Estágio com sócio da Ambev mudou a vida de Luana Tavares e resultou em ONG em prol de mulheres na política

Formada em publicidade, ela trabalha desde os 13 anos, engajou-se socialmente após período na fundação de Carlos Alberto Sicupira e se dedica a promover a inserção de mulheres na gestão pública

  • Por Fabi Saad
  • 12/01/2022 09h00
DivulgaçãoLuana Tavares é fundadora da Concecta, uma ONG que estimula a participação feminina na política

Nossa Mulher Positiva é Luana Tavares. Licenciada em publicidade, com MBA na Fundação Getúlio Vargas – FGVSP) e duas especializações — uma em gestão pública e outra em desenvolvimento de lideranças, na Harvard Kennedy School e Oxford University —, ela se dedica há mais de 15 anos ao setor de impacto social no Brasil. Luana atua em várias organizações sem fins lucrativos com foco no fortalecimento da democracia e modernização do Estado, além de buscar oportunidades para inserção das mulheres na gestão pública. Tudo começou após estágio na BRAVA, fundada pela família do empresário Carlos Alberto Sicupira, sócio da Ambev. “Foi aí que a minha trajetória mudou completamente. Fui aprovada e conheci um outro mundo, de pessoas muito bem sucedidas e que tentavam ajudar o Estado a melhorar sua eficiência”, contou. “Entendi que, como eu, milhares de pessoas no Brasil sofriam com a desigualdade e que esse era um problema muito sistêmico, sem bala de prata para resolver. Descobri o meu propósito de vida e não parei mais de trabalhar pelo Brasil.”

1. Como começou a sua carreira? Após a separação, minha mãe se viu sozinha para criar duas filhas (eu e minha irmã). Aos 13 anos, eu já tive que trabalhar para ajudá-la com nossas despesas. Fiz de tudo. Meu primeiro emprego foi como montadora de sacolas de papelão em uma fábrica na região de Santo Amaro, zona sul de São Paulo. Aprendi desde muito nova que o trabalho e a educação eram as minhas chaves para um futuro melhor. Aos 19 anos, já no terceiro ano da graduação em publicidade e propaganda, um tio que era copeiro da GP Investments me indicou para ser recepcionista de um escritório. Fui selecionada. A recepção onde eu atuava era a do andar onde os sócios Jorge Paulo Lemann, Marcel Telles e Carlos Alberto Sicupira mantinham suas ONGs e seus family offices.

Após alguns meses, fui convidada para participar de um processo de estágio em uma das ONGs, a Fundação BRAVA, que foi fundada pela família Sicupira. Foi aí que a minha trajetória mudou completamente. Fui aprovada e conheci um outro mundo, de pessoas muito bem sucedidas e que tentavam ajudar o Estado a melhorar sua eficiência e garantir políticas mais efetivas para a população. Entendi que, como eu, milhares de pessoas no Brasil sofriam com a desigualdade e que esse era um problema muito sistêmico, sem bala de prata para resolver. Entendi que não era falta apenas de recursos, mas, sim, de gestão, de decisões baseadas em evidências, de valorizar a eficiência e o bom uso do recurso público. Falta de políticos estadistas, virtuosos. De um Estado eficiente e, atualmente, bem menor do que o que temos. Descobri o meu propósito de vida e não parei mais de trabalhar pelo Brasil desde então.

2. Como foi formatado o modelo de negócios da Conecta? A Conecta nasceu de uma forte indignação com a baixa representatividade das mulheres em cargos de liderança nos espaços públicos. Após mais de 15 anos atuando neste ambiente como executiva de organizações sociais, muitas vezes eu notava ser a única mulher em uma mesa com 10, 20, 30 homens. Comecei a me questionar sobre os motivos desta discrepância e, durante o mestrado em Oxford, no ano passado, passei a estudar mais essa questão e as políticas públicas mundiais de estímulo à participação feminina na política.

Como no Brasil, muitos países já implementaram a política de cotas nas candidaturas femininas e, até mesmo, de assentos no Congresso, entre outras ações afirmativas. Alguns avançaram mais, outros menos. O que mostra que há um fator cultural nessa equação. Apesar de serem essenciais, as cotas, sozinhas, não são suficientes para mudar drasticamente este cenário. A forma como as mulheres entram no processo eleitoral faz muita diferença. É preciso desenvolver habilidades em liderança e criar uma forte rede de apoio para aquelas que estão dispostas a participar da democracia de forma competitiva. Então decidi criar uma iniciativa que capacitasse apenas mulheres em liderança e gestão de campanhas políticas, além de conectá-las com o mesmo propósito para que possam se apoiar e chegar com mais competitividade na disputa eleitoral. A Conecta é uma iniciativa sem fins lucrativos, e todo o time de coordenação e mentores são voluntários. Com o sucesso no lançamento, passamos a ser apoiados pelo Grupo Mulheres do Brasil. Em breve, abriremos mais turmas, incluindo mulheres do Brasil todo.

3. Qual foi o momento mais difícil da sua carreira? Em 2017, após quase cinco anos trabalhando com formação de líderes públicos pelo Brasil, a organização que eu liderava (CLP) passou por uma profunda reflexão. Decidimos mudar o modelo de atuação, migrando para um forte papel de advocacy (lobby para mudar uma política pública) e diálogo com o Congresso Nacional. Ao mesmo tempo, o fundador decidiu participar da eleição e saiu da operação totalmente. Com isso, passei a cuidar também de todo relacionamento institucional e fundraising (captação de recursos), além da transição no modelo de negócios para advocacy. Foi um momento bastante difícil e intenso, eu nunca havia pisado em Brasília para defender uma pauta com o Congresso, e lá estava eu, discutindo a reforma da Previdência com dezenas de parlamentares, ministros, dirigentes de entidades nacionais. E, ao mesmo tempo, estruturando a operação e levantando cerca de R$ 12-15 milhões ao ano.

Havia muita incerteza, estávamos testando muita coisa, mas acredito que dois fatores me ajudaram a passar por essa fase delicada: 1) me cerquei de bons mentores e de um time maravilhoso que compreendeu nosso momento, trabalhando incansavelmente para fazer dar certo e; 2) o propósito de ajudar o país era maior do que o frio na barriga de enfrentar tantas mudanças e responsabilidades ainda tão jovem (eu tinha uns 30 anos). No fim, olho para trás com orgulho de ter conseguido empreender neste cenário e gerar resultados concretos. Após três anos de muito diálogo e construção, o Brasil aprovou a maior reforma da Previdência da sua história, contribuindo para o equilíbrio das contas públicas. E o CLP provou o modelo que vigora até hoje na organização.

4. Como você consegue equilibrar sua vida pessoal x vida corporativa/empreendedora? Esse é um grande desafio para quem tem perfil empreendedor e quer deixar grandes legados para a sociedade. Você acaba misturando esses dois lados da balança, dado que trabalhar não está dissociado de viver. Aliás, para mim, é justamente o contrário. O meu trabalho sempre foi fonte de energia, vitalidade e até um certo refúgio da realidade difícil que tive no início da minha vida. Acredito muito naquela frase de Confúcio: “Escolha um trabalho que você ama e você nunca terá que trabalhar um dia sequer na vida”. Mas aprendi a encontrar um equilíbrio saudável e incluir na minha rotina coisas que me geram felicidade, além de produzir: dar muita risada, ler livros e ver séries inspiradoras e estimulantes, me exercitar, dedicar tempo à família e viajar sempre que possível. Valorizo cada vez mais estas atividades, especialmente pensando na saúde mental, que é o grande vilão desta década e todos devem estar atentos a isso.

5. Qual seu maior sonho? É viver em um país em que histórias como a minha não sejam uma exceção. Que todos tenham acesso a serviços públicos de qualidade e a oportunidade de viver com dignidade. Sonho em ver tanto o setor público quanto o privado atuando como indutores dessa grande meta. Atuando com foco na melhoria das condições básicas da população, que foram negligenciadas pelas elites política e econômica do nosso país nos últimos anos e que hoje, após a pandemia, ficaram ainda mais gritantes. Sonho também em ver o papel das mulheres nos espaços de poder valorizado, e que elas sejam parte importante da equação que vai atingir esse objetivo no futuro.

6. Qual sua maior conquista? Hoje me considero uma pessoa muito privilegiada, pois tive a oportunidade de aprender em um ambiente profissional muito estimulante. Valorizo demais o conhecimento e a marca que cada um deixa na humanidade. Acredito que a maior conquista da minha vida seja o conhecimento que eu acumulei por meio da convivência com as pessoas, histórias e culturas incríveis: professores, mentores, políticos, servidores públicos, grandes empresários, acadêmicos premiados, meus colegas de trabalho, minha família, amigos. Todos me ajudaram a construir o maior patrimônio que tenho hoje, que é o meu conhecimento. Valorizo tudo que leio, escuto, vejo, sinto. Busco ter um olhar social e empático no meu dia a dia. Enxergo tudo como parte de um grande sistema de conhecimento e conexões, isso me ajuda a estar aberta e questionar minhas convicções e pressupostos. No final, é aquilo que carregamos até o fim das nossas vidas e nunca será perdido. Além disso, ter feito a tão difícil mobilidade social e sido indutora da mobilidade de pelo menos parte minha família também me enchem de orgulho. Aliás, essa conquista não seria possível sem a primeira.

7. Livro, filme e mulher que admira. Livro: “Estado Empreendedor”, de Mariana Mazzucato. Serie: “The Bold Type/O Poder Feminino”. Mulher: Maria Silvia Bastos, mentora e inspiração. Uma mulher à frente de seu tempo, que abriu espaço para que outras ocupassem as posições mais altas no mundo corporativo.

*Esse texto não reflete, necessariamente, a opinião da Jovem Pan.