Série ‘Alex Rider’ refresca as histórias de espionagem na cultura pop

Em oito episódios, novo seriado do Amazon Prime Video entrega ao público uma produção bem acabada e principalmente fiel ao universo criado por Anthony Horowitz

  • Por Marcos Petrucelli
  • 18/09/2020 11h06 - Atualizado em 18/09/2020 19h20
Divulgação/Amazon Prime Video'Alex Rider' está disponível no Amazon Prime Video

Histórias de espionagem são, há muito tempo, um filão amplamente explorado na literatura, que renderam personagens clássicos e passaram a fazer parte do imaginário popular. Criado pelo escritor Ian Fleming em 1953, o agente britânico James Bond, também conhecido pelo seu famoso código 007, que lhe dá permissão para matar, é possivelmente o mais famoso e comentado por todos. Bond é, ademais, o espião mais longevo nos cinemas, adaptado pela primeira vez para as telas em 1962, em “O Satânico Dr. No”. O ator escocês Sean Connery encabeçou o elenco no papel principal e é considerado por muitos o melhor intérprete do agente 007. Ao todo já são 24 filmes que compõem a franquia. O mais recente deles, “Sem Tempo para Morrer”, tinha previsão de estreia para abril de 2020, mas teve de ser adiado por conta da pandemia da Covid-19.

Assim como James Bond, outros personagens espiões que antes conquistaram leitores em todo o mundo também saíram das páginas dos livros para ocupar os cinemas. Em 1984, o americano Tom Clancy lançou “A Caçada ao Outubro Vermelho”, apresentando ao público Jack Ryan. Um agente secreto que se tornou especialista em operações envolvendo a antiga União Soviética, Ryan esteve em mais três adaptações cinematográficas: “Jogos Patrióticos”, “Perigo Real e Imediato” e “A Soma de Todos os Medos”. Atualmente, Jack Ryan voltou às manchetes por conta de uma série homônima feita para streaming produzida pela Amazon. Já são duas e excelentes temporadas completas.

O autor também americano Robert Ludlum é o criador do personagem Jason Bourne, um agente secreto altamente qualificado, mas ao mesmo tempo atormentado por não conhecer seu passado – ou melhor, sua própria identidade. Não por acaso, o primeiro livro de Lundlum que apresentou Bourne intitula-se “A Identidade Bourne”, de 1980. Uma adaptação para TV chegou a ser produzida em 1988, estrelada por Richard Chamberlain, mas Bourne se tornaria sensação internacional na pele do ator Matt Damon – astro que interpretou o personagem em outras duas produções, ambas de grande apelo e sucesso comercial.

Sabendo-se do enorme potencial do gênero, mas sempre envolvendo personagens adultos por uma questão até de coerência e credibilidade, alguns autores consideraram que um agente secreto adolescente poderia funcionar muito bem e encontrar seu nicho. Um deles é Anthony Horowitz, autor britânico que já acumula dez romances contando histórias de ação e aventura com o personagem Alex Rider. A saga do estudante Alex começa no livro “Stormbreaker”, que descreve como o jovem acaba sendo recrutado por uma agência do governo britânico para agir como espião. Tudo começa quando Ian Rider, o tio de Alex, aparece morto. Tão logo se iniciam as investigações, prova-se que aquilo que parecia ter sido apenas um acidente foi, na verdade, um assassinato. As primeiras pistas são desvendadas justamente por Alex Rider que, ainda mais surpreso, descobre que o próprio tio era um espião secreto.

A história, que ainda envolve o bilionário inescrupuloso Darrius Sayle e sua intenção de dominar a mente dos jovens por meio de computadores que ele fornece a todas as escolas britânicas, foi contada nos cinemas no filme “Alex Rider Contra o Tempo”, lançado em 2006. O escritor Horowitz é habilidoso em criar narrativas que envolvem certa complexidade, mas descritas de forma clara à compreensão do público juvenil. Mesmo assim, o resultado do filme foi um fracasso retumbante nas bilheterias. O motivo: a adaptação, conservadora e na ânsia de conquistar somente as crianças, acabou infantilizando demais o personagem, eliminando as características originais conhecidas na obra de Horowitz. Após os resultados pífios do filme em praticamente todos os países, os produtores decidiram demover qualquer possibilidade imediata de uma nova adaptação das aventuras de Alex Rider.

Mas nada como dar tempo ao tempo. Passados 14 anos, o espião adolescente está de volta em formato de série com a assinatura da Amazon Prime Video. A produção televisiva foi criada pelo premiado roteirista Gy Burt, que apresenta no currículo “The Borgias” e Wire in the Blood”, duas outras séries muito aplaudidas pelo público e crítica. Para garantir a qualidade desejada em termos de engenharia de produção, Gy Burt recorreu a parcerias (e um bom orçamento) com a Eleventh Hour Films e Sony Pictures. Já para não correr nenhum risco em se tratando de narrativa, pinçou duas ou três páginas do primeiro livro da série, “Stormbreaker”, somente para inserir o personagem na trama; mas desenvolveu toda a estrutura da ação a partir do segundo livro, “Alex Rider Desvenda Point Blanc”.

Trata-se, sim, de um produto endereçado ao público jovem, mas não aquele infantil que era alvo preferencial em filmes como “O Agente Teen” ou “Pequenos Espiões”. Nesta nova série, Alex Rider continua sendo um adolescente. No entanto, como descrito por Horowitz, é um garoto revelando-se adulto e descobrindo suas responsabilidades, mas também alguns pecados, começando pela ira. Alex, que já havia perdido os pais, agora sofre pelo assassinato do tio que foi o responsável pela sua educação e formação. A série apenas cita – e já é o suficiente – o fato de ele ter sido treinado pelo tio em diversas habilidades não apenas intelectuais, como de defesa pessoal. Numa cena em especial, Alex Rider é confrontado e já vai logo avisando que é mestre em Krav Maga, um tipo de luta marcial criada pelos israelenses. Os objetivos de Alex: descobrir e se vingar do assassinato do tio.

Em oito episódios, “Alex Rider” entrega ao público uma produção bem acabada e principalmente fiel ao universo criado por Horowitz. A trama de “Point Blanc” é, sob todos os aspectos, bastante atual na medida em que discute limpeza étnica, discursos genocidas, além da clonagem humana e os possíveis resultados nocivos quando utilizada para fins maléficos, o que evidentemente é o caso aqui. Em toda história de espiões, há também um excelente vilão para se odiar. O insano da vez que quer dominar o mundo é o Dr. Greif, um tipo medonho que usa bigode ao estilo Stalin e solta frases decoradas dos discursos de Hitler.

Contar com um bom vilão parece ser o segredo em boa parte das narrativas, sejam elas os contos de fada da Disney, na literatura escapista de J.R.R. Tolkien em “O Senhor dos Anéis” ou em aventuras de espionagem com ação frenética. James Bond, Jack Ryan e Jason Bourne não sobreviveriam se não confrontassem antagonistas malvadões e assustadores.  Nesse sentido, Alex Rider não poderia ficar isento da descoberta inescapável de que o mundo é dividido entre o bem e o mal. No entanto, ao contrário de seus colegas espiões já adultos, com uma personalidade já moldada pelos anos de experiência que garantem determinação e frieza no modo de agirem, Alex Rider esbanja aquela ingenuidade típica da adolescência, mas igualmente o frescor atraente da juventude.