Os sentimentos na era digital: as hashtags #gratidão e #ingratidão dependem da lente que você usa para ver a vida
Fiz uma torta funcional de figo, ficou incrível. Nem parece que usei farinha de amêndoas, chia, leite de castanha, figos orgânicos, açúcar demerara e finalizei com tâmaras. Aprendi com a Bela Gil. Além de nutritiva e saudável, a torta ficou bem boa. Principalmente se considerarmos que foi a primeira vez que eu fiz. Fotinho linda para o Instagram e a legenda #gratidão. Uma outra visão sobre a mesma torta. Queria comer brigadeiro, mas olhei meu umbigo repousando num travesseiro de gordura e resolvi fazer a tal torta de figo natureba da Bela Gil. Eu estrago até ovo frito, mas com instrução em streaming tinha mais chances de dar certo. Pelo que eu entendi, a torta, além de simples, era rapidinha de fazer. Ela só esqueceu de avisar que, para providenciar os ingredientes, eu tinha que passar no Mundo Verde, na feirinha orgânica da Vila Madalena e no Whole Foods (lá nos Estados Unidos). Mas tudo bem. Segui a receita na base do play e do rewind. Fiz isso tantas vezes que meu celular ficou parecendo um biscoito amanteigado, polvilhado com açúcar demerara. Coloquei a torta para assar e fiquei curvada olhando o forno iluminado. Ansiedade total. Então ela ficou pronta. Não saiu muito bonitinha porque, afinal, foi minha primeira vez, mas o cheiro até que tava gostoso. Provei. Hum… o gosto… de verdade? O gosto tava uma m…. Melhor comer o celular. Sem fotinho no Instagram dessa vez. #ingratidão.
Sábado. Acordei tarde e, sinceramente, podre. O café da manhã do meu filho foi reforçado: salamitos, waffle congelado com Nutella e suco de groselha. Botei a roupa de ginástica, mas acabei no shopping, dando pinta de que tinha corrido 5 km pela manhã. Voltei, bati um resto de lasanha, fiquei olhando fotos dos sábados alheios, enquanto meu filho jogava Fortnite e dizimava os inimigos aos berros. Grande dia. #ingratidão Uma outra visão sobre o mesmo sábado. Pude descansar um pouco mais e acordei revigorada. Servi um café da manhã equilibrado para o meu filho: proteína (salamitos), fruta (groselha), carboidrato para dar energia (waffle) e creme de cacau e avelã, afinal, é importante ter oleaginosas na dieta. Botei uma roupa de ginástica que, além de confortável, é flexível para me acompanhar no dia a dia e ainda valoriza minhas qualidades. Comi mais um pedaço da lasanha que, by the way, estava ótima. Escrevi essa crônica e meu filho ficou jogando Fortnite, interagindo com amigos enquanto treinava sua mira. Grande dia! #gratidão.
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Eu amo meu marido, ele é divertido, um ótimo pai, seu sorriso é um charme e ainda por cima cozinha bem. Emoji mãozinhas unidas e sorriso pleno no rosto. Peraí, calma, ele não é um Rodrigo Hilbert, que também é divertido, praticamente amamentou gêmeos, é loiro de olho azul e tem um programa de culinária na GNT. Emoji dentes cerrados, tchau, sorriso pleno. Pronto, #ingratidão. Mas tudo é uma questão de perspectiva. Se eu for comparar meu marido com o marido da vizinha, que anda de chinelo e regata do time do coração, e que tudo o que sabe cozinhar é linguiça, meu marido está com tudo. Nada contra uma linguicinha com limão, mas tudo a favor de ragu de costela com polenta. No fim, me rendo, confesso que meu marido arrasa e termino assim: #gratidão. No final das contas, a felicidade está em enxergar o lado bom. Porque, tanto quanto o lado ruim, sempre há o lado bom. É só uma questão da cor da lente dos nossos óculos. E pelo lado bom da nossa vida, sejamos gratos. Como vocês, que gastaram um tempinho para ler o que escrevi. Para vocês, minha hashtag gratidão.