João Alberto: criminoso ou negro oprimido?

Um homem morreu, e, mais uma vez, ignora-se sua dignidade em função de achismos norteados por bandeiras politizadas, guiadas pelo ódio, possivelmente invertendo alguns papeis, incitando mais violência

  • Por Paulo Mathias
  • 29/11/2020 08h00
Reprodução/Redes sociaisJoão Alberto Silveira Freitas, 40, foi morto no estacionamento de uma unidade do Carrefour em Porto Alegre

Um fato ocorrido na semana passada em uma loja do Carrefour, em Porto Alegre, onde um homem negro foi espancado e morto por dois seguranças, me trouxe à mente os questionamentos do pensador e economista americano Thomas Sowell, quando diz que: “O racismo não está morto. Ele é mantido vivo por políticos, oportunistas e pessoas que têm um senso de superioridade ao denunciarem outros como racistas”. E vem à tona um questionamento sobre o pré-julgamento de fatos que necessitam de prudência e racionalidade para serem avaliados por nós, meros espectadores de situações que nos causam, ao mesmo tempo, incompreensão e revolta. Isso requer um senso crítico, baseado em fatos, para que possamos compreender quais os reais motivos que levaram a um ato imperdoável, que precisa ser melhor explicado: o espancamento que trouxe a morte de João Alberto Freitas, de 40 anos, resultou em função da cor de sua pele ou foram outros os motivos que desencadearam tal ato? Prudência é a bola da vez. Julgar requer análise do acontecido para não cairmos em narrativas vazias.

As agressões que levaram João Alberto à morte tiveram início após um desentendimento da vítima com uma funcionária do supermercado, e pouco se sabe a respeito dos reais motivos que desencadearam a discussão entre as partes (se havia um desentendimento anterior de João com os agressores e outras tantas questões que pairam no ar). O que levou esses seguranças, um deles policial militar, a cometerem um ato tão violento e reprovável, sejam quais forem as razões que incitaram tal ação? O que teria ocorrido, de fato, dentro do estabelecimento com as partes envolvidas? Perguntas que ainda aguardam respostas. Quanto à funcionária do Carrefour envolvida no caso, a mesma que, após se desentender com o homem agredido, foi à porta do estabelecimento e filmou o momento da agressão e morte de João, o que se tem notícia é que essa mulher foi presa, temporariamente.

Fatos que induzem a um esclarecimento sobre o histórico do racismo no Brasil, que resistiu ao tempo e se manifesta em diferentes vestes, embora a interpretação sobre essas questões seja muitas vezes irresponsável, sem fundamentação e com vieses partidários. Para tanto, é prudente que façamos uma viagem ao passado colonial brasileiro, palco de uma sociedade escravocrata, imposta pelos colonizadores portugueses e que, ainda hoje, faz com que grande parte da população considere que a raça interfere na qualidade de vida do cidadão. A abolição, de acordo com o historiador Alexandre Almeida Marcussi, trouxe uma liberdade jurídica, porém, socialmente, os ex-escravos e seus descendentes permaneceram inferiorizados. Ele assim retrata: “Por mais que tenha havido a conquista da liberdade jurídica e relativa mobilidade social ascendente para alguns africanos e seus descendentes, é inegável que eles, como um todo, sempre ocuparam os lugares mais baixos da hierarquia social brasileira, em relação aos portugueses e seus descendentes radicados no Brasil”. Esse sentimento remete ao apartheid ocorrido na África do Sul, termo que traça um paralelo com a separação de brancos e negros africanos e que descreve os aspectos da desigualdade econômica e social no Brasil. Conhecer a nossa história nos permite um maior embasamento para olhar para os acontecimentos de forma imparcial, porém com conhecimento de causa, sem a pretensão de julgar, antes de observar com atenção os dois lados da moeda. Essas constatações me fazem não descartar a possibilidade de que o crime ocorrido no estacionamento de uma das unidades do Carrefour tenha uma origem racista, porém, é preciso que as questões sem resposta sejam esclarecidas para que possamos construir um melhor entendimento sobre o que, de fato, ocorreu. São questionamentos ainda obscuros à nossa compreensão, que carecem de evidências.

O que fica de tudo isso é que o ser humano, diante do ocorrido no Carrefour dias atrás, mais uma vez é desconsiderado, ignorando-se sua dignidade em função de achismos norteados por bandeiras politizadas, guiadas pelo ódio, possivelmente invertendo alguns papeis, incitando mais violência, como o que foi constatado com o quebra-quebra de lojas da empresa de supermercados em alguns pontos do país. O Carrefour foi transformado em uma empresa racista, sem que a população tenha conhecimento de que a mesma possui um instituto que discute inclusão e igualdade racial, além de um quadro representativo de funcionários negros, o que, sem dúvida, não justifica qualquer ato de violência registrado. O que enxergo, agora no que concerne aos comentários de grande parte da imprensa, se houve ou não racismo, é de uma total irresponsabilidade, pois o sensacionalismo das matérias induz o cidadão a conclusões que nascem, não de seu discernimento, mas de preferências político-ideológicas de jornalistas que, ao invés de esclarecer, causam um enorme ruído na comunicação.

Saber se houve ou não racismo no incidente do Carrefour deixa de ser uma busca pela verdade, tornando-se uma disputa narrativa entre lados opostos. Como também é lamentável, nesse caso, a inércia dos espectadores, que apenas assistiram a um acontecimento de selvageria, sem manifestar qualquer atitude, mantendo-se estáticos, como em um circo de horrores da Roma Antiga, em que os leões devoravam escravos. A nossa sociedade parece ignorar a morte de um ser humano como indivíduo, seja ele branco, negro, pardo, roxo ou de outra nuance de cor. O que parece importar não é a vida pela vida, mas o que aquele indivíduo carrega consigo e transparece aos olhos de diferentes ideologias político-partidárias, que levam a confrontos cada vez mais violentos, sendo que os envolvidos, muitas vezes, não têm uma noção clara da origem de seus atos, e são levados a esse lugar como em uma manada enfurecida. Um cenário que ilustra bem esse sentimento é a questão do racismo nos estádios de futebol no Brasil, que provoca reações violentas e aponta para uma sociedade com atitudes que demonstram a não superação da barreira do racismo. A democracia racial, aqui representada nos estádios, é uma utopia; da mesma forma, o incidente em que uma funcionária negra, também do Carrefour, tentou apagar o incêndio dentro da loja, provocado por vândalos, em resposta ao assassinato do homem negro no estacionamento de outra loja da rede. O que isso representa? O retrato de uma sociedade que deveria lamentar a morte de João Alberto por ele ser, simplesmente, humano. Mas o que transparece é a falta de sensibilidade com a dignidade da vida do homem, em que um assassinato bárbaro representa o espetáculo político da contemporaneidade, que colocou na negritude a resposta para todas as suas inquietudes. Prudência, sempre.