Rodrigo Maia tem dificuldades para encarar o fim do mandato

Atual presidente da Câmara, que deixa o poder nesta segunda, foi abandonado até pelo seu partido, o mesmo DEM que ele se esforçou para criar com a extinção do desgastado PFL

  • Por José Maria Trindade
  • 01/02/2021 13h09
WALLACE MARTINS/FUTURA PRESS/ESTADÃO CONTEÚDORodrigo Maia deixa o comando da Câmara dos Deputados nesta segunda

A síndrome da aversão à maçaneta é verificada com muita frequência aqui no Distrito Federal. Ela acomete geralmente governantes que ficam muito tempo no poder e desenvolvem um comportamento compulsivo como se o cargo fosse continuidade do seu corpo e o orçamento público um anexo do seu planejamento familiar. As narrativas indicam que os ex-poderosos apresentam um quadro de alergia a ter que abrir a sua própria porta. Quando no poder, as excelências têm sempre um assessor ou segurança para abrir a porta do veículo oficial para o embarque e desembarque. Na chegada do gabinete, os prestativos assessores dão dois passos na frente para abrir a porta, e na chegada, a secretária solícita fecha a porta na cara dos que insistem em seguir o poderoso. Fim da gestão, a porta amedronta.

Quando o poder acaba, esta síndrome acomete os mais fracos a ponto de provocar depressão. São tempos de solidão, descritos por alguns como a temida “planície política”. Me relatam alguns que “nasce mato na porta do gabinete, já que ninguém mais procura um ex-poderoso”.  A situação é tão grave que me contou um ex-presidente de poder que num determinado momento, o telefone que era irritantemente procurado, se calou. “Deve estar com defeito”, conjecturou o agora mortal. Além da temida maçaneta, ele teve também que adotar o hábito de atender telefone, uma humilhação completa. Só que o telefone não tocava. Depois de um dia inteiro no silêncio, ele concluiu que o aparelho estava mesmo com problema, talvez um chip desconectado. Teve a ideia então de fazer o teste. Pegou o telefone fixo e ligou para o seu celular: “Foi a maior decepção do mundo. O telefone tocou. O aparelho não estava com defeito e aí concluí que eu é quem estava descartado. Doeu muito”.

Neste momento, quem vive esta fase terrível é o presidente da Câmara, deputado Rodrigo Maia. Já na fase pré-esvaziamento, surtou. Teve que ser contido em pelo menos três vezes. Ele prometia despachar requerimentos e decisões que prejudicassem o governo para atingir o presidente Jair Bolsonaro. O sentimento de rejeição entre colegas tinha o presidente como desculpa. Entre os despachos, o deputado Rodrigo Maia tentou assinar todos os pedidos de abertura de impeachment. Negar uns, arquivar por inépcia outros e aceitar alguns. Foram protocolados 64 requerimentos de impedimento. É argumento para todos os gostos e origens diversas. A bomba relógio cairia no colo do próximo presidente da Câmara e a avaliação no plenário seria inevitável. Até aliados se arrepiaram com a confusão e conseguiram evitar a despedida de Rodrigo Maia de maneira ainda mais danosa. Ex-aliados e antigos adversários  se despedem da era Maia com alívio. “Tchau querido”, esta é a saudação irônica mais usada entre parlamentares na Câmara. Maia foi abandonado até pelo seu partido, o mesmo DEM que se esforçou para criar com a extinção do desgastado PFL.