‘Mudar o rumo da carreira não significa rasgar o diploma e começar do zero’, afirma Patrícia Antonino

CEO da Connectholics fundou sua empresa após jornada de autoconhecimento, com direito a uma temporada no Vale do Silício para entrar de cabeça no universo das startups

  • Por Fabi Saad
  • 17/11/2021 09h00
Wagner Bahia/DivulgaçãoFormada em arquitetura e urbanismo, Patrícia Antonino fundou a Connectholics, empresa que identifica perfis compatíveis de sócios para uma startup

Nossa Mulher Positiva é Patrícia Antonino, fundadora e CEO da Connectholics. Elas nos conta como mudou o rumo da sua carreira a partir de uma jornada de autoconhecimento e afirma que, antes de se perguntar do que o mundo precisa, é necessário conhecer a sua motivação. “O que o mundo precisa é de pessoas que encontraram essa motivação”, diz. Após perceber um cargo pomposo e um ótimo salário não a satisfaziam mais, Patrícia “rasgou o roteiro”, passou uma temporada no Vale do Silício, nos Estados Unidos, e mergulhou de cabeça no mundo das startups. Voltou de lá impactada pelo poder da diversidade. “Eu tinha virado refém de um modelo de carreira linear que não permite grandes mudanças, apenas evolução no cargo e no salário, na mesma área de atuação. Decidi buscar algo que fizesse sentido, que me fizesse acordar com vontade de mudar o mundo, e o empreendedorismo foi o caminho que escolhi”, conta. “Foquei na máxima ‘eu não sou o meu currículo’ para inspirar outras pessoas. Em outras palavras, utilizando o meu próprio exemplo, eu não preciso passar a vida atuando na arquitetura só porque escolhi essa profissão na graduação.”

1. Como começou a sua carreira? Sou muito participativa e agregadora, sempre gostei de ajudar as pessoas a conhecer e despertar o seu potencial. Aos 8 anos, levava as crianças mais novas do bairro para a minha casa e passava atividades para incentivar a criatividade e a interação (era uma espécie de oficina de artes). Já adolescente, eu ajudava alguns vizinhos com as lições da escola e aproveitava para estimular a participação nas tarefas domésticas, como preparar um lanche, por exemplo. Sempre acreditei que as bases do empreendedorismo são importantes em qualquer fase da vida, e o primeiro curso em que me inscrevi por conta própria foi o Aprender a Empreender, do Sebrae. Era um curso em que recebíamos o material em casa pelos Correios e tínhamos que assistir às aulas na televisão. Sem dúvidas, foi muito útil para a minha formação naquele momento; me ajudou a estruturar o pensamento e definir prioridades.

Minha formação principal é arquitetura e urbanismo. Após 18 anos atuando na área, os últimos 8 no mercado corporativo, que acarretaram em crises de ansiedade e estresse, decidi trilhar um novo caminho. Passei por uma jornada de autoconhecimento e percebi que aquele sentimento de frustração existia porque eu estava me distanciando, cada vez mais, do meu propósito e dos meus valores. Eu tinha virado refém de um modelo de carreira linear que não permite grandes mudanças, apenas evolução no cargo e no salário, na mesma área de atuação. Decidi que deveria “rasgar o roteiro” e buscar algo que fizesse sentido, que me fizesse acordar com vontade de mudar o mundo, e o empreendedorismo foi o caminho que escolhi. Foquei na máxima “eu não sou o meu currículo” para inspirar outras pessoas a conhecer suas reais motivações e aplicar o conhecimento adquirido ao longo da vida, no que realmente faz sentido. Em outras palavras, utilizando o meu próprio exemplo, eu não preciso passar a vida atuando na arquitetura só porque escolhi essa profissão na graduação. Nossas prioridades mudam ao longo da jornada, e está tudo bem se você quiser mudar completamente o percurso. As experiências não se limitam a determinada profissão e mudar o rumo da carreira não significa rasgar o diploma e começar do zero; o nosso repertório deve ser aproveitado sempre, e potencializado com os novos conhecimentos adquiridos. Então, no final de 2019, eu dei início à minha jornada empreendedora entrando de cabeça no universo das startups, que até então era algo muito distante da minha realidade profissional.

No início do ano passado, passei por uma imersão no Vale do Silício e fui impactada pelo poder da diversidade. Descobri que lá a bandeira do arco-íris não significa apenas diversidade de gênero, mas diversidade em todos os contextos: de cultura, de opinião, de idioma, de classe, de origem, de etnia, de religião… Enfim, naquele ambiente diverso, no sentido literal da palavra, as condições para construir soluções inovadoras são potencializadas, justificando o fato da região ter se tornado um grande polo mundial de inovação. Essa experiência me conectou novamente com as minhas raízes, me remetendo à minha tia, que tinha síndrome de Down, e aos seus inúmeros talentos, que eram diferentes dos meus — e o quanto eu sempre a admirei pela pessoa que era. Na casa da minha avó, cada um tinha uma função nas atividades da casa e ninguém ficava de fora. As atividades eram distribuídas de acordo com o talento de cada pessoa e todos tinham que executar a sua tarefa com excelência. Pensando nisso, e conectando com a minha experiência do mercado corporativo, que tem uma cultura de focar sempre nas falhas e nos pontos de melhoria, percebi que fazia todo sentido trazer esse olhar de buscar o melhor das pessoas, focando nas suas reais habilidades e conectando-as com quem as complemente nos seus pontos não tão fortes, construindo times de pessoas motivadas, engajadas e felizes. A partir da minha própria experiência (de novo) com a dificuldade de encontrar sócios nessas condições (que sejam complementares, não apenas nas questões técnicas, mas, principalmente, no perfil psicológico e motivacional), defini que este seria o ponto de partida. Assim nasceu a Connectholics.

2. Como é formatado o modelo de negócios da Connectholics? A Connectholics une talentos na construção de times de alto desempenho, com foco em partnership (sociedades/parcerias profissionais). Com o objetivo de reforçar habilidades, interesses e pontos fortes, buscamos o que cada um tem de melhor e o que pode realizar em conjunto. Queremos combater o desperdício de potencial humano, valorizando as características individuais e identificando as melhores combinações para formar times de sócios. Identificamos que uma das principais causas de morte das empresas está diretamente ligada ao time de sócios e também que este é um dos principais pontos considerados pelos investidores na escolha do seu portfólio. Com base nestes dados, acreditamos que o autoconhecimento e a combinação de perfis é essencial na formação de times de alto desempenho para fundar e operar uma empresa.

Para avaliar o perfil dos usuários e fazer as combinações, utilizamos um teste psicológico, que tem, por objetivo, determinar o perfil da personalidade por meio do perfil motivacional. A ferramenta é validada pelo Conselho Federal de Psicologia, com garantia de precisão e confiabilidade dos resultados. A partir desse mapeamento de perfis, sugerimos as melhores combinações, visando à formação de times de sócios com alto nível de assertividade. Tendo consciência de que a jornada empreendedora é difícil é complexa, estimulamos o apoio mútuo entre os membros da comunidade, de forma com que todos possam se beneficiar e tornar sua jornada mais tranquila. Todos ganham: os empreendedores, as aceleradoras, os investidores, o mercado e a sociedade.

3. Qual foi o momento mais difícil da sua carreira? O mais difícil foi entender que não devia ficar refém de um cargo e bom salário e que mudar algo que não está bom é desafiador, mas extremamente necessário e gratificante. Feito isso, a jornada empreendedora é bem difícil. Mas, com o apoio das pessoas certas, se torna muito mais leve e divertida.

4. Como você consegue equilibrar sua vida pessoal x vida corporativa/empreendedora? Quando eu estava no mercado corporativo, era mais difícil. Agora eu consigo transitar organicamente entre vida pessoal e profissional, a maioria das vezes sem separação, me sentindo muito realizada e plena, embora o trabalho seja extremamente desafiador.

5. Qual seu maior sonho? É a minha “causa justa”, baseada no conceito do Simon Sinek, no livro “O Jogo Infinito”: construir um mundo em que a maioria das pessoas se conecte de forma genuína, tendo a diversidade como principal requisito para o fortalecimento das relações humanas, criando ambientes seguros para potencializar a comunicação, criatividade, aprendizagem e o autoconhecimento. Desejo que o maior número de pessoas se juntem a mim nesta causa.

6. Qual sua maior conquista? Sem dúvidas, o autoconhecimento. A partir dele, eu me tornei uma pessoa mais centrada, mais segura, mais forte e mais potente, podendo inspirar e ajudar outras pessoas.

7. Livro, filme e mulher que admira. Eu passaria um dia inteiro citando livros que me impactaram em várias fases; amo leitura! Vou citar alguns que foram inspiradores nessa fase de transição do corporativo para o empreendedorismo: “Um Novo Mundo: O Despertar de uma Nova Consciência”, de Eckhart Tolle; “A Coragem de Ser Imperfeito”, de Brené Brown; “O Jogo Infinito”, de Simon Sinek; “Dar e Receber”, de Adam Grant; “Hooked”, de Nir Eyal; e “Avalie o Que Importa”, de John Doerr. Filme: “O Estagiário”, com Robert de Niro. Mostra os benefícios reais da diversidade nas empresas. Sou uma admiradora nata das mulheres, e escolher apenas uma é bem difícil. Vou falar da Madam C.J. Walker (Sarah Breedlove). Conheci sua história através da série na Netflix e fiquei extremamente impactada. Fui pesquisar para conhecer um pouco mais sobre a sua trajetória e fiquei ainda mais admirada com a sua coragem e determinação. Sem dúvida, uma excelente inspiração para todos nós!

*Esse texto não reflete, necessariamente, a opinião da Jovem Pan.

*Esse texto não reflete, necessariamente, a opinião da Jovem Pan.