Brasil precisa mesmo de um Ministério do Turismo?

Até a pequena Finlândia, interessante apenas para quem se diverte em um frio de 20 graus negativos, recebe mais visitantes do que o Brasil

  • Por Leandro Narloch
  • 08/12/2020 16h59 - Atualizado em 09/12/2020 17h15
Antonio Lacerda/Efe - 12/04/2020Rio de Janeiro é cohecido por suas belezas naturais, mas violência afasta turistas estrangeiros

O leitor há de concordar que o Cazaquistão não figura entre os países mais bonitos ou interessantes do mundo. Até tinha um mar digno de visita, o Aral, mas ele secou depois de projetos desastrados de irrigação da União Soviética. Podemos dizer o mesmo sobre a Moldávia, cuja arquitetura de amianto não é exatamente uma grande proeza humana. Ou da Finlândia, um país agradável apenas para os que sentem prazer no frio de 20 graus negativos. Mas o Cazaquistão recebe 8,8 milhões de turistas por ano, 33% a mais que o Brasil. A Finlândia, 6,8 milhões, 200 mil turistas a mais que a “minha terra com palmeiras onde canta o sabiá”. A Moldávia recebe menos visitantes estrangeiros – 3 milhões por ano – mas repare que o país é menor que o Piauí e certamente está na lista dos lugares mais feios e sem-graça que existem. 

Se o turismo estrangeiro no Brasil fosse uma empresa, sua receita, de pouco menos de US$ 6 bilhões, não ficaria entre as das 500 maiores companhias dos Estados Unidos. Nem entre as dez maiores do Brasil. Diante desse fiasco, alguém poderia aparecer com a ideia: “Vamos criar um Ministério do Turismo!”. Bem, ele já existe desde 2003 e não está dando resultado. Visitantes estrangeiros querem segurança, uma coisa que não cabe a Marcelo Álvaro Antônio, que foi demitido nesta quarta-feira, 9, ou ao próximo ministro do Turismo. Os gringos não vão se aventurar em Copacabana ao ver arrastões pela televisão. Também querem voos baratos – mas aí bastam negociações para aumentar a malha área para o Brasil. 

Até 2019, o Brasil limitava o interesse dos turistas estrangeiros exigindo visto dos países mais ricos do mundo, como os Estados Unidos e o Japão. É difícil imaginar uma medida mais eficiente para impedir o crescimento do turismo em um país. Era até irônico a mesma instituição que atrapalhava o turismo ter um ministério para incentivá-lo. Seria tão contraditório quanto um governador realizar um show em lugar fechado para 5 mil pessoas e ao mesmo tempo fazer campanha pelo isolamentoA decisão de Bolsonaro, de derrubar a exigência de visto para EUA, Canadá, Austrália e Japão, foi mais importante que 17 anos de ministério do Turismo. Seus resultados não apareceram da noite para o dia, mas o caminho é o correto: dada a distância do Brasil dos grandes polos de turistas, é preciso facilitar e baratear a viagem para cá.

Mas e promoção do Brasil no exterior? Ela pode muito bem ser feita por associações de hotéis e companhias de viagem. Na verdade, elas já tomam essa atitude. E isso também cabe à Embratur – que, aliás, motiva outra pergunta: por que precisamos de um Ministério do Turismo se já existe a Embratur? Talvez porque a função real desse ministério não é atrair turistas. Fora das câmeras, sua função é outra: organizar festas no interior para dar palco a deputados federais e políticos em geral. Se é a eles que o ministério serve, então seria melhor que mudasse logo de nome: “Ministério das Festas no Interior”. Ou “Ministério do Palanque para Políticos”.