Cinema indiano se inspira em Hollywood e consegue ter produções honestas

Há pelo menos duas décadas, só a indústria de Bollywood, localizada na cidade indiana de Bombaim, despeja no mercado anualmente uma média de 360 filmes

  • Por Marcos Petrucelli
  • 10/10/2020 10h00
Reprodução/Instagram/@janhvikapoorJanhvi Kapoor é a protagonista de "A Tenente de Cargil", produção indiana original Netflix

Ainda que no Brasil haja um número de salas de cinema bem abaixo da média quando comparado ao Estados Unidos, Canadá ou mesmo o México, o público brasileiro pode se sentir bastante satisfeito quando o assunto é diversidade cinematográfica. Não me refiro aos temas ou qualquer coisa relacionada à etnia, mas sim quanto à variedade do ponto de vista do país de origem. Em São Paulo, por exemplo, existem mais salas dedicadas ao que se convencionou chamar de filmes de arte do que aquelas que encontramos em Nova York. É verdade que nem todas as obras podem ser consideradas “filmes de arte”, mas esse é outro assunto. O fato é que, graças a essas salas, temos a chance de um mergulho profundo na cinematografia dos mais diferentes países. Além da mera curiosidade, há um público específico com interesse diletante por filmes que apresentam culturas e comportamentos tão díspares da nossa sociedade. 

Infelizmente, por conta da pandemia do Covid-19, a maior parte das salas de cinema no Brasil permanecem fechadas. Como pontuei em artigo anterior neste espaço, a sala de cinema que conhecíamos foi momentaneamente trocada pela sala das nossas casas. E a grande tela branca foi substituída pela tela fina de um aparelho de televisão. Para alguns, o prazer pode ser diferente – e até inigualável -, mas pelo menos a diversidade está garantida por conta dos extensos catálogos disponibilizados pelos serviços de streaming. Dessa forma, temos a oportunidade de conhecer obras de países como Irã, Coreia do Sul, Rússia, Equador, Moldávia, Cabo Verde e Índia, entre tantos outros.

Aliás, vamos falar da Índia e Bollywood. Caso você ainda não saiba, Bollywood surgiu da combinação das palavras Bombaim e Hollywood. A expressão, mais comumente creditada ao cineasta Amit Khanna e à jornalista Bevinda Collaco, ganhou fama internacional no início dos anos de 1980, quando a Índia oficialmente ultrapassou os Estados Unidos no número de produções anuais, tornando-se uma indústria de enorme relevância cultural e comercial. Para se ter uma ideia, em 2017, a Índia produziu cerca de 2 mil longas-metragens. Há pelo menos duas décadas, apenas a indústria de Bollywood (portanto em Bombaim) despeja no mercado anualmente uma média de 360 filmes. E o público indiano simplesmente adora seus filmes. A cada ano, as bilheterias registram cerca de 3,6 bilhões de ingressos vendidos – isso é 1 bilhão de ingressos a mais do que a fatia dos filmes produzidos em Hollywood, que são igualmente adorados pelos indianos. Não é por acaso, portanto, a alcunha de Bollywood. Para o cinema indiano, Hollywood é inspiração e escola, tanto do ponto de vista estético quanto mercadológico. Ou seja, o interesse é produzir um cinema comercial. 

A propósito, dias atrás assisti a um filme chamado “A Tenente de Cargil”, produção original da Netflix realizada em Bollywood. Baseado em fatos, o filme narra a história inspiradora da jovem Gunjan Saxena, interpretada pela atriz Janhvi Kapoor. Desde criança apaixonada por aviação, Gunjan, em 1999, tornara-se a primeira mulher a conquistar o posto de tenente e a pilotar um helicóptero durante um intenso conflito entre a Índia e o Paquistão, episódio que ficou conhecido como a Guerra de Cargil. Não foi nada tranquilo para ela. Sendo a Índia um país de castas, patriarcal e absolutamente machista, Gunjan Saxena teve de ultrapassar vários obstáculos, enfrentar preconceitos, além de anular práticas culturais milenares. Trata-se, portanto, de um misto de filme de guerra histórico e drama pessoal, com todos os elementos da jornada do herói.

“A Tenente de Cargil” é uma obra bollywoodiana, aquela indústria que bebeu e continua bebendo na fonte de inspiração hollywoodiana. E justamente por conta disso, encontramos na obra, em boa medida, elementos de ação, aventura, suspense e comicidade. Mas o filme é, antes de qualquer coisa, indiano. E em qualquer produção da Índia que se preze, jamais devem faltar o melodrama, a música e a dança. Muita dança. Seja nos clássicos como “Flores de Papel” / Kaagaz Ke Phool (1959) e “Madhumati” (1958), ou em produções contemporâneas como “Lagaan”, “A Sala de Música” e “3 Idiotas”, sempre haverá ao menos uma sequência musical, cantoria e dança. Em todos os filmes aqui citados, a coisa acontece de forma muito orgânica, e em “A Tenente de Cargil” não é diferente. Há inserida na história uma sequência de casamento, cuja cerimônia de comemoração presume-se uma festa e esta, consequentemente, exige o momento da dança.

Trata-se de uma linha narrativa e uma construção estética infalíveis e que garantem sucesso. Pelo menos para o cinema indiano, claro. As sequências musicais nas produções de Bollywood são uma clara inspiração dos musicais da era de ouro de Hollywood, vez ou outra ainda revisitadas em produções modernas como “La La Land”, de Damien Chazelle, mas que ainda funcionam e têm seu apelo. E dado o sucesso de Bollywood, é fácil afirmar que mesmo exagerando nos clichês e apresentando uma cafonice involuntária, o cinema indiano consegue ser honesto, bem realizado e puro entretenimento.