Pedra sobre pedra: nem toda lição materna deve ser seguida

Minha irmã nos convidou para ir a uma loja de pedras; meu filho ficou p.***, mas o arrastei, afinal, quem manda aqui sou eu

  • Por Bia Garbato
  • 06/07/2022 09h00
cookie_studio - br.freepik.com Mãe tomando café e falando ao telefone enquanto o bebê come na mesa da cozinha Mãe fala ao telefone e cuida do filho

Muitas vezes me orgulho da mãe que sou. Mando lanches saudáveis na lancheira, levo ao dentista a cada seis meses, acolho, mas não passo a mão na cabeça. Mas em outras vezes… Minha irmã nos convidou para ir a uma loja de pedras incrível que tem na puta que o pariu em São Paulo. Meu filho sempre amou pedras. Sabe o nome de cada uma (crisoprásio?) e ainda tem a habilidade de sentir sua energia só de segurá-las. Só que, naquele dia, ele estava mais a fim de ir à casa da avó. Não era exatamente um desejo puro, pois ela havia prometido levá-lo a uma banca com um generoso vale tranqueira. Mas eu achei que aquela era uma grande oportunidade para o vidente dos seixos praticar seu dom, então o obriguei a ir. Ele aceitou. Para falar a verdade, ele ficou puto (eu sei que estou falando muito palavrão hoje), mas o arrastei, afinal, quem manda aqui sou eu.

Na loja, aconteceu o que se esperava. Ele ficou louco. Parecia que tinha comido uma caixa de Dantop. Foi enchendo uma cestinha de plástico com pedras como se estivesse em um hortifruti. Aquela cesta estava valendo o mesmo que o meu MacBook, já que ele não dispensou as safiras e as esmeraldas. Quando eu vi, disse categórica: “Esquece”. Ele armou uma tromba maior do que a do começo. Largou a cestinha perto das dolamitas e saiu marchando para o segundo andar, onde estavam os objetos feitos com as pedras. Eu já havia separado um pingentinho divino de citrino e granada para mim mesma e seguia obcecada pelos massageadores faciais de quartzo rosa. Com os braços cruzados e a cara amarrada, de repente ele estacionou, fascinado. Havia se deparado com uma extensa coleção de miniperiquitos esculpidos em pedras coloridas e encaixados em pedras brutas. Realmente, tinham sua graça. Ele pegou as esculturinhas e sentiu… Alguma coisa ele deve ter sentido, porque seu rosto se iluminou como se tivesse encontrado ouro.

Pois bem, a partir daí ele dedicou horas em busca do pássaro perfeito. Enquanto eu escolhia um porta-velas sublime de ametista, a criança me aparece com a boquinha tremelicando, prestes a cair num pranto. Ele esticou as mãozinhas e estava lá. Uma pequena ave pétrea espatifada. Tentei acalmá-lo dizendo que, com certeza, todo dia alguém quebrava uma pedra por ali. Eu sei, era uma boa oportunidade para educá-lo. Me imaginei procurando um vendedor naquele supermercado da mineração, mostrando o tal passarinho despedaçado, pedindo desculpas, meu filho pedindo desculpas, a gente indo até o caixa, dizendo que é débito e que não, não precisa de CPF na nota. Enquanto pensava nessa saga, avistei um porta-velas de âmbar. Todo mundo sabe que âmbar não é pedra, mas sim uma resina fóssil. Ou seja, não é todo dia. Foi então que eu cometi o ato falho (de falhar mesmo) e disse baixinho: “Filho, coloca ali no fundinho que ninguém vai ver”. Ele ainda debateu mais maduro do que eu: “Mas mãe…”. No carro, voltamos quietos. Ele envergonhado pelo ato antiético que cometeu, compelido por esta mulher antiética. E eu arrependida por ter dado aquele péssimo exemplo. E por não ter levado aqueles porta-copos de topázio fumê.

*Esse texto não reflete, necessariamente, a opinião da Jovem Pan.