A invisibilidade e a insignificância da população que mora nas ruas

De que adianta priorizar o ajardinamento do Minhocão, transformando-o em parque florido para cidadãos felizes, se debaixo do mesmo viaduto moram, em situação de rua, mães e seus filhos com fome, com frio e sem perspectiva?

  • Por Helena Degreas
  • 10/08/2021 09h00 - Atualizado em 10/08/2021 14h44
Imagem cedida por Felipe de Lima GonzagaA questão do direito à moradia e da habitação nas metrópoles transcende o dever do poder público

Desci do ônibus num dos pontos da avenida Amaral Gurgel. Quem é da cidade de São Paulo conhece bem o lugar. Sob o viaduto, um misto de pessoas, grafites desbotados, sujeira para todos os lados, carros, ônibus e uma ciclovia. Infelizmente, minha geladeira deu seu último suspiro frio. Outra nova, nem pensar. Lá fui eu comprar a tal da peça indicada pela assistência técnica. Faz tempo que não passo por lá. Se antes a rua era repleta de pessoas em situação de rua, agora vejo centenas de pessoas. Desconfio que passam de mil ao longo de todo o trajeto. Sob o viaduto, habitam famílias inteiras compostas por mães e filhos pequenos vestidos com os uniformes das escolas da prefeitura sob tetos improvisados por lonas. Em seus olhos, vejo ainda o lampejo de quem sabe que vai sair desta situação. Há tristeza, grande. Mas não vejo desalento. Confiam. Entregam a vida à divina providência. A mãe varre o chão como se o piso sob o viaduto – o Minhocão – fosse o quintal de sua casa improvisada. E era. Nele arde a brasa de um fogareiro. “Cozinhando pras crianças”, diz ela. É como se um desastre tivesse se abatido sobre sua família. O pai? desapareceu faz tempo. Ela foi demitida do bar onde trabalhava como cozinheira. Pagar o aluguel? Como? “Vim pra rua: pena as crianças. Tem que ir sem banho mesmo e com a roupa não tão limpa. Aqui não tem tanque nem tanta água. As professoras deixam entrar e eles comem e fazem a lição. Não dá para morar muito longe. Se eu deixar as coisas aqui, quando voltar, já levaram tudo: ou o pessoal da prefeitura ou os nóia. Uma mulher cuida da outra: assim a gente cuida juntas dos filhos de todas”. E acrescenta: “É provisório. Tem que ser”.

Saí de lá e cheguei na rua General Júlio Marcondes Salgado passando por uma aglomeração bem diversificada que aguardava a entrada no restaurante Bom Prato: pessoas pobres, em situação de rua, várias mães e seus filhos, funcionários das lojas próximas. Por R$ 1, é possível comprar uma refeição. Comprei a tal da peça e fui para casa me remoendo. Com 30 milhões de pessoas abaixo da linha de pobreza e 15 milhões de desempregados no país, não consigo compreender como o ministro da Economia, Paulo Guedes, e seu atual chefe – aquele que, entre uma motociata e outra, rodeado de homens e rapazes que também curtem suas motos, preenche seu tempo ocioso como presidente da República no Palácio do Planalto fazendo lives e envergonhando os brasileiros, conseguem colocar a cabeça no travesseiro e dormir sem remorso. Empanturram-se com pratos diversificados preparados por chefs e custeados por nós e pelo suado dinheirinho de quem ainda tem o privilégio de trabalhar, como se esses números todos fossem fictícios, não existissem. Como se nesses números não estivesse o rosto de uma destas mães ou de uma destas crianças. Como se fossem todos invisíveis. É possível que sejam: se não os vejo, não existem. 

As pessoas não vão morar nas ruas porque querem. Elas são despejadas. Pouco importa se os aluguéis passaram por advogados ou se são parte da cidade informal: aquela cujas regulamentações e contratos não passam pelos cartórios e se fiam na força da “palavra” dada”. Não tem como pagar aluguéis e sua própria manutenção. Por mais humilde que seja um lar, todos anseiam, sonham, desejam e querem melhorar suas vidas. O problema? Governos de todas as instâncias não são incapazes de adotar programas e ações eficazes para proporcionar e alavancar estas mudanças provendo infraestrutura social e econômica adequadas. Aparentemente, governos também não têm vontade política para combater a histórica desigualdade em todos os aspectos da vida urbana em que se encontram aqueles que moram nas ruas. O estudo da OXFAM “Democracia Inacabada: Um Retrato das Desigualdades Brasileiras” aponta que a reduzida proporção de extratos inferiores de renda, além de outros grupos minoritários e vulneráveis, entre políticos eleitos às câmaras legislativas e executivos, é um dos maiores entraves na redução da desigualdade brasileira. Se não são representados por ninguém, não existem. É isso.

Grupos universitários, ONGs e alguns parlamentares apresentaram proposta para impedir os despejos e evitar uma crise sem precedentes. Não deu certo. Bolsonaro vetou proposta que proibia despejos até o final de 2021. No mundo fake, fantástico e fantasmagórico que habita a cabeça do mandatário da nação, importante mesmo é o voto impresso, a cloroquina e a disseminação de notícias cuja comprovação é difícil. “Para viver no mundo que se vê é necessário, antes, tornar visível o mundo em que se vive”, afirma o arquiteto e urbanista Felipe de Lima Gonzaga, mestre em projeto, produção e gestão do espaço urbano pela FIAM-FAAM. E no mundo em que vivemos, nas grandes cidades e regiões metropolitanas, o que aparentemente define a forma como classes dirigentes, aqueles que têm o poder de decisão e de grande parte dos grupos sociais em relação à população que está morando nas ruas, é o sentimento de indiferença e, com ela, a invisibilidade dos problemas que os afetam. Embora residam e convivam nos mesmos espaços públicos urbanos, sua existência restringe-se apenas a dimensão física, pois estão inseridos dentro de um mesmo espaço. Existem, mas estão destituídos de seus direitos básicos como cidadãos. 

A forma como realizamos nossas vidas urbanas favorecem o individualismo sobre as ações comunitárias. Palavras como empatia, solidariedade e outras tantas que envolvem um olhar amoroso para com outro ser humano, são corroídas pela ausência de ações públicas sociais que visam a correção de rumos históricos de segregação, prevalecendo políticas que favorecem grupos de maior representatividade. Tal situação reforça a alienação dos indivíduos frente à realidade social e a sua cultura, perdendo-se o sentimento de responsabilidade para com o que está ocorrendo bem diante dos nossos olhos. Graças à insônia que se apoderou de mim desde o início da pandemia, fui buscar alguma distração no Twitter. Para quê? Leio várias postagens do padre Júlio Lancelotti descrevendo a ação truculenta da Polícia Militar que, armada de fuzis, apontava na direção das pessoas, impedindo-as de distribuir pratos de comida durante a noite gelada.

O que aconteceu, governador João Doria, que atitude o senhor pretende tomar frente as imagens do padre? E o senhor, prefeito Ricardo Nunes? Onde está sua atuação como gestor da cidade em que moro? De que adianta priorizar o ajardinamento do Minhocão, transformando-o em parque florido para grupos de cidadãos felizes que têm o privilégio de passar manhãs e tardes agradáveis durante a semana em pleno período de pandemia se, debaixo do mesmo viaduto, moram, em situação de rua, mães e seus filhos com fome, com frio, com sede, sem perspectiva alguma de alcançar uma vida digna? Certamente, a oferta de algumas centenas de abrigos em ONGs não resolve a inserção destes cidadãos no circuito de emprego, de moradias ou econômico. É preciso elaborar um plano que construa uma infraestrutura social de fato com meta clara: reinserção social. Ações predominantemente assistencialistas e fragmentadas em uma dúzia de secretarias não resolverão a catástrofe que é a ausência de um teto digno, de trabalho, de uma cama para dormir ou de um prato de comida quentinho para aquelas crianças.

Lembrei-me de uma palestra realizada Draª Geeta Mehta, professora adjunta do Programa de Desenho Urbano do curso da Graduate School Of Architecture Planning And Preservation, da Columbia University, em Nova York. Com forte preocupação social e larga experiência em coordenação de projetos em comunidades carentes em Gana, Quênia, Índia, Jamaica e São Paulo, mostrou que a questão do direito à moradia e da habitação nas metrópoles transcende o dever do poder público. Não se trata apenas de uma ação política, ela aponta a responsabilidade moral dos dirigentes públicos. Ao assumir a questão da moradia e as necessidades da população carente, gestores públicos adotam princípios de pedagogia urbana, pois seus exemplos estendem-se a toda a população como procedimento ético, diretriz que será assumida por instituições, empresas e grupos sociais para a constituição de uma vida mais equânime nas cidades. É uma atitude educadora que muda a cultura da invisibilidade social.