Fernanda Consorte: Desalento impede explosão da taxa de desemprego

Embora o pior tenha ficado para trás, e já vemos uma retomada gradual da atividade econômica com uma vacina que se avizinha, a confiança ainda está em corda bamba

  • Por Fernanda Consorte*
  • 07/08/2020 10h42 - Atualizado em 07/08/2020 11h44
Marcos Santos/USP ImagensA taxa de desemprego está em 13,3% no trimestre encerrado em junho

A taxa desemprego do Brasil, medida pela PNAD Contínua-IBGE, apontou 13,3% no trimestre encerrado em junho. De fato, temos visto uma piora na taxa de desemprego desde a crise do coronavírus bater na porta do Brasil, uma vez que a taxa havia se estabilizado em cerca de 11,5% no último ano.  Qualquer aumento no índice é motivo de pesar, porém saliento que o cenário é muito pior do que um aumento de cerca de 2 pontos percentuais. O que acontece é que o desalento aumentou consideravelmente nos últimos 3 meses, o que impediu consequentemente um aumento drástico no desemprego. Explico: o desalento se dá quando as pessoas, por falta de confiança na situação atual, simplesmente deixam de procurar emprego, mesmo estando desocupadas. No entanto, quando a pessoa não está procurando mais emprego, ela sai do computo da força de trabalho, e portanto, do computo da taxa de desemprego.

Sim, isso ocorre porque a taxa de desemprego é a razão entre população desocupada (pessoas à procura de emprego) sobre a força de trabalho total (que é a soma entre população desocupada e população ocupada). Assim, se declaramos não estarmos à procura de emprego, saímos dessa conta. Entendeu? E, segundo a pesquisa PNAD Continua-IBGE, as pessoas fora da força de trabalho cresceram 20% em junho ante mesmo período do ano anterior, sendo que a média histórica desse crescimento é cerca de 1%a.a.! Talvez por insegurança de contrair o vírus, por necessidade de isolamento social, por fechamento de empresas, por falta de confiança de modo geral, as pessoas desistiram de procurar emprego.

Notem que se “devolvêssemos” esse excedente de pessoas desalentadas para a força de trabalho, de tal forma que as pessoas fora da força de trabalho seguissem crescendo a sua média histórica de 1%a.a., a taxa desemprego estaria em junho em cerca de 23%, ao invés de 13%. Pesado, não?  Embora o pior tenha ficado para trás, e já vemos uma retomada gradual da atividade econômica com uma vacina que se avizinha, a confiança ainda está em corda bamba. Acredito que ainda veremos reflexos negativos por algum tempo em nossa economia, não podemos de forma alguma menosprezar os efeitos dessa crise. Muito cedo para comemorar.

*Fernanda Consorte é economista-chefe do Banco Ourinvest e colunista na Jovem Pan.