Andrea Bisker mudou seus planos um mês antes do vestibular e se tornou uma empreendedora de sucesso

Decidida a fazer fonoaudiologia desde os 14 anos, ela trocou o sonho de adolescente pela publicidade, apaixonou-se por inovação, abriu e vendeu duas empresas e hoje curte o sucesso da terceira

  • Por Fabi Saad
  • 08/12/2021 10h00
DivulgaçãoAndrea Bisker é fundadora da Spark:off, uma "boutique de tendências e inovação"

Nossa Mulher Positiva da semana é Andrea Bisker, uma empreendedora nata, formada em publicidade, que até um mês antes de prestar o vestibular pensava apenas em fazer carreira como fonoaudióloga. A repentina mudança de ideia impactou sua trajetória e abriu caminho para uma história de inovação, superação e reconhecimento. Andrea vendeu dois negócios próprios, tem uma formação invejável, comanda uma empresa “que está voando” (a Spark:off) e tenta equilibrar como pode a vida pessoal com a profissional, mas tem como maior conquista a admiração dos filhos e dos amigos deles. “Há um mês, uma colega do meu filho de 19 anos mandou uma mensagem de voz para ele dizendo que o sonho dela era me conhecer, nem que fosse só para dar um oi de longe”, conta. “Fiquei tão feliz que nem consigo descrever.”

1. Como começou a sua carreira? Um mês antes de prestar vestibular para fonoaudiologia, profissão que eu tinha escolhido aos 14 anos, minha mãe me disse: “Filha, fono não tem nada a ver com você. Por que você não presta essa tal de ESPM?”. Era 1988. Entrei nas duas e, depois de três meses cursando fono na USP (e sentindo o cheiro de formol dos corpos que tínhamos que analisar), larguei escondida do meu pai a faculdade. Fiquei na ESPM. Quando meu pai descobriu, me obrigou a trabalhar durante o dia e conseguiu um estágio como recepcionista numa pequena agência de publicidade. Da recepção, passei a fazer pesquisas, estagiei em agências e fui parar na Incentive House, uma agência de marketing de incentivos. Aos 23, convenci três profissionais seniors a abrirem uma agência para chamar de nossa e iniciei minha carreira de empreendedora, só no “fazejamento” (zero planejamento).

Depois de seis anos, vendi a agência para as sócias, fui executiva de marketing e comercial durante dez anos em uma empresa francesa de tecnologia para moda e, aos 34 anos, voltei a empreender, quando fui convidada para trazer uma plataforma de tendências inglesa para o Brasil, a WGSN. Para isso, abri minha segunda empresa, a Mindset, uma consultoria em pesquisa. Apaixonei-me por tendências, conteúdo e inovação. Durante 13 anos, consolidei a Mindset e desenvolvi a marca WGSN na América Latina, até vender a empresa para o grupo inglês. A Mindset se tornou a consultoria mundial da WGSN. Em resumo, dos 33 anos de profissão, 14 foram corporativos e 17 empreendendo. Depois de vender duas empresas e após dois anos sabáticos, iniciei meu terceiro empreendimento: a Spark:off, uma agência de tendências e inovação.

2. Como é formatado o modelo de negócios da Spark:off? É uma boutique de tendências e inovação. Trabalhamos como um “hub”, com uma estrutura enxuta, com seis pessoas fixas e uma rede poderosa de especialistas, que se juntam ao nosso ecossistema a partir dos projetos que lideramos. Nosso objetivo é antecipar os drivers de mudança, os comportamentos de consumo emergentes e colaborar com nossos clientes para que eles se mantenham sempre atualizados e consigam identificar oportunidades incipientes. Fazemos isso através dos nossos serviços “trend as service”, no qual montamos radares de tendências dentro das empresas, sessões inspiracionais, palestras, workshops e projetos de pesquisa customizados. E também representamos com exclusividade a Stylus, plataforma inglesa de inteligência de mercado.

3. Qual foi o momento mais difícil da sua carreira? Alguns meses depois de vender a minha empresa para um grupo inglês, eu fui convidada pelo CEO global para assumir uma posição em Nova York. Era meu sonho desde sempre, a grande oportunidade e experiência de morar fora. Pesquisei tudo, já tinha até a escola certa para os meus filhos; meu marido, que estava sabático na época, topou viver a experiência… Cheguei animadíssima na segunda feira e contei para o meu chefe que o chefe dele tinha me ligado no final de semana e feito o convite. Ele “assumiu a negociação” e , depois de meses de conversas difíceis, foi ele quem acabou indo pra Nova York. Eu fui “promovida” para o lugar dele aqui no Brasil. Acho que, depois de muitos anos como empreendedora, havia perdido a malícia do corporativo e não percebi o movimento nos bastidores. Foram meses muito difíceis, de muita frustração, negociando minha saída, porque não tinha mais a motivação para continuar liderando a empresa na América Latina. Acabei me desligando da empresa com um sentimento de derrota. Tive que cumprir um “non-compete” (cláusula que impede alguém de trabalhar na concorrência) rigoroso, que me impediu de exercer o meu conhecimento por dois anos. Demorei um ano para recuperar a autoestima.

4. Como você consegue equilibrar sua vida pessoal x vida corporativa/empreendedora? Não consigo, mas sigo tentando. Incluir na agenda os timings para execução dos “to do’s” (expressão em inglês que significa lista de tarefas), o que me abaixa a ansiedade, pois me permite visualizar a real demanda de tempo para todas as entregas com as quais me comprometo. Encaixo yoga, meditação e corrida, o que me traz mais equilíbrio e conexão comigo mesma. Marco na agenda os compromissos em cores para poder visualizar o quanto estou dedicando para cada “divisão” da minha vida. Investir fortemente nos relacionamentos com as amigas é fundamental para minha sanidade mental. Me cerco de mulheres incríveis, que me abraçam e me orientam – uso e abuso da sororidade!

5. Qual seu maior sonho? Quero poder me dedicar mais a mentorear e colaborar com o empreendedorismo feminino. Já investi em algumas startups e atuei como mentora. Também quero atuar em mais conselhos consultivos. Hoje estou no conselho da 99jobs e do Movimento Aladas. Venho me preparando para isso nos últimos dois anos: cursei o pós-MBA para conselheiras na Saint Paul – A BPW e o conselheiro de inovação na Gonew. E sonho em ter muita saúde e energia para continuar, por muitos anos ainda, inspirando e provocando as pessoas com o meu conteúdo, para que questionem o status quo, revejam suas certezas e consigam vislumbrar e construir o futuro.

6. Qual sua maior conquista? De imediato, responderia que a minha maior conquista profissional foi, depois de 13 anos, ter vendido minha empresa Mindset para uma empresa inglesa – e ela ter se tornado a consultoria mundial do grupo que a adquiriu. Mas, há um mês, quando uma colega do meu filho de 19 anos, o Mau, mandou uma mensagem de voz para ele, dizendo que o sonho dela era me conhecer, nem que fosse só para dar um oi de longe, porque que eu era “muito foda”, sem pensar eu disse para o meu marido e meu outro filho, Leon: “Nossa, eu vivi a vida inteira para chegar neste momento”. Eu fiquei tão feliz que nem consigo descrever aqui. Então, eu acredito que as conquistas mudam a cada etapa das nossas vidas, mas ser reconhecida pelos meus filhos, que hoje têm 17 e 19 anos, como uma pessoa bacana, a quem eles e os amigos admiram profissionalmente… Isso me deu um prazer gigante! Outra conquista gostosa de celebrar é estar hoje com a Spark:off voando, cheia de projetos incríveis e desafiadores, com um time motivado, depois de já ter vendido dois business… É também uma sensação muito gostosa de ter chegado lá. Ainda que “lá” seja um lugar tão particular para cada um, né?

7. Andrea, você teve uma paralisia facial que prejudicou muito a sua profissão. Nos conte um pouco sobre este episódio e como no final se tornou uma história de superação? Em dezembro de 2010, tive paralisia de Bell. É uma doença pouco conhecida, causada pelo vírus da herpes Zoster. Talvez por uma baixa na imunidade, não há uma explicação precisa sobre a causa e os sintomas podem desaparecer em três semanas. No meu caso, fiquei com o lado direito do meu rosto 100% paralisado. Não conseguia fechar o olho nem mexer a boca. Foram cinco meses de fono, fisioterapia três vezes por dia, acupuntura. Só depois de uma cirurgia espiritual, comecei a melhorar. Tenho sequelas (sou mais eu que percebo), mas voltei à vida normal. Me lembro de uma conversa com meu terapeuta, no terceiro mês da paralisia, onde ainda tinha que segurar a boca para falar, e ele me perguntou: “E se você ficar assim o resto da vida?”. Pensei profundamente e respondi: “Não vou morrer, vou dar um jeito e, para começar, terei que repensar minha profissão e passar a atuar nos bastidores em vez de na linha de frente, nas áreas comercial e marketing”. Pronto. Quando eu desenhei o pior cenário (que seria continuar com o rosto paralisado) e entendi que existia novas possibilidades se eu me adaptasse à minha nova condição, eu relaxei.

8. Livro, filme e mulher que admira. Livro: “Essencialismo”. Filme: “Matrix”, mudou minha percepção da realidade. Mulher que admiro: Angela Merkel.

*Esse texto não reflete, necessariamente, a opinião da Jovem Pan.