Revolucionário como obra que o inspira, ‘Mank’ leva adiante teoria de que Orson Welles foi um farsante

Filme da Netflix traz um recorte da vida de Herman J. Mankiewicz, jornalista, autor e roteirista que, para alguns, foi a verdadeira mente por trás do clássico ‘Cidadão Kane’

  • Por Marcos Petrucelli
  • 11/12/2020 08h00
Divulgação/NetflixGary Oldman interpreta o jornalista, autor e roteirista Herman J. Mankiewicz em 'Mank'

Algumas coisas importantes devem ser esclarecidas sobre “Mank”, produção da Netflix assinada pelo diretor David Fincher que vem repercutindo bastante nas redes sociais – sem qualquer trocadilho, uma vez que o cineasta dirigiu “A Rede Social”, sobre a criação do Facebook. Apesar de algumas sinopses fazerem essa afirmação, o filme não é sobre os bastidores de “Cidadão Kane”; é apenas um recorte da vida de Herman J. Mankiewicz (por isso Mank), jornalista, autor e roteirista que se notabilizou por ter escrito o roteiro do clássico que marcou a estreia de Orson Welles nas telas dos cinemas. Outro importante alerta a ser feito é o de que não se trata de um filme fácil para quem não conhece o mínimo dos bastidores dos anos dourados de Hollywood (1930 e início dos 1940), seus personagens ícones, que vão de astros e estrelas até os poderosos executivos dos estúdios, além da enorme influência que todos esses atores da já poderosa indústria cinematográfica exercia sobre a política americana e o respeitável público.

Tendo essas premissas destacadas, é igualmente valioso ter em mente que, desde o lançamento de “Cidadão Kane”, a transformação dessa obra em um clássico seguiu paralelamente a uma série de questionamentos sobre a verdadeira autoria do roteiro. Aqui mesmo neste espaço escrevi um artigo sobre a crítica de cinema Pauline Kael, lembrando que ela chegou a chamar Orson Welles de farsante e que ele teria se apossado da autoria. Kael, para deixar Orson ainda mais irritado, sustentava que na verdade a grande mente por trás da obra era unicamente Mankiewicz. Evidente que essa teoria foi logo contrariada. Peter Bogdanovich, prestigiado diretor em Hollywood, escreveu um artigo intitulado “The Kane Mutiny” no qual defendia o amigo Welles com veemência. 

Seja como for, o que se sabe de fato – e isso não está em “Mank” – é que “Cidadão Kane” está próximo de completar 80 anos de seu lançamento. A première, com todo o esplendor apropriado e a expectativa criada em torno de seu diretor, Orson Welles, se deu em Nova York, no dia 1º de maio de 1941. Welles era um jovem estreante cineasta de apenas 26 anos de idade, mas que anos antes, em 1938, havia conquistado fama no rádio ao realizar uma transmissão de “A Guerra dos Mundos”, obra clássica da ficção escrita por H.G. Wells. A apresentação, dramaticamente perturbadora, levou os Estados Unidos ao pânico. Os ouvintes realmente acreditaram se tratar de uma invasão alienígena em solo americano. O imediato sucesso chamou a atenção de Hollywood, especialmente dos executivos do estúdio RKO, que trataram de contratar Orson Welles e garantir ao rapaz plena liberdade de criação em seus projetos para o cinema. E o primeiro de todos foi justamente “Cidadão Kane”, que de imediato não foi lá tão bem recebido. Ao contrário, revelou-se um fracasso. Era uma obra diferente de quase tudo até então e absolutamente estranha aos olhos do público.

Somente com o passar dos anos o filme foi sendo estudado, e seu brilhantismo, desvendado. “Mank”, portanto, aproveita-se do status de obra-prima que “Cidadão Kane” carrega: um filme inovador do ponto de vista narrativo, com suas elipses e flashbacks; e igualmente revolucionário na estética, aperfeiçoando conceitos de profundidade de campo, o claro e escuro, aplicação do som e sobreposição de imagens, entre tantas outras inovações. O diretor David Fincher utiliza em “Mank” todas as mesmas técnicas disponíveis, mas seu objetivo principal era recriar episódios do processo de escrita do roteiro de “Cidadão Kane” e a relação um tanto conflituosa entre Mankiewicz e Welles. E o caminho escolhido por ele foi justamente a tese de Pauline Kael. Como observamos no filme, Orson Welles é meramente um coadjuvante. Mankiewicz é quem realmente pensa, elabora e escreve as situações e diálogos que entrariam para a antologia do cinema. 

Vale repetir: esse foi o caminho escolhido por David Fincher, a versão de uma história que ele preferiu trilhar – e na verdade partindo de uma ideia concebida pelo pai de David, o jornalista e também roteirista Jack Fincher, já falecido. Além de um primor em termos de realização técnica, “Mank” ainda joga luz em outros pontos de interrogação na gênese de “Cidadão Kane”, como o antagonismo que se estabeleceu entre Mankiewicz e William Randolph Hearst (o magnata das comunicações que inspirou o personagem Charles Foster Kane). É sabido, por exemplo, que Hearst fez de tudo para impedir que “Kane” chegasse aos cinemas. David Fincher é meticuloso ao recriar todo o glamour daquela Hollywood, ao mesmo tempo povoada por milionários que transitavam nos grandes estúdios e uma horda de miseráveis à procura de um emprego dentro dos muros dos mesmos estúdios. Mankiewicz, de família judia e rica, era um idealista que flertava com o comunismo e sentia necessidade de ajudar os mais necessitados. Era, por isso, motivo de chacota por parte dos colegas judeus – a maior parte deles em posições de prestígio dentro dos estúdios. Mas Mankiewicz também era um beberrão que passava boa parte do tempo embriagado e gastava sua fortuna em apostas. Chegou a apostar que os democratas venceriam a eleição para governador da Califórnia. Os republicanos venceram, e Mankiewicz perdeu muito dinheiro.

“Mank” pode ter emulado o estilo narrativo e estético de “Cidadão Kane”, mas vai muito além dessa obra indiscutivelmente perfeita e ainda assim carregada de segredos sobre sua concepção. Mankiewicz era um homem de certa forma misterioso e que, justamente sabendo disso, criou o maior de todos os mistérios no roteiro de “Kane” com uma única palavra: Rosebud. Uma metáfora para a perda da inocência e da juventude, mas que ao final de “Cidadão Kane” descobrimos que é apenas o trenó do jovem Charles Foster Kane. Faço essa revelação porque o filme já tem 80 anos. Mas em “Mank”, que acaba de ser lançado, há uma ótima piada sobre isso. Manterei segredo. Meu conselho: não perca!