Por cidades com mais abelhas e menos baratas

Qual o ganho da polinização promovida por insetos que correm risco de extinção? A descarbonização do planeta e, por meio dela, a redução dos impactos causados pelos extremos climáticos

  • Por Helena Degreas
  • 02/08/2022 09h00
Krzysztof Niewolny/Unsplash Abelha sobre uma flor azul, branca e amarela As abelhas têm um papel fundamental na regulação do ecossistema

Enquanto insetos como abelhas, borboletas, formigas e besouros entraram na lista de espécies em risco de extinção, baratas se proliferam felizes pelos esgotos e lixões urbanos. Como isso afeta a vida nas cidades? A lei nº 17.837/2022, de autoria do vereador Aurélio Nomura, que prevê a prioridade de plantio de espécies vegetais que atraem insetos polinizadores na cidade de São Paulo, foi sancionada pelo prefeito Ricardo Nunes em julho de 2022. É uma excelente notícia, pois abelhas, vespas, formigas, borboletas e vários outros insetos são responsáveis pela polinização das plantas ou, ainda, pela transferência de grãos de pólen entre as flores. Este simples ato é responsável pela formação de frutos e sementes, influenciando a reprodução de novas plantas, que refletem na biodiversidade e equilíbrio dos ecossistemas. O que ganhamos? A descarbonização do planeta e, por meio dela, a redução dos impactos causados pelos extremos climáticos. Quem diria?

Segundo o Relatório Temático sobre Polinização, Polinizadores e Produção de Alimentos no Brasil, fruto da parceria entre a Plataforma Brasileira de Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos (BPBES) e a Rede Brasileira de Interações Planta-Polinizador (Rebipp), cerca de 76% das plantas utilizadas para a produção de alimentos é dependente direto do serviço ecossistêmico de polinização realizado por animais invertebrados. Para que a população urbana tenha à mesa acerola, castanha-do-brasil, maçã, maracujá, melancia, melão, tangerina, uvas, morangos e vegetais diversos disponíveis em feiras e quitandas para compra e consumo, espécies de árvores como araçá, aroeira branca, cabeludinha, cambuí, cedro, cereja-do-rio-grande, embaúba branca, guabiroba, guaçatonga, ipê amarelo, ipê branco, paineira e pitangueira, além de vários arbustos e forrações, precisam ser plantados em praças, parques e demais áreas livres passíveis de ajardinamento nas cidades brasileiras. Não se trata apenas do plantio de hortas e jardins nas cidades. Estes insetos prestam um serviço ambiental ou ecossistêmico, pois, ao levarem o pólen de um lado para o outro, permitem a reprodução da vegetação urbana responsável pelo sequestro de CO², um dos gases que provoca o efeito estufa produzido por emissões de motores à combustão, causador do aquecimento do planeta Terra. 

As funções oferecidas naturalmente pelos ecossistemas terrestres sofreram impactos a partir das intervenções humanas, levando ao desenvolvimento de pesquisas que resultam numa melhor compreensão sobre a dinâmica de funcionamento dos ambientes naturais e daqueles já modificados com vistas ao fomento de estratégias de planejamento urbano que adotem critérios de sustentabilidade em suas políticas públicas. Nas minhas aulas, costumo utilizar o exemplo do funcionamento de um relógio analógico: qualquer peça trocada precisa ser substituída por outra igual ou que cumpra a função equivalente. Caso contrário, ele pode atrasar, adiantar ou simplesmente deixar de mostrar as horas. 

Em sua maioria, nossas cidades foram sendo construídas sem o devido cuidado no planejamento dos seus espaços públicos e dos edifícios enquanto conjunto urbano. Não pretendo estender-me sobre o assunto, mas um dos resultados perceptíveis são os dispersos espaços ajardinados, praças, parques e calçadas que, quando existentes, são áreas desprovidas de bons projetos de ajardinamento cuja manutenção não recebe o cuidado devido das prefeituras. Raros que são, os espaços livres provenientes de arranjos do sistema viário como canteiros, taludes, rotatória e áreas de estacionamento rotativo podem hoje servir de reduto, se vegetados com as espécies citadas pela prefeitura e outras tantas nativas, como locais para lazer, recreação de humanos e de uso da fauna silvestre — incluindo aí as abelhas polinizadoras. Se projetados, serão corredores verdes intraurbanos, existentes no meio das cidades em áreas centrais e periféricas, ladeando rios, avenidas, calçadas entre outras formas espaciais. Prestarão, exatamente como as abelhas, serviços ambientais que podem apresentar valor monetário. 

É uma relação de compra e venda. Dentre as modalidades de Pagamento por Serviços Ambientais (PSA) encontram-se o mercado de carbono, o ICMS Ecológico e o REDD+ (financiamento internacional para redução de desmatamentos e investimento em desenvolvimento sustentável), além de projetos que protegem recursos hídricos. O custo da atual degradação ambiental gera a necessidade de criação de serviços de compensação que, sob a ótica econômica, levam à conservação dos recursos naturais, à proteção dos ecossistemas e criam alternativas econômicas à população. É o exemplo do relógio: para podermos viver juntos em ambientes urbanos, incluímos, ao longo da história, tantas “peças inadequadas” aos sistemas naturais que eles simplesmente não conseguem mais se regenerar sozinhos e cumprir as funções que nos mantêm vivos: produzir oxigênio, consumir gás carbônico, gerar chuva e água suficiente para alimentar rios e lençóis freáticos, dispersar sementes e pólen para gerar novas árvores e vegetações… Hoje precisamos entender como e onde erramos aproveitando todo o conhecimento científico existente para refazermos os sistemas antrópicos, aqueles construídos pelos homens, como as cidades, para funcionarem como o relógio analógico que citei. 

No dia 28 de julho de 2022, a Assembleia Geral das Nações Unidas declarou que todas as pessoas no planeta têm direito a um meio ambiente limpo, sustentável e saudável. Insetos polinizadores são parte integrante na manutenção de um planeta sustentável. Nesse sentido, a lei sancionada alinha-se às ações globais de conservação dos ecossistemas urbanos por meio do reconhecimento da importância das abelhas na prestação de serviços ecossistêmicos de regulação como suporte à biodiversidade e à vida por elas gerada. O instrumento legal utilizado reconhece as interconexões entre os sistemas natural e urbano ao apresentar-se como uma ferramenta adequada para o desenvolvimento de políticas que identifiquem a importância, os custos, os benefícios e os impactos ambientais dos serviços ecossistêmicos nas cidades, atendendo às demandas de cidadãos que reconhecem a tripla crise planetária (o distúrbio climático e perda de biodiversidade, a poluição e o desperdício) como o maior desafio de direitos humanos atual.

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*Esse texto não reflete, necessariamente, a opinião da Jovem Pan.