Fernanda Consorte: Primeira semana de agosto será de ‘morde e assopra’ da agenda econômica

Instabilidade dos mercados causa muita volatilidade; diversos fatores – internos e externos – interferem

  • Por Fernanda Consorte*
  • 04/08/2020 12h36
Pixabay

Volatilidade é uma medida estatística que aponta a frequência e a intensidade das oscilações no preço de um ativo, em um período determinado. Essa volatilidade é, em geral, uma resposta de situações conjunturais, que mudam o tempo todo. Por exemplo, esses últimos dias, enquanto o mercado comemora a evolução no desenvolvimento das vacinas, está de olho na piora da pandemia nos EUA, que sugere que a recuperação econômica em curso não será tão fácil assim. Por via das dúvidas, o governo norte-americano decidiu anunciar um pacote – ainda em discussão há mais de uma semana no Congresso –  de estímulos fiscais “trilhardário” para apoiar a economia nesta crise sem data exata para término.  Localmente, temos decisão do Copom. Mesmo que estímulos monetários não faltem na economia brasileira (desde liberação de compulsórios a quedas expressivas na taxa básica de juros), a aposta majoritária do mercado é de uma queda adicional na Taxa Selic, levando-a para 2% a.a.. Confesso que compartilho desta aposta, principalmente considerando o cenário atual de inflação ou “não-inflação”.

Porém, membros do Banco Central têm levantado dúvidas sobre a decisão, quando falam de limite inferior de taxa de juros (mesmo que ninguém saiba qual patamar inferior é esse). No comunicado após última reunião do Copom, o BC afirmou que o Comitê antevia que “um eventual ajuste futuro no atual grau de estímulo monetário será residual”, e também reconheceu que “o espaço remanescente para utilização da política monetária é incerto e deve ser pequeno”.

O que tem pesado é a situação fiscal, que já estava fragilizada e agora caminha para uma situação de quase-morte, após os gastos (necessários) para o combate à pandemia. O fato é que, num cenário de contas fiscais deterioradas, talvez seja necessária mais cautela nos próximos passos da política monetária – reduzir o juro além de limite inferior pode ser contraproducente e a deterioração fiscal levanta dúvidas sobre a sustentabilidade do ambiente de baixas taxas de juros, nas palavras do próprio BC. No frigir dos ovos, ora o mercado se anima e diminui aversão ao risco, ora se mantém em cautela e avesso ao risco. E nesse morde e assopra da agenda econômica sobra muita volatilidade nos mercados emergentes.

*Fernanda Consorte é economista-chefe do Banco Ourinvest e colunista na Jovem Pan.