Falta de voluntários e exploração de países pobres: como o sucesso clínico cria dilemas éticos na pesquisa

É considerado antiético impedir que participantes de um estudo tenham acesso a um tratamento ao qual já teriam direito; uma alternativa é fazer testes em lugares onde a vacina não está disponível

  • Por Mônica Magalhães
  • 20/06/2021 08h00
Divulgação/Governo do Estado de São Paulo - 23/06/2021O Butantan procura voluntários para os testes clínicos da vacina ButanVac

A escolha de metodologia para os ensaios clínicos da ButanVac e a possibilidade de que o calendário de vacinação antecipado possa dificultar o recrutamento de participantes ilustram como o sucesso clínico gera dilemas éticos na pesquisa. Uma vez que existe um tratamento ou vacina em uso, fica mais difícil testar novas alternativas por motivos práticos e éticos. O motivo prático é a dificuldade maior em convencer voluntários a participar de um estudo quando existem alternativas. Quando começaram os primeiros testes de vacinas contra a Covid-19, comparadas a um placebo, ninguém tinha perspectiva nenhuma de ser vacinado fora de um estudo. Portanto, existiam números suficientes de pessoas dispostas a correr o risco de contribuir com a ciência e ainda ter uma chance de tomar uma vacina possivelmente eficaz. Receber o placebo, pelo menos, não faria mal (em certos estudos, é comum dar o novo tratamento com prioridade para os participantes que receberam placebo, se for provada sua eficácia. Nesses casos, há ainda esta vantagem em participar, mesmo no grupo de controle. Mas, no caso das vacinas contra a Covid-19, esta prioridade foi questionada, pois imunizantes escassos iriam para voluntários saudáveis em vez de grupos mais vulneráveis, priorizados no mundo todo). Mas, conforme as vacinas autorizadas chegam à população geral, os voluntários começam a abandonar os ensaios clínicos.

Mesmo que haja voluntários dispostos a participar, em geral é considerado antiético impedir que participantes de um estudo tenham acesso a um tratamento ao qual teriam direito normalmente. Então, restam duas possibilidades. A primeira é fazer testes em países onde o tratamento ou vacina que já existe não está disponível. Surge um claro risco de exploração de países pobres, nos quais a população não tem acesso a tratamentos comuns nos países ricos. Para cada voluntário que entra em um estudo, a decisão vale a pena: uma chance de receber um tratamento inovador e, em alguns casos, acompanhamento médico mais intensivo, mesmo para quem recebe placebo. Mas cria-se um problema de justiça, em que o desenvolvimento de terapias, atendendo as prioridades de saúde dos países mais ricos, depende da existência de nações onde o nível de acesso a medicamentos e ao atendimento à saúde é muito inferior. A segunda solução possível é usar os tratamentos ou vacinas já existentes como grupo comparativo. Nos testes da ButanVac, a metodologia escolhida compara a nova vacina com as vacinas já disponíveis, minimizando o uso de placebo. Assim, os voluntários do grupo de controle poderão se imunizar e não vão ficar sem a vacina a que teriam direito fora do estudo. 

Em outras áreas de pesquisa clínica, como a busca pela cura do HIV, ainda não há como evitar o dilema. Hoje existem terapias antirretrovirais muito eficazes que inibem a multiplicação do HIV, embora não o eliminem. Isso preserva o sistema imunológico das pessoas que vivem com o vírus e, consequentemente, sua qualidade e expectativa de vida. Baixas quantidades de vírus também reduzem ou eliminam as chances de transmissão do HIV. Mas, assim como no caso das vacinas, o sucesso clínico cria dilemas éticos na pesquisa: existem possíveis terapias em desenvolvimento, ainda em estágios iniciais, com o objetivo de eliminar (“curar”) o vírus. Mas como testá-las de forma ética? No mínimo, para observar se a terapia experimental funcionou, é preciso interromper a medicação antirretroviral dos participantes a fim de ver se o vírus volta a se multiplicar, o que não seria indicado fora do estudo. É um problema difícil, mas um bom problema para se ter.