 2015 o Fed iniciou uma normalização gradual, mas a taxa de referência não passou de 2,25% a 2,5% ao ano. Neste ano, desde março está num intervalo de zero a 0,25% ao ano. A última decisão do Fomc, o comitê de resoluções do Fed, realizada há uma semana, foi pela manutenção desse nível de juro. No Reino Unido, a taxa Bank Rate está em 0,1% ao ano, para inflação de 0,5%. Na União Europeia, as três taxas estabelecidas pelo Banco Central Europeu para a zona do euro foram reduzidas no último no dia 12, ficando dentro de um corredor entre zero e 0,25% ao ano.

Japão: juro baixo sem crescimento

No caso do Japão, a política tornou-se oficialmente de juro zero e veio após duas décadas de estagnação econômica para combater a deflação e dar um empurrão na economia. A experiência japonesa com essa opção vem dos anos 1990. À época, a economia local estancou após o esgotamento do chamado milagre japonês, um período de progresso que vinha desde a reconstrução pós-Segunda Guerra Mundial. O estímulo do juro zero funcionou de início, mas logo deixou de fazer efeito. Apesar disso, a prática de taxas muito baixas vem sendo mantida e, recentemente, o juro zero voltou. No entanto, a experiência mais longa do Japão com os juros nulos ou quase mostra bem que eles não são capazes de fazer a economia crescer com vigor por si só. Lá, embora infraestrutura e educação não sejam um problema, a estagnação demográfica parece ser o principal fator que impede um ânimo mais forte, por exemplo, no consumo.

No Brasil, a demografia ainda ajuda, a infraestrutura em grande parte está por construir ou ser atualizada, a demanda reprimida é enorme. Falta-nos, porém, um ímpeto para fazer reformas estruturais e fortalecer instituições – sem falar de um ambiente político menos tóxico. Ao menos quanto às taxas de juros oficiais – as de mercado para consumidores e empresas são outra conversa – agora estamos mais perto do Japão, dos Estados Unidos e da Europa. E o resto da agenda, quando virá?

*Beto Caetano é comentarista de economia e negócios da Jovem Pan.