Por que o cachorro Orelha nos une?

Dessensibilização, sociopatia e a violência que se aprende

  • Por Larissa Fonseca
  • 03/02/2026 08h15
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Divulgação/Polícia Civil de Santa Catarina Cão Orelha O cão Orelha pertencia à comunidade de moradores de Praia Brava, em Florianópolis, em Santa Catarina. Ele tinha cerca de 10 anos e morreu em 5 de janeiro após sofrer agressões na cabeça por um grupo de adolescentes

A comoção em torno do caso do cachorro Orelha não é exagero coletivo nem indignação vazia. Ela revela algo mais profundo sobre como reagimos à violência e sobre quais limites ainda nos causam incômodo moral.

Em poucos dias, pessoas que discordam de quase tudo sentiram a mesma coisa. Tristeza, revolta, necessidade de resposta. Isso acontece porque existe um gatilho psicológico muito específico quando a violência atinge alguém absolutamente vulnerável. Animais e crianças ocupam esse lugar simbólico. Eles não se defendem, não negociam, não entendem o que está acontecendo. Quando sofrem, algo essencial se rompe na percepção social.

Há também identificação. Em uma sociedade em que animais são membros da família, muita gente não vê um cachorro desconhecido, mas pai e mãe de pet. A violência deixa de ser distante e invade o campo emocional mais íntimo.

Mas existe um ponto que quase sempre fica fora da conversa. A violência contra vulneráveis raramente é um evento isolado. Ela costuma ser o começo de um processo. Ferir quem não reage funciona como um treino emocional. Um treino perigoso.

Na psicologia, sabemos que a empatia não desaparece de uma vez. Ela é desligada aos poucos. O primeiro contato com o sofrimento do outro gera desconforto. A repetição, sem contenção ou consequência, torna esse desconforto tolerável. Depois, normal. Até que o sofrimento deixa de incomodar e passa a ser um hábito aprendido.

É aqui que entra um conceito importante, muitas vezes confundido. Psicopatia e sociopatia não se diferenciam por quem é pior, mas por como esse funcionamento se organiza. Ambos estão dentro do transtorno de personalidade antissocial, mas seguem caminhos distintos. O psicopata apresenta traços mais estruturais e precoces. Desde cedo há frieza emocional, ausência consistente de empatia e culpa. Ele entende racionalmente o que o outro sente, mas não sente junto. Por isso, costuma ser mais calculista e planejado. O dano ao outro não gera conflito interno.

O sociopata, por outro lado, é construído pela história. Geralmente há violência, negligência, rupturas afetivas e ausência de limites. Ele até pode sentir empatia em alguns contextos, mas aprende a desligá-la como forma de adaptação. É mais impulsivo, mais instável e com comportamentos desorganizados. O remorso pode aparecer, mas não é suficiente para interromper o ciclo.

De forma simples.

O psicopata não sente e aprende a imitar emoções.

O sociopata aprendeu a não sentir.

Isso importa porque os responsáveis por esse caso são adolescentes. Isso não reduz a gravidade do que aconteceu. Aumenta a responsabilidade dos adultos, das instituições e dos ambientes que estão formando essas crianças. Ninguém se torna cruel do nada. A crueldade pode ser aprendida, reforçada ou tolerada.

Nem todo comportamento cruel indica psicopatia ou sociopatia. Esses diagnósticos exigem padrão persistente e impacto ao longo do tempo. Mas toda crueldade contra vulneráveis precisa ser lida como sinal de alerta.

Uma sociedade saudável não é a que reage com ódio, mas a que ainda sente incômodo diante da dor do outro. Quando esse incômodo desaparece, a violência deixa de ser exceção. Passa a ser linguagem. E quando isso acontece, não é só um cachorro que está em risco. É a própria capacidade de convivência humana.

*Esse texto não reflete, necessariamente, a opinião da Jovem Pan.

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