A família Bolsonaro vai para o Patriota

Escolha levou em consideração o desgaste que o grupo do presidente teria se optasse por um partido mais antigo

  • Por José Maria Trindade
  • 25/01/2021 14h43 - Atualizado em 25/01/2021 14h55
Divulgação/PatriotaO presidente Jair Bolsonaro ao lado de Adilson Barroso, presidente do Patriota

A escolha de Jair Bolsonaro pelo Patriota levou em consideração o desgaste que o grupo do presidente encontraria ao se filiar a partidos antigos. Carregar pecados da sigla escolhida seria um erro político. Cinco partidos convidaram o capitão e fizeram esforços para ganhar a filiação. O segredo está no controle da legenda e da chave do cofre. Partidos nascem, crescem, alguns incham e se desidratam, mas continuam por aí no mundo político como zumbis. São os partidos pequenos que recebem filiações de poderosos, mas depois voltam para a realidade. Foi assim com o minúsculo PRN, que tomou ares de grande no governo Collor — e teve como líder o então deputado Renan Calheiros, hoje um dos caciques do MDB. O PRN acabou. No governo Fernando Henrique, o PSDB já era um partido formado e de experientes políticos, mas não ficou livre deste crescimento anabolizado pelo poder. O PT decidiu se proteger desta lógica que artificializa partidos e criou anexos para mandar os oportunistas e aliados de última hora. Os partidos governistas cresceram, mas, no Partido dos Trabalhadores, só os de carteirinha. Como não há festa sem penetras, houve quem furou a segurança e se filiou à legenda de Lula para tirar casquinhas do poder. O exemplo mais recente foi o PSL. Sem deputados, começou com um representante na Câmara e chegou à posição de segundo. Só perde hoje para o PT em número de deputados. Tudo isso em virtude da filiação do presidente Jair Bolsonaro para disputar a eleição de 2018.

A saída do presidente da sigla fez o castelo de areia desmoronar. O presidente do PSL, deputado Luciano Bivar, trava uma queda de braços contra a bancada, que, no episódio da eleição do presidente da Câmara, mostra que os deputados, na maioria, não andam com o mandachuva do partido. A tendência é mesmo de que o PSL passe pelo mesmo processo de desmonte. Pensa que a cúpula do partido se preocupa? Nada! Um partido aqui no Brasil é como ter um cartório, uma lojinha de fácil faturamento. Não é só o bilionário fundo partidário e os fundos eleitorais que somaram R$ 3 bilhões no ano passado, mas a venda do poder de escolha de candidatos nos estados e municípios, além da negociação de apoio. Para o deputado Luciano Bivar, é mais importante ter uma legenda com cinco deputados nas suas mãos do que uma, com 50 representantes na Câmara, fora de seu controle. Este é o debate. O próprio presidente do PSL diz que o partido tem fundos, mas não tem o principal, o poder. Mais do que isso, a cúpula perdeu ou cedeu temporariamente ao presidente e sua família o poder partidário e depois puxou a corda. A disputa é pela chave do cofre.

O presidente Jair Bolsonaro e família já discutiram e avaliaram pelo menos cinco convites para a transferência. A decisão tomada é de que o grupo deve se transferir para o ex-nanico Patriota. Na periferia do bolsonarismo, o partido tem hoje dez deputados. Devido a essa decisão, pode se transformar no maior partido da Câmara, com transferência de bolsonaristas de primeira hora e governistas novos que queiram se reposicionar na política. A janela legal seria aberta com a possibilidade de fusão ou mesmo refundação. Além dos deputados do PSL, migrarão integrantes do MDB, do DEM, do PR e de outras siglas com descontentes.

Com a evidente tendência de adoção do Patriota pelo presidente Bolsonaro, fica clara a desistência de criação do Aliança pelo Brasil. O partido ainda está em formação, mas perde a ênfase. Mesmo nesta legenda, há disputas internas e controle fora da família. Pesou na decisão de ir para o Patriota a avaliação de que, para o processo político, fica difícil explicar a origem da sigla com vícios da velha política. Filiar-se a partidos antigos é carregar pecados e ser acusado de incoerência. As ofertas continuam, mas o caminho mais lógico é a legenda de Adilson Barroso, criada em 2012, para a organização das forças do governo. A eleição e militância de Jair Bolsonaro tem todas as características de uma candidatura independente ou avulsa, o que não é aceito pela legislação brasileira.