Os sentimentos na era digital: as hashtags #gratidão e #ingratidão dependem da lente que você usa para ver a vida

Meu marido não é um Rodrigo Hilbert, que praticamente amamentou os gêmeos e tem um programa na GNT, mas é um charme, cozinha bem e, ao contrário do marido da vizinha, não anda com regata de futebol

  • Por Bia Garbato
  • 14/07/2021 13h01 - Atualizado em 14/07/2021 13h03
Avi Chomotovski/Pixabay É fundamental que sejamos gratos pelo lado bom da vida

Fiz uma torta funcional de figo, ficou incrível. Nem parece que usei farinha de amêndoas, chia, leite de castanha, figos orgânicos, açúcar demerara e finalizei com tâmaras. Aprendi com a Bela Gil. Além de nutritiva e saudável, a torta ficou bem boa. Principalmente se considerarmos que foi a primeira vez que eu fiz. Fotinho linda para o Instagram e a legenda #gratidão. Uma outra visão sobre a mesma torta. Queria comer brigadeiro, mas olhei meu umbigo repousando num travesseiro de gordura e resolvi fazer a tal torta de figo natureba da Bela Gil. Eu estrago até ovo frito, mas com instrução em streaming tinha mais chances de dar certo. Pelo que eu entendi, a torta, além de simples, era rapidinha de fazer. Ela só esqueceu de avisar que, para providenciar os ingredientes, eu tinha que passar no Mundo Verde, na feirinha orgânica da Vila Madalena e no Whole Foods (lá nos Estados Unidos). Mas tudo bem. Segui a receita na base do play e do rewind. Fiz isso tantas vezes que meu celular ficou parecendo um biscoito amanteigado, polvilhado com açúcar demerara. Coloquei a torta para assar e fiquei curvada olhando o forno iluminado. Ansiedade total. Então ela ficou pronta. Não saiu muito bonitinha porque, afinal, foi minha primeira vez, mas o cheiro até que tava gostoso. Provei. Hum… o gosto… de verdade? O gosto tava uma m…. Melhor comer o celular. Sem fotinho no Instagram dessa vez. #ingratidão.

Sábado. Acordei tarde e, sinceramente, podre. O café da manhã do meu filho foi reforçado: salamitos, waffle congelado com Nutella e suco de groselha. Botei a roupa de ginástica, mas acabei no shopping, dando pinta de que tinha corrido 5 km pela manhã. Voltei, bati um resto de lasanha, fiquei olhando fotos dos sábados alheios, enquanto meu filho jogava Fortnite e dizimava os inimigos aos berros. Grande dia. #ingratidão Uma outra visão sobre o mesmo sábado. Pude descansar um pouco mais e acordei revigorada. Servi um café da manhã equilibrado para o meu filho: proteína (salamitos), fruta (groselha), carboidrato para dar energia (waffle) e creme de cacau e avelã, afinal, é importante ter oleaginosas na dieta. Botei uma roupa de ginástica que, além de confortável, é flexível para me acompanhar no dia a dia e ainda valoriza minhas qualidades. Comi mais um pedaço da lasanha que, by the way, estava ótima. Escrevi essa crônica e meu filho ficou jogando Fortnite, interagindo com amigos enquanto treinava sua mira. Grande dia! #gratidão.

Eu amo meu marido, ele é divertido, um ótimo pai, seu sorriso é um charme e ainda por cima cozinha bem. Emoji mãozinhas unidas e sorriso pleno no rosto. Peraí, calma, ele não é um Rodrigo Hilbert, que também é divertido, praticamente amamentou gêmeos, é loiro de olho azul e tem um programa de culinária na GNT. Emoji dentes cerrados, tchau, sorriso pleno. Pronto, #ingratidão. Mas tudo é uma questão de perspectiva. Se eu for comparar meu marido com o marido da vizinha, que anda de chinelo e regata do time do coração, e que tudo o que sabe cozinhar é linguiça, meu marido está com tudo. Nada contra uma linguicinha com limão, mas tudo a favor de ragu de costela com polenta. No fim, me rendo, confesso que meu marido arrasa e termino assim: #gratidão. No final das contas, a felicidade está em enxergar o lado bom. Porque, tanto quanto o lado ruim, sempre há o lado bom. É só uma questão da cor da lente dos nossos óculos. E pelo lado bom da nossa vida, sejamos gratos. Como vocês, que gastaram um tempinho para ler o que escrevi. Para vocês, minha hashtag gratidão.