Fernanda Consorte: Inflação está longe de ser um problema, mas é um ponto a se pensar

Talvez a alta dos preços não seja tão baixa assim considerando o tamanho da recessão que enfrentaremos

  • Por Fernanda Consorte*
  • 15/07/2020 07h05 - Atualizado em 21/07/2020 18h29
Segundo o IBGE, o IPCA de junho registrou alta de 0,26%, após deflação de 0,38% em maio

A semana passada se encerrou com um IPCA (indicador de inflação) voltando a patamares positivos. Segundo o IBGE, o IPCA de junho registrou alta de 0,26%, após deflação de 0,38% em maio. Nesse mês, o vilão dos preços foi a gasolina, seguido dos de alimentos. Embora estejamos falando de uma “misera” inflação de 2,13% nos últimos 12 meses, é preciso pontuar uma pulguinha na orelha. A atividade econômica despencou – eu mesma acredito que recessão econômica em 2020 será muito mais próxima de -10% do que -5% –, assim como a recuperação em 2021 será frustrante. Porém, nós quarenteners, sabemos que, se houve uma coisa que não paramos de consumir durante esse período de isolamento, foi itens para alimentação – quem tem criança então, sabe que a conta de supermercado mais que dobrou nos últimos meses.  E faz sentido, afinal, alimentos se caracteriza por um item quase que inelástico, além de ajudar no combate a ansiedade. 

Daí o que me gera alguma fonte de indagação – não preocupação – é que talvez a inflação não seja tão baixa assim considerando o tamanho da recessão que enfrentaremos, ou que as forças deflacionarias talvez tenham certa resistência, mesmo porque alimentos pesam 20% do índice total. Fora que outros itens com peso importante também podem desencadear ajustes a despeito da recessão econômica, como produtos farmacêuticos. 

Neste sentido, a pesquisa focus do Banco Central publicada nesta semana mostrou aumento de 0,10 ponto percentual nas expectativas de inflação para o final deste ano (de 1,6% para 1,7%). Entendo que esse montante de inflação seja uma preocupação de países desenvolvidos, e nada mudaria (ainda) a trajetória esperada para a taxa Selic – o mercado prevê mais uma queda na taxa básica de 0,25 ponto percentual na próxima reunião, encerrando 2020 em 2% ao ano. E claro, que também sei que o item serviços, setor mais atingido pela crise atual, faz sua parte em não deixar inflação ser um tema para capas de jornais – esse item segue em deflação. Mas, vocês sabem, gato escaldado tem medo de água fria. 

*Fernanda Consorte é economista-chefe do Banco Ourinvest e colunista na Jovem Pan.