Será mesmo que o Brasil produziu poucos filmes neste cenário de pandemia?

Muitos afirmam que há festivais de cinema de mais para filmes de menos, mas produções deste ano mostram que não é bem assim

  • Por Marcos Petrucelli
  • 27/11/2020 10h00
Agência Brasília/ArquivoFestival de Brasília deste ano ocorre entre os dias 15 e 20 de dezembro e será transmitido pelo Canal Brasil

Até bem pouco tempo, dados divulgados pelo Fórum dos Festivais dava conta de que no Brasil havia mais de 400 festivais de cinema por ano. Ou seja, mais de um festival por dia. Isso num país em que existem pouco mais de 3 mil salas de cinema – a metade do México, por exemplo. Ou então, para que tenhamos uma correlação mais apropriada, são festivais de mais para filmes de menos, como muitos afirmam. Nos dois últimos anos, seja por causa do aparente desinteresse do governo pela cultura ou os escandalosos problemas enfrentados pela Agência Nacional de Cinema (Ancine), os números apresentados não são lá tão confiáveis. Mesmo assim, estima-se que em 2019 tenham sido produzidos/finalizados mais de 300 filmes (entre longas de ficção e documentário, além dos curtas-metragens); destes, chegaram aos cinemas aproximadamente 160 produções. Em termos absolutos, não parece tão pouco.

É bem verdade que esses números, ao menos do ponto de vista estatístico, podem não significar absolutamente mais nada após o advento do coronavírus. Em termos de salas de cinema, neste ano de 2020, praticamente o mundo todo se viu obrigado a baixar as portas dos complexos de exibição. A maior parte dos filmes teve sua estreia adiada ou cancelada, e muitos deles foram lançados diretamente pelos serviços de streaming ou TV paga. Quanto aos festivais de cinema, em tese responsáveis por ditar as tendências de gênero e estilo de produções premiadas que chegarão aos cinemas, muitos igualmente foram cancelados ou tiveram de se reinventar. Dessa forma, com a popularidade das famosas lives, importantes festivais de cinema pelo mundo ganharam edições online. Inclusive no Brasil.

É óbvio que em 2020, diante dessa catastrófica crise pandêmica, sobreviveram bem poucos. Entre os festivais mais importantes na agenda nacional, alguns mantiveram a edição no calendário, ainda que com atraso, porém com menos investimentos. Assim ocorreu com o Festival de Gramado (entre 18 e 26 de setembro) e o Cine-PE, que teve início no último dia 23 de novembro e encerra nesta sexta, 27. Logo mais, entre 15 e 20 de dezembro, teremos o Festival de Brasília. Todos eles, por conta da tradição, mostram seu esforço pela continuidade; e do ponto de vista estratégico, de reinvenção, tratam de produzir uma edição totalmente realizada via plataformas digitais.

Nesse aspecto, nada mais justo parabenizar cada um dos festivais brasileiros. Mas voltemos a um ponto destacado no início desse artigo: será mesmo que o Brasil produziu poucos filmes neste cenário de pandemia? Levanto essa questão porque os números são bastante contraditórios. Segundo divulgado pelo Festival de Gramado, a edição 2020 teve 667 produções inscritas, entre longas e curtas; de acordo com a assessoria de imprensa do Cine-PE, foram 941 filmes inscritos para a seleção – um crescimento de 5,37% em relação ao ano anterior; e, conforme o boletim do Festival de Brasília, na edição deste ano 698 filmes foram analisados pela comissão de seleção.

Antes que alguém caia na armadilha: não se deve, evidentemente, somar os filmes inscritos em cada um desses festivais, uma vez que muitas produções tentam disputar vários festivais ao mesmo tempo. Seja como for, são números impressionantes. Levando-se em conta que, via de regra, o cinema nacional só consegue sobreviver apenas de dinheiro público, chama atenção tantos filmes nacionais sendo produzidos. E, mais uma vez, uma quantidade de projetos realizados justamente (e provavelmente) durante uma das piores crises do setor em anos, quando todos os investimentos/subsídios na produção audiovisual foram escassos ou simplesmente cancelados.