Queda no IDH mostra que passou da hora de o Brasil priorizar a educação

Média da população brasileira na escola é de somente oito anos, enquanto em países do topo do ranking, como Noruega, Suíça e Austrália, é de mais de 12 anos.

  • Por Fernanda Consorte
  • 15/12/2020 15h59
Marlon Costa/Estadão Conteúdo - 7/10/2020Muitas crianças ficaram fora da escola neste ano e algumas serão desencorajadas a voltar

Nesta segunda-feira, 14, a ONU divulgou o Relatório de Desenvolvimento Humano, do Programa de Desenvolvimento das Nações Unidas (PNUD), relativo a 2019. O Brasil, após anos de crise econômica, mostrou uma leve piora em seu IDH, o índice de desenvolvimento humano, quando comparamos com o resultado do ano anterior. Na verdade, o índice brasileiro mostrou até um leve aumento (de 0,762 para 0,765), mas é um ajuste quase estatístico. E, pior, outros países tiveram evolução ainda melhor, fazendo com que o Brasil caísse cinco posições no ranking de de desenvolvimento humano. A história só desamina porque caímos cinco degraus de uma posição que já era bastante desconfortável. A PNUD avalia 189 países, e o Brasil, que estava em 79º lugar em 2018, agora ocupa a “invejável” 84º colocação. Suriname, Bolívia e Venezuela são exemplos de países vizinhos que estão atrás da gente. 

Por outro lado, vizinhos como Colômbia e Peru estão a nossa frente no ranking. Mesmo a Argentina, com seus problemas econômicos, supera o Brasil. Mas como diz o próprio relatório da ONU, o crescimento fraco é uma manifestação de baixa produtividade. A desigualdade, por sua vez, é uma expressão visível dos modelos existentes de exclusão social e econômica. A vulnerabilidade das famílias é, por sua vez, o resultado da falta de resiliência sistêmica e ambiental. As três vias, interconectadas, são avenidas pelas quais a região pode avançar em direção à sua aspiração de alcançar um desenvolvimento inclusivo e sustentável. E talvez sejam justamente a desigualdade e falta de resiliência sistêmica que fazem nosso país estar em uma posição tão fragilizada. 

Olhando os itens da tabela do relatório da PNUD, sinto-me confortável em dizer que, para o Brasil galgar melhor posições no ranking de IDH, precisamos claramente de um governo mais centrado neste tema. Porém, isso não quer dizer que esteja centrado em medidas assistencialistas com forte expansão fiscal. Em outras palavras, para aumentar IDH, precisamos de muito mais do que distribuir dinheiro quase que indiscriminadamente. Fosse isso, nosso passado recente nos mostraria em posições bem mais animadoras do que a atual. Sim, eu sei que o histórico mostra que o país aumentou seu IDH, mas certamente isso tem mais a ver com o aumento de produtividade do que com a expansão fiscal em governos anteriores (sobre a deste ano, nem conta, porque esse relatório refere-se a 2019). 

O fato é que boa parte da razão para um aumento de IDH é a educação, ponto tão frágil no Brasil. Olhem só, segundo o relatório, a média da população brasileira na escola é de somente oito anos, enquanto nos países que estão no topo do ranking (como Noruega, Suíça, Austrália) é de mais de 12 anos. Lembrando que uma boa parte, mas boa mesmo, dos brasileiros tem uma educação bastante precária – e muitos nem educação têm. Assim, acho que já passou da hora de educação ser a prioridade número 1 do Brasil, ainda mais depois de um ano em que muitas crianças ficaram fora da escola e algumas serão desencorajadas a voltar (acredito que nosso IDH deve piorar em 2020 por conta da crise). O investimento maciço deve se voltar à educação de base, promovendo um mundo mais inclusivo, aumentando a produtividade e diminuindo a vulnerabilidade das famílias. É uma aposta de longo prazo, mas uma aposta vencedora. A opção de apenas entregar dinheiro por meio de auxílios e bolsas de forma indiscriminada gera improdutividade, gera incentivo a não estudar e se aprimorar, gera um país pior. Como sempre falo, medidas assistencialistas são necessárias em doses pontuais, com rigor. Investimento em educação é saída para qualquer crise, é evolução da sociedade. Vamos pensar no longo prazo.

*Esse texto não reflete, necessariamente, a opinião da Jovem Pan.