Estímulos fiscais: Por que é permitido nos EUA e temos receio no Brasil?

Senado norte-americano aprovou pacote de estímulos fiscais no valor de US$ 900 bilhões; já no Brasil ainda há muitos ajustes a serem feitos até nos livrarmos do famoso ‘voo de galinha’

  • Por Fernanda Consorte
  • 22/12/2020 16h43
ROBERTO GARDINALLI/FUTURA PRESS/ESTADÃO CONTEÚDOO Congresso norte-americano aprovou o pacote de US$ 900 bilhões em estímulos fiscais

Como os mercados amanheceram hoje? Já venho falando que o otimismo por trás dos bons preços praticados nos últimos 30 dias (tanto em bolsa quanto cambio) tem muito a ver com o cenário internacional. Desde a vitória do Joe Biden somado ao início da vacinação em vários países do mundo, os mercados apostam no cenário mais promissor, sobretudo em 2021 com o final da pandemia. Mas hoje tivemos uma vitória adicional, que foi a aprovação do pacote de estímulos fiscais de US$ 900 bilhões nos EUA pelo Senado norte-americano. Esse pacote autoriza uma nova rodada de auxílio para trabalhadores e empresas enquanto a pandemia da Covid-19 persiste. Vejam a maravilha: os recursos servem para uma nova rodada de pagamentos diretos aos americanos de US$ 600 por adulto e US$ 600 por criança, adiciona US$ 300 aos pagamentos semanais de seguro-desemprego por onze semanas, estende dois outros programas de seguro-desemprego e fornece mais de US$ 300 bilhões em verbas para subsídio à pequenas empresas.

E tem mais: O pacote também destina mais de US$ 50 bilhões para a distribuição de vacinas contra o novo coronavírus, bem como para os esforços de testagem e rastreamento da doença. Lembrando que esse foi um acordo bipartidário entre republicanos e democratas – a Câmara dos Representantes e o Senado votaram pela aprovação do projeto em poucas horas, superando meses de impasse. O Senado votou pela aprovação do projeto por 91 a 7, após o texto ter passado na Câmara dos Representantes com 395 votos favoráveis e 53 contra – uma vitória esmagadora, na minha visão, provando que é possível coordenação entre visões tão diferentes como democratas e republicanos. Agora, o texto segue para sanção do presidente Donald Trump.

Mas porque o mercado aceita tão bem um super pacote de estímulos fiscais nos EUA e não aceita tão bem a possibilidade de expandir o auxílio emergencial no Brasil, ainda mais em um cenário que nenhuma vacina foi aprovada por aqui? Parece contraditório, não? Mas sabem o pior? Eu partilho dessa visão do mercado, explico: A principal diferença está na eficiência dos Estados. Infelizmente, hoje os EUA são muito mais eficientes que o Brasil. A qualidade do gasto norte-americano e a operação do Estado são melhores executados – veja que não estou falando que não há erros ou problemas, só estou falando que hoje, são melhores que o Brasil. No mesmo sentido, a produtividade dos EUA é maior que do Brasil. Os investimentos em relação ao PIB nos EUA são cinco pontos percentuais acima do Brasil, e isso de forma consistente. E daí, meus colegas, não tem jeito, essa organização, melhor eficiência e posicionamento, permite fortes expansões fiscais sem a contrapartida mais temida aqui no Brasil, a inflação.

Nos EUA assim como no Brasil, desde o início da crise foi jogado um caminhão de dinheiro na economia, tanto em termos fiscais como em termos monetários. É assim que se combate crise, não tem muito o que fazer. O problema são as consequências disso, se não bem administradas.  A inflação ao consumidor nos EUA havia fechado 2019 em 2,3%, em linha com a meta de inflação. Após todo o “rebu” de 2020 e expansão fiscal, a inflação em 12 meses até novembro/20 esta em 1,2%, abaixo da meta. Porque houve recessão econômica, crise econômica, e mesmo com a recuperação nos últimos trimestres do ano, não foi suficiente para ter problema inflacionário – o esperado no livro de macroeconomia. E o Brasil? Bom, o IPCA encerrou 2019 em 3,9%, perto da meta, mas a tendência era de baixa e passamos meses felizões com inflação – havíamos conseguido domar esse dragão. Porém veio a crise, junto com expansão fiscal, e quem voltou? A inflação. Hoje, o IPCA-15 de dezembro mostrou alta de 1,1% somente no mês, fechando o ano 4,2%, acima da meta.

Então, o problema não é a expansão fiscal ou o auxílio emergencial. Quem realmente precisa, tem que receber, pagamos impostos para isso. O problema é essa expansão sem contrapartida de investimentos, incentivo a produtividade, é geração de renda que causa desalento no mercado de trabalho, é aquela que o crescimento vem de consumo e traz o famoso voo de galinha, porque entramos na pior combinação: inflação e baixo crescimento. Não é que nos EUA pode e no Brasil não pode, é lá conseguem – e, aqui, ainda temos ajustes a serem feitos. Feliz Natal!