Governos estão perdidos diante da guerra mundial pelo domínio dos dados na internet

Cria-se um novo setor estratégico: não é mais Correios, Petrobras ou Eletrobras e muito menos telecomunicações, é o de Tecnologia da Informação, que ainda não está nas mãos do estado

  • Por José Maria Trindade
  • 25/02/2021 10h39
PixabayCom o avanço da tecnologia, o algoritmo vai saber muito mais sobre a nossa vida do que imaginamos

Se fosse em outros tempos, teríamos que criar imediatamente uma nova ‘Bras’, a do setor de TI, Tecnologia da Informação. A estatal receberia o nome pomposo de Tecnobras. Teria milhares de funcionários, diretoria e conselho gestor e uma sede pomposa. Abriria uma disputa política, e o Centrão reivindicaria a nomeação de diretores e presidente. Funcionários seriam nomeados e os estados teriam representações desta nova estatal para administrar o setor estratégico. O Congresso aprovaria uma lei com monopólio estatal em gestão, aplicação e criação de produtos na área de tecnologia tendo como base o uso, exploração e distribuição do 5G. Esta é a nova estrela, a chamada joia da coroa. A nova tecnologia não é como sugere o nome, continuidade da internet. Já tivemos 2G, 3G e vivemos o 4G. Dá a impressão de que o 5G seria mais um passo e continuidade, mas não é. Trata-se de um salto muito grande na internet. Sem nenhum dado técnico, apenas por instinto próprio, tenho dito que vivemos hoje algo em torno de 20% do que será a internet no futuro. Sou até econômico ao falar, pois tenho a impressão que o 10G será o domínio total do mundo, nada parecido com o visto até hoje. Salto maior que o da internet discada para a banda larga. 

Fica claro que as guerras tradicionais já estão em desuso. Algumas guerrilhas ainda persistem, mas ocupação territorial é coisa do passado, não funciona. São vários exemplos pelo mundo, mas o caso do Iraque fica muito patente sobre dificuldades práticas para esta estratégia. A disputa atual é por dados. A tecnologia é apenas a via, o caminho por onde trafegam os dados. A inteligência artificial vai dominar a sua vida. Algo assim como obrigar você a praticar exercícios, frequentar regularmente médicos, dormir e ir a determinados lugares. Pode ser que você resista, mas se a empresa que você trabalha exigir, o seu plano de saúde deverá colocar como cláusula contratual determinadas atitudes ou acesso a serviços e a sua aceitação na sociedade depender disso, não há como fugir. Seria mais ou menos assim: você tem o direito de não se enquadrar, mas os setores responderiam. Tudo certo, mas nós é que não te aceitamos. A grande novidade e o mundo novo é a inteligência artificial. O processo roda em segundos, a sua vida inteira com detalhes. Um juízo final a cada passo. A inteligência artificial saberá em segundos sobre as suas notas na pré-escola, a sua frequência em academias, o que postou do Orkut, desativado em 2014, o que está no seu perfil nas atuais mídias sociais e até por onde anda e o que visita todos os dias nos passeios íntimos e “secretos” pela rede de computadores. O algoritmo te julgará para admissão em empregos ou preço para adesão a planos de saúde e pagamento de impostos. Resumindo, o algoritmo saberá de você muito mais do que imagina a sua vã filosofia. 

Aí é que mora a disputa e o motivo das guerras futuras, o domínio. Diante desta nova realidade, os governos estão perdidos. Como sempre, estão bem atrás das empresas privadas. A nova realidade do mercado é que a TI sai do operacional para alavancar negócios e ocupa parte importante das empresas. Siglas como TI, Tecnologia da Informação, PEC, Planejamento Estratégico Corporativo e PETI, Planejamento Estratégico de TI, estão presentes em todas as empresas, de pequenas a grandes. É inevitável, o governo terá que entrar nesta nova realidade e é aí que entra a nova linha. Nada de Correios, Petrobras, Eletrobras e outras ‘bras’, o estratégico agora é o setor de informação. Se houver uma privatização geral e irrestrita, que o governo tenha para consumo próprio a sua rede de computadores, a sua internet privada. Aí é que mora a boa estratégia. Setores do governo sabem disso. Em 1984 foi criado o Batalhão de Guerra Cibernética. Uma visão importante para uma época em que nem se imaginava um mundo como o de hoje, mas para não dizer que não falamos da defesa, o setor está sendo monitorado. Marinha, Aeronáutica e Exército estão passando por reciclagem neste tipo de confronto há muito tempo. Por aqui, o CIGE, Centro de Instrução de Guerra Eletrônica está antenado com a nova realidade. A hora é de construir um novo governo, com prioridades atualizadas. Os Correios acabam de perder o monopólio nas remessas de encomendas e isto não faz nenhuma falta, já vai tarde.