Com novo financiamento de políticos, quanto mais deputados eleitos os partidos tiverem, mais eles vão lucrar

Ficou perigoso demais repassar dinheiro para candidatos ou legendas, as regras estão rígidas, o Ministério Público está vigilante e os adversários estão com lupa sobre as contas dos adversários

  • Por José Maria Trindade
  • 11/11/2021 14h04
Fabio Rodrigues Pozzebom/Agência BrasilAs próximas eleições para deputado ocorrem em outubro de 2022

Se uma fábrica lucra com a produção de bolas, toda energia da empresa se direciona a produzir cada vez mais bolas. Esta é uma regra natural de gestão. Com a proibição do financiamento privado de partidos e campanhas, o lucro das siglas está no número de deputados, portanto este é o princípio básico que move a política no momento, eleger mais deputados para lucrar mais na distribuição dos recursos. Cerca de R$ 1 bilhão para o fundo partidário e mais quase R$ 6 bilhões para o fundo eleitoral. Não é pouco dinheiro. São recursos legais, limpinhos e prontos para serem gastos. Mudou tudo na dinheirama que roda nos partidos políticos. A palavra da moda agora nas empresas é compliance. Ficou perigoso demais repassar dinheiro para políticos, candidatos ou partidos. As regras estão rígidas, Ministério Público vigilante e adversários com lupa sobre as contas dos adversários. Financiamento ilegal pode resultar em cassação e cadeia. A prisão aí vale também para os empresários compradores de políticos.

Mas a relação tradicional entre setores de pressão e a política acabou? Não! Mudou. Uma nova modalidade de militância política está em pleno vapor aqui em Brasília. Os setores organizados abriram representações pesadas e agora fazem um trabalho mais técnico. Antes, os grupos econômicos contratavam lobistas, com o nome técnico de gerentes governamentais para fazer a ligação com o poder. As malas de dinheiro  corriam por estes profissionais e chegavam nos partidos. Eram “doações” legais, chamadas de “por dentro” e as ilegais, configuradas como “por fora”.  Era tão corriqueiro que partidos e deputados que não recebiam as “contribuições” se sentiam humilhados. A realidade agora é outra e as mudanças desafiaram partidos. 

Para explicar aqui o porquê de deputados se transformarem em ativos partidários, vamos às regras. A distribuição do fundo partidário se dá de maneira proporcional. A maior parte, 99%, dividida de forma proporcional ao número de deputados e senadores. Somente 1% levando em conta o número de votos recebidos na última eleição. O fundo eleitoral tem critérios diferentes e os bilhões vão para os partidos de forma igual, em 2%. Quem elegeu pelo menos um deputado terá participação em 35%. Os partidos terão 48% do fundo com base nos deputados eleitos no último pleito, sem levar em conta as mudanças partidárias. Ainda tem 15% distribuídos entre as siglas que elegeram senadores na última eleição, valendo os que estiverem na metade do mandato. Percebeu? Os deputados e senadores fizeram as regras e se colocaram como as referências nos valores. Vale a máxima: quem parte e reparte fica com a maior parte.

Então vamos às revelações. As empresas e grupos econômicos não podem se arriscar e não ficam longe do poder. A estratégia agora é criativa. Os eleitores fazem críticas aos deputados, mas estas críticas não chegam aos parlamentares, muito menos as realizações do representante. Para chegar ao eleitor informações dos deputados, o caminho é longo e cobra pedágios. Custa dinheiro e não é barato fazer esta ligação. Pois é, os grupos de pressão estão fazendo esta intermediação. Assumindo a infraestrutura de comunicação. Os representantes montam sistemas de divulgação do político. São encontros, congressos, reuniões e debates onde os convidados são chamados para faturar em exposição e apoio explícito. Tudo sem envolver pagamentos ou financiamentos por parte dos políticos. Este movimento não é só pelo lado empresarial, os sindicatos e associações estão usando o mesmo método. O caminho do poder não muda, a diferença está no pedágio, por onde anda o dinheiro.

*Esse texto não reflete, necessariamente, a opinião da Jovem Pan.

*Esse texto não reflete, necessariamente, a opinião da Jovem Pan.