Minha vida com asma: uma luta de tirar o fôlego

Você pode me colocar num quarto mofado em Peruíbe com um gato no colo que eu não vou ter asma, mas se alguém espirrar do meu lado e eu pegar a gripe mais besta que existe, eu estou ferrada

  • Por Bia Garbato
  • 08/12/2021 15h09
Pixabay/coltsfan

Eu não me lembro da vida sem asma. Nas minhas primeiras crises, minha mãe corria para o banheiro para eu respirar o vapor do chuveiro. Nebulização, naquela época, só mesmo no pronto-socorro. Depois surgiu um inalador trambolhão para usar em casa. Uma maravilha. Mas o processo não era fácil: tínhamos que nos entender com um emaranhado de fios e caninhos, lidar com um copinho que amassava só de pensar, colocar água filtrada até uma faixa vermelha impossível de acertar, depositar o soro, pingar os remédios, rosquear a tampa com destreza e ligar. Ligar? Se não estivesse tudo perfeito, o aparelho não ligava só de birra e me faltava mais o ar. Hoje, meu inalador não tem fio, é supersônico, portátil e o soro vem em flaconetes, porque descobriu-se que o bom e velho frasco que durava muitas crises perdia a função em 24 horas. Quem diria, inalamos placebo durante anos.

Bombinha era coisa de adulto e, mesmo sendo no tom de azul mais feio que existe (azul paquidérmico?), eu não via a hora de ser promovida a asmática e ganhar a minha. A asma é uma doença crônica, mas suas crises são disparadas por gatilhos. Os principais são: reação alérgica, exercícios físicos, mudança de temperatura, estresse emocional e gripe. Você pode me colocar num quarto mofado em Peruíbe com um gato no colo que eu não vou ter asma. Eu posso subir correndo a serra de Campos do Jordão de top que não vai me dar asma. Meu marido pode me trocar por alguém com muito mais colágeno do que eu e eu tenho a impressão de que não vou ter asma (ódio vou ter de montão). Mas se alguém espirrar do meu lado e eu pegar a gripe mais besta que existe, eu estou ferrada.

E agora, final de 2021, quem diria, estamos em um surto de gripe. Não só aquela, magnânima, que assolou nossos últimos dois anos. Aquela gripe old school, Naldecon e muita vitamina C (só para fazer uma fezinha). Ela ficou muito tempo por trás das máscaras e agora resolveu, como nós, circular. A gripe tem o mal hábito de atacar o ponto fraco de cada qual, gripe má. Tem quem tenha faringite/laringite, não sei bem a diferença, mas sei que, na prática, é uma baita dor de garganta. Tem a turma da rinite/sinusite. Dessas eu sei a diferença: uma escorre e a outra dói. Tem a otite, uma categoria maldita das “ites”, que dá vontade de bater a cabeça na parede. E tem a bronquite, que é a inflamação dos brônquios, as simpáticas arvorezinhas do pulmão. Eu escolhi essa. Toda empatia e compaixão por quem tem as outras mazelas, mas, vocês vão me desculpar, a bronquite tem uma característica que faz dela a pior. Ela atinge um órgão vital, o pulmão. Quando a gente liga para um otorrino por qualquer razão e fala: “doutor, ‘tô’ mal para caramba”. Ele diz: “aumenta o antiflamatório, toma o antialérgico de horário e entra no antibiótico”. “Ah, e não custa usar o spray de mel e não beber gelado”. Quando eu ligo para o meu pneumologista e lanço essa, vem uma dessas duas respostas: “vai para o pronto socorro” ou “vamos te internar”. No momento estou no pronto socorro, aguardando ele decidir se vai me internar. Decidiu pela segunda opção, então sigo escrevendo essa crônica comendo uma gelatina de abacaxi.

O sintoma principal da asma é a falta de ar. O que é mais fundamental do que beber água? Do cue comer? Do que dormir? Duas letrinhas para você: ar. Você é o ar que eu respiro. Preciso de ar puro. De ar livre. De respirar outros ares. Inspire e expire lentamente. Respire fundo. Já pode respirar aliviada. Aliviada? Nem sempre a bronquite me trouxe coisas ruins. Através dela saiu meu primeiro amor, o Bubble. Um jovem rapaz de dez anos, óculos e aparelho disfarçando sua timidez, mas resguardando seu senso de humor afiado. Por conta da minha condição pulmonar frágil, era desaconselhável que eu carregasse peso. Como um bom cavalheiro, Bubble fazia a gentileza de carregar minha mochila – e a dele – até o ônibus escolar, que ficava longe para caramba do portão da escola. Ou seja, ele ‘camelava’ com duas mochilas na hora que batia o sinal e, só quinze minutos depois, ele entrava suado no confortável Monza da mãe dele. Num desses traslados, Daniel (ele tinha um nome), me pediu em namoro. O primeiro pedido de namoro da 4a serie B (3o ano de hoje). Eu fiz o que toda garota de dez anos faria: disse que ia perguntar para a minha mãe e saí correndo sem a mochila mesmo. Naquele dia, eu fiquei sem ar. Mas não foi de asma.

Agora já estou há alguns dias no hospital. Já não lembro como é meu dedinho sem o oxímetro; quando alguém vem com um estetoscópio e me manda respirar fundo, fantasio enforcar a pessoa e enfiar o auscultador na goela dela; sonho em não ser acordada às 6hs da manhã com “só uma picadinha”; e, principalmente, estou querendo ver a gelatina de abacaxi pelas costas. Mas, de qualquer forma, lá no fundo, sei que a vida é assim. Repleta de felicidades, alegrias, medos, tristezas, e, principalmente, desafios. E de que lutar por ela e vencer é de tirar o fôlego.

*Esse texto não reflete, necessariamente, a opinião da Jovem Pan.