‘Colocamos ao menos uma mulher por dia no mercado de trabalho’, conta fundadora da startup Se Candidate, Mulher!

Apaixonada pelos estudos e o empreendedorismo, Jhenyffer Coutinho não acreditava que ter o próprio negócio era uma opção, mas hoje impacta 500 mil pessoas por mês com sua empresa

  • Por Fabi Saad
  • 19/01/2022 10h00
Divulgação Mulher na faixa dos 30 anos , de cabelo preto, em frente a uma parede com desenhos e palavras que remetem ao empreendedorismo e à cultura de startups Jhenyffer Coutinho é graduada em administração, tem MBA em gestão empreendedora e especialização em liderança e gestão de pessoas

Nossa Mulher Positiva desta semana é Jhenyffer Coutinho, fundadora e CEO da Se Candidate, Mulher!, uma startup de impacto social que visa à inserção de mulheres no mercado de trabalho. Jhenyffer nos conta como iniciou sua carreira e ensina que a mulher pode ser o que quiser, não importa se a fizeram acreditar no contrário. “Hoje busco impactar a vida das mulheres, encorajando-as para se candidatarem nas vagas de emprego que quiserem. Impactamos 500 mil pessoas por mês, beneficiamos 15 mil mulheres diretamente pelas nossas mentorias e treinamentos. Colocamos, todo dia, pelo menos uma mulher no mercado de trabalho.”

1. Como começou a sua carreira? Difícil falar da minha carreira sem falar do início da minha vida. Sou filha de uma mulher que me teve com 14 anos. Com 18, ela já tinha três filhos, e isso fez com que minha educação fosse um tanto quanto peculiar. Me fez ter grandes características que me trouxeram aonde estou hoje. Ainda que muito jovem, minha mãe sabia muito bem o que ela não queria pra mim: que a história dela se repetisse. Por isso, sempre nos incentivou e cobrou muito para estudarmos. Desde a primeira série, eu tinha meta de tirar 80% nas notas. Se eu tirasse 80% para mais, ela fazia de tudo para realizar o que eu queria. Mas, se eu tirasse 79,9%, não tinha Deus que descesse na Terra e a convencesse a me deixar ir à festa do coleguinha. Um outro fator relevante foi que, desde nova — acho que muito por não poderem cuidar o tempo todo de nós —, meus pais sempre nos colocou para fazer esportes. Aprendi desde muito nova coisas importantes como resiliência, disciplina, dedicação etc. Foi graças a essa educação que por muitas vezes julguei ser dura, que eu consegui passar no vestibular de administração da Universidade Federal de Viçosa. Digo isso porque estudei a vida toda em escola pública, venho de um colégio de periferia do qual tenho muito orgulho e, honestamente, poucos ali acreditavam ingressar num ensino superior. Aquilo não era pra gente! Quando entrei na universidade, sabia que era a oportunidade da minha vida, e lá eu mergulhei de cabeça. Fiz tudo o que eu pude: empresa júnior, atlética, programa de iniciação científica, voluntariado, comissão de formatura etc.

Minha mãe me trouxe ao mundo com seus 14 anos. Ela sempre me falou sobre a importância dos sonhos, do trabalho duro e da ambição, me ensinando, na prática, que quando se tem um sonho você precisa se dedicar, ir à luta e só parar quando tiver realizado. Ela sempre me ensinou que a gente é responsável pela vida que quer ter, mesmo que o cenário seja péssimo (como era o nosso). Essa influência reflete no quanto eu sou persistente com o que acredito. Me formei em administração e sempre fui apaixonada por empreendedorismo, apesar de nunca ter desejado de forma nenhuma empreender (pasmem, isso não era uma opção). Sempre quis ajudar empreendedores, não ser uma.

Apaixonada por gestão, empreendedorismo, pessoas e desenvolvimento humano, sempre busquei me envolver em projetos e organizações que causem impacto e transformam realidades. Felizmente, obtive muitas conquistas por onde passei. Sou graduada em administração, MBA em gestão empreendedora de negócios, especialista em liderança e gestão de pessoas. Tive também a oportunidade de estudar inglês na Pace University, em Nova York. Sou viciada em estudar, é bem possível que eu inicie em breve outro MBA. A educação e o ensino abriram portas que jamais pensei alcançar.

Fiz parte do Sebrae Minas, contribuindo com a gestão das micro e pequenas empresas; da Associação Brasileira de Startups, buscando contribuir com o desenvolvimento de novos negócios com viés inovador; e da TechStars, sendo mentora e assessora de projetos de startups. Em 2019, fui reconhecida como Valuable Young Leader, um grande orgulho, já que o prêmio era sobre os jovens que estavam mudando as organizações no país. Fui morar nos Estados Unidos entre dezembro de 2019 e janeiro de 2021. Foi onde começou o Se Candidata, Mulher!. Hoje, como fundadora e CEO, busco impactar a vida das mulheres, encorajando-as para se candidatarem nas vagas de emprego que quiserem. Impactamos 500 mil pessoas por mês, beneficiamos 15 mil mulheres diretamente pelas nossas mentorias e treinamentos. Colocamos, todo dia, pelo menos uma mulher no mercado de trabalho. No prêmio Startup Awards 2020, fui finalista como heroína do ano e ganhadora na categoria de impacto social. Conquistei a mesma categoria no ano seguinte.

2. Como é formatado o modelo de negócios dá Se Candidate, Mulher!? Somos especializadas em incluir mais mulheres no mercado de trabalho, aumentando a representatividade feminina em seus quadros e, consequentemente, a equidade de gênero dentro das organizações. Capacitamos mulheres para serem aprovadas nas vagas de emprego que elas quiserem. Junto às empresas, promovemos ações de atração, recrutamento e seleção das mesmas. Para as mulheres, temos a SCM Academy, uma plataforma que a prepara para ser aprovada nos processos seletivos. Para as empresas, temos programas específicos para atração e recrutamento de mulheres. No linguajar das startups, para ambos atuamos como Saas (Software as a Service, em tradução livre, software como um serviço; são soluções tecnológicas disponibilizadas na internet como serviço).

3. Qual foi o momento mais difícil da sua carreira? Acho que os mais difíceis começaram a acontecer no ecossistema de inovação. Por ser um ambiente predominante masculino, ter que lidar com machismo, assédio e coisas do gênero não foi uma das tarefas mais fáceis. Mas aprendi muita coisa, principalmente a lidar com as pessoas desse ambiente e transitar bem nele. Aprendi muito sobre comunicação. Um outro momento extremamente difícil para mim foi decidir empreender. Isso nunca foi um plano, nunca foi uma opção. Empreender me remetia a instabilidade financeira, que me remetia a situações que passei na minha vida que eu não queria passar de novo. A SCM criou a Jhenyffer empreendedora e, quando chegou o momento de decidir me dedicar 100% a isso, foi desafiador.

4. Como você consegue equilibrar sua vida pessoal x vida corporativa/empreendedora? Não sei se esse equilíbrio existe. Eu acredito que é uma questão de prioridade e negociação do momento. Nesse momento, por exemplo, a Se Candidate, Mulher! é a minha prioridade, então 70% do meu tempo, da minha energia e da Jhenyffer mesmo são dedicados a ela. Mas isso vai acontecer por um período de tempo específico. Todos os meus amigos e familiares sabem disso, eu expliquei para eles. Não estou romantizando isso, não é fácil, mas a corrida incessante para o equilíbrio é curiosamente exaustiva para nós, mulheres. Temos que estar perfeitas o tempo todo e conseguir conciliar tudo. Estou tentando conviver de maneira minimamente harmoniosa com o desequilíbrio e me cobrar menos.

5. Qual seu maior sonho? Estar viva quando atingirmos equidade de gênero no mercado de trabalho. Estudos mostram que demoram décadas para que isso aconteça. Os mais pessimistas, 100, 200 anos. Eu quero estar viva para ver isso acontecer, é para isso que estou trabalhando duro todos os dias.

6. Qual sua maior conquista? Eu tenho muito orgulho dos resultados que obtive pelos lugares em que eu passei, mas hoje, sem dúvida, ver a SCM acontecer numa velocidade estratosférica, e tudo o que estamos alcançando, já é a minha maior conquista.

7. Livro, filme e mulher que admira. Livro: “Oportunidades Disfarçadas” e “Faça Acontecer”. O último que vi: “Não Sei Como Ela Consegue”. Mulher que admiro: Cristina Junqueira.

*Esse texto não reflete, necessariamente, a opinião da Jovem Pan.

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